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Campo Grande, Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017

28/11/2017 08:00

O destino levou o pai de Kendra de repente e, dois dias depois, trouxe um filho

Conviver com o que a vida leva e traz é um desafio à felicidade, mas sempre serve de lição

Thailla Torres
(Foto: Arquivo Pessoal)(Foto: Arquivo Pessoal)

A data foi 28 de outubro de 2017. Ver o pai, Irineu Vobeto, morrer de forma inesperada trouxe à tona uma mistura de sentimentos para Kendra. Dois dias depois, nasceu o filho dela, criando mais uma daquelas ironias da vida. "Meu pai estava feliz, muito feliz. Um dia antes ele havia jantado com a família, sempre conversando, sorrindo e brincando. Era um homem de 61 anos com espírito jovem, mas responsável, sempre disposto a fazer nossa família feliz. Mas naquele dia ele estava mais radiante. Porque 2 dias depois era nascimento do terceiro neto, o segundo filho que estava na minha barriga", conta ela.

Uma das últimas pescarias. (Foto: Arquivo Pessoal)Uma das últimas pescarias. (Foto: Arquivo Pessoal)

A descrição de Kendra é o início da procura de respostas que, hoje, completa um mês. Irineu partiu 2 dias antes do nascimento do neto, que chegou para amenizar a dor da família inteira. "Enquanto eu estava no meu pior momento, de dor imensurável, Deus enviou o que tinha de melhor para mim, o filho. É assim que eu tento pensar todos os dias e aos poucos entender o que fez ele partiu tão cedo", conta.

Irineu teve sua história empreendedora interrompida, inesperadamente, quando chegou para mais um dia de trabalho em sua transportadora, nas Moreninhas. Aos estacionar o carro, como de costume, o segurança veio recebê-lo, quando perguntou se o chefe estava bem. "Naquela hora meu pai respondeu que estava sentindo falta de ar e pediu para o segurança ligar para a minha mãe".

O pai desceu do carro e sentou-se em um banco, sob a paineira que há anos era um dos cantos que ele mais gostava na empresa. "Foi ele quem plantou", explica. Mas sem dar tempo da ligação, Irineu desmaiou. "Quando o segurança foi discar o número, só escutou barulho do meu pai caindo. O funcionário usou o próprio celular para ligar pra família e para o Samu [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência]".

Kendra estava em casa quando recebeu a notícia de que algo havia acontecido. "Eu cochilava e meu marido assistia televisão quando o telefone tocou. No primeiro momento ele disse que o alarme da empresa havia disparado, mas eu sabia que um alarme não o deixaria com aquela expressão de medo. Na hora pedi para que me contasse a verdade".

Na chegada mais importante, Kendra homenageou o pai.  (Foto: Arquivo Pessoal)Na chegada mais importante, Kendra homenageou o pai. (Foto: Arquivo Pessoal)

O socorro foi em questão de minutos. Irineu foi encaminhado aà UPA (Unidade de Pronto Atendimento) mais próxima ainda com vida. A irmã de Kendra, que chegou na hora do socorro, conseguiu ver as lágrimas de o pai, mas sem nenhuma resposta se viveria. "Eu sabia que alguma coisa séria estava acontecendo, mas tentei pensar que ele seria socorrido, nós encaminharíamos para um hospital melhor e ele viveria. Mas de repente tudo mudou".

Da alegria que Kendra sentia pela chegada do segundo filho, o coração foi tomado pela tristeza. Irineu partiu 1 hora depois de ser socorrido. A família autorizou a biópsia que revelou uma ruptura na aorta torácica. "Ele fazia exames a cada seis meses, o último foi em julho que constatou um problema na veia, mas por algum motivo, que a gente desconhece, ele não fez nenhum procedimento cirúrgico. Mas sei que meu pai sempre foi muito preocupado com a saúde e nunca teve medo de tratar qualquer problema", diz a filha.

Com a cesariana marcada para 30 de outubro, no dia anterior Kendra passou as horas no velório. "Foi a pior dor que eu poderia ter sentido naquele momento. Eu lembrava de cada sorriso dele, da expectativa com a chegada do neto, do jantar com a família, do carinho, da força. Era uma dor inexplicável que cheguei a pensar que não passaria".

No dia seguinte, Kendra foi internada para o parto, enquanto a família viajava para cremar o corpo de Irineu em São Paulo. "Eu chorava muito quando entrei na sala de cirurgia, pensei que só a tristeza tomaria conta daquele momento, enquanto eu me perguntava o porquê de tudo aquilo estava acontecendo".

Mas o instante do choro de Benjamin abriu espaço no coração da mãe. "Foi incrível, quando senti e escutei ele chorando. Foi como se meu pai estivesse ali comigo, segurando a minha mãe e dando aquela força que ele sempre deu". 

O primeiro nome foi escolhido pelo filho de 5 anos de Kendra. Mas em homenagem ao pai, agora é Benjamin Irineu. "Eu não tive dúvidas em escolher esse nome. Tenho certeza que ele foi um presente de Deus e que o meu pai o acompanhou a momento. É o que me ajudou a compreender a partida e principalmente que eu preciso me dedicar a essa nova chegada. Infelizmente a morte é dolorida de qualquer forma, mas em algum momento a gente precisa lidar com ela, mesmo que dolorosa".

Um orgulho - Irineu foi um pai, amigo, empreendedor e homem de sucesso. Além da contribuição para o setor de transportes, atuou em outras frentes, recebendo prêmios por iniciativas ligadas à cidadania.

Nascido em 1955, em Pato Branco (PR), cresceu como empresário em Campo Grande. Aos 21 anos, quando ainda era estudante de Economia, comprou um caminhão Ford F-700 depois de trabalhar por algum tempo em uma transportadora de móveis. Com o veículo, partiu para extrair madeira no Pará, retornou a Mato Grosso do Sul e com outro caminhão, o de seu irmão, criou, em 1981, a Vobeto Transportes. Que completou 35 anos.

"Crescemos na empresa com ele e foi ali que nos ensinou o que era comprometimento. Além de empreendedor, nosso pai era muito responsável como ser humano. Gostava de fazer o bem e, principalmente, agir com o coração. Alguém que respeitava, que alegrava e que hoje faz muita falta".

Irineu deixou esposa, 2 filhas e 3 netos. Seu corpo foi cremado e as cinzas serão derramadas em São Paulo, na fazenda em Mato Grosso do Sul e na palmeira, plantada por ele, na empresa que fundou.

Irineu, esposa e as filhas. (Foto: Arquivo Pessoal)Irineu, esposa e as filhas. (Foto: Arquivo Pessoal)


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