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Campo Grande, Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018

06/02/2018 08:16

Pai e filha conseguem transformar a vida para melhor depois de descobrirem o HIV

Mesmo com uma trajetória de vida sofrida, Pedro e a filha são exemplos para famílias que enfrentam a doença

Thaís Pimenta
O pai coruja faz de tudo pra deixar a vida da pequena filha mais fácil. . (Foto: André Bittar)O pai coruja faz de tudo pra deixar a vida da pequena filha mais fácil. . (Foto: André Bittar)

O pai coruja, Pedro Vieira Neto, é pedreiro aposentado aos 59 anos. A história de homem sofrido poderia ser como de tantos outros, mas ele diz que encontrou a paz da maneira mais torta possível. Pedro e a filha são soropositivos. Mas a descoberta do HIV, transmitido pela mãe da menina, e ex companheira de Pedro, acabou criando novas e melhores possibilidades.

Os relacionamento amorosos de Pedro nunca foram saudáveis. Da relação com a primeira mulher, com quem teve três filhos, ficaram relatos de surras que, segundo Pedro, hoje são motivo de arrependimento.

A segunda companheira, com quem não chegou a se casar, o abandonou por 16 vezes, calcula ele. "Ela tinha acabado de ter a menina e quis voltar pra Nova Alvorada do Sul, que foi onde a gente se conheceu. Eu não podia acompanhar porque trabalhava em Campo Grande, mas ia todo fim de semana ficar com as duas", diz.

Pedro garante que a ex era extremamente agressiva com os dois filhos maiores dela. "Num dia eu cheguei e ela estava enforcando a mais velha. Ela era ruim mesmo com os filhos dela". Pedro conseguiu a guarda da filha e ai começou um novo caminho. "Um dia, depois de voltar de Nova Alvorada, eu baixei meus joelhos no chão e pedi pra Nossa Senhora Aparecida minha filha. Eu sabia que se ela ficasse com a menina o destino ia ser igual ao dos outros dois".

Durante a entrevista, ele se emocionou pelo menos oito vezes e não fez questão de esconder. . (Foto: André Bittar)Durante a entrevista, ele se emocionou pelo menos oito vezes e não fez questão de esconder. . (Foto: André Bittar)

A prece do pai foi atendida e a mãe da menina deixou que ele ficasse com a pequena, até então com três anos. "Quando cheguei para pegar ela fiquei chocado com a situação, ela tava infestada de piolho, com infecção intestinal e anemia", conta ele. Meses depois, a mãe da menina morreu de meningite.

A filha também começou a ficar doente com frequências e passou a reclamar de fortes dores na perna. "Na época morava perto do Tiradentes, levei ela lá no posto e passaram a gente na frente de todo mundo. Os médicos disseram que a tínhamos que ir pra outro local. Rodei essa cidade toda até chegar no Hospital Regional".

Lá, uma assistente social acompanhou pai e filha. "Eu já imaginei que era grave. Nos sentaram na cadeira e sugeriram o diagnóstico da soropositividade". Nesse momento, o mundo de Pedro desabou.

Mais de 79 tipos de exames foram feitos para confirmar o diagnóstico. O que antes era desconhecido por Pedro passou a faz parte da rotina da família. Os médicos também puxaram o cadastro da mãe da menina e tiraram a prova: ela havia realmente falecido por falta de tratamento e nunca disse que portava o vírus a ninguém. 

A casa humilde onde Pedro mora com a filha, no Bairro Moreninhas III, tem só o que é necessário para viver. Os mais de 16 frascos de remédios ficam na cozinha. A menina, hoje com 10 anos, faz questão de ir buscá-los pra vermos. "Ela toma todo dia oito comprimidos, pelo menos".

Pés que aos 10 anos de vida, já caminharam mais que de muita gente mais velha.  (Foto: André Bittar)Pés que aos 10 anos de vida, já caminharam mais que de muita gente mais velha. (Foto: André Bittar)

O paizão entendeu que tinha de avançar no conhecimento e na atenção à filha, para os dois sobreviverem com dignidade. Hoje, ele tem um objetivo: libertar a menina da doença um dia. A fé inabalável emociona e faz pai e filha caírem no choro quando Pedro afirma que "crê que Deus vai curar minha filha".

Por meio de outra assistente social os dois ficaram sabendo do trabalho do Lar dos Sonhos Postivos. Há 5 anos, a menina é atendida pelas irmãs da instituição voluntária. Pedro diz que não sabe como agradecer tanto carinho. "Todo santo dia passa um ônibus aqui em casa pra levar minha filha ao colégio. O Lar busca ela na escola e a leva pra sede da instituição, onde recebe auxílio médico, comida, apoio psicólogo, tudo, tudo. Como que eu não vou ser grato a eles?", questiona o pai, já emocionado.

No último atendimento de urgência da menina, um princípio de apendicite, o Lar dos Sonhos Positivios chegou antes mesmo da ambulância na casa da família. Além disso tudo, a instituição também ajuda mensalmente com uma cesta básica. "Eu falo que hoje a minha filha tem mais de dez mães graças às irmãs", comenta.

Pedro finaliza dizendo que seu sonho é ver filha formada. "Todo o dinheiro que eu tenho, que sobra, vai pra ela. Sei que minha filha merece o melhor de mim e o melhor que eu posso dar", diz.

O pai faz questão de vestir e calçar muito bem a filha, mesmo que ele esteja só de chinelos. "Eu não me importo em me vestir assim, mas ela não, ela precisa estar linda", brinca.

Aninha tem um celular com internet e deve receber como mérito por ter passado para o 5º ano um computador completinho. "Eu tiro parcelado, parece que não, mas quando você vê já pagou". Na humildade, a família dá um show do que é o amor verdadeiro.

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