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Comportamento

Pandemia afeta, mas não acaba com Festa do Divino Espírito Santo

Família que promove a tradicional festa religiosa em Figueirão arrumou alternativas para fazer os convites e a celebração

Por Lucas Mamédio | 31/05/2020 07:12
Cavaleiros levando a bandeira do Divino Espírito Santo para fazer os convites nas fazendas (Foto: Arquivo Pessoal)
Cavaleiros levando a bandeira do Divino Espírito Santo para fazer os convites nas fazendas (Foto: Arquivo Pessoal)

Causa certa angústia existencial ver uma coisa tão mundana quanto a pandemia de um vírus afetar drasticamente tradições centenárias e sagradas para muitos povos. Quem aí não ficou impactado com as imagens do Papa Francisco celebrando sozinho a missa em frente à Basílica de São Pedro, diante de um Vaticano completamente vazio?

Hoje era pra ser dia de união, adoração, muita música, comilança e aglomeração - tudo que uma boa festa possui - na comunidade quilombola Santa Tereza, no município de Figuerão, a 246 quilômetros de Campo Grande. Principalmente para a família Amorim Malaquias, que celebra há incríveis 111 anos a Festa do Divino Espírito Santo.

Esse ano não vai passar em branco, claro, mas tudo será diferente das outras 110 edições. Isso porque a pandemia do coronavírus impede que uma das festas religiosas mais tradicionais de Mato Grosso do Sul, proporcione a união e harmonia de uma família, de um povo.

Parte da família reunida pelo Google Meet para rezar o terço nos 15 dias que antecede a festa (Foto: Arquivo Pessoal)
Parte da família reunida pelo Google Meet para rezar o terço nos 15 dias que antecede a festa (Foto: Arquivo Pessoal)

Já já voltaremos nesse ponto, porém, pra entender o simbolismo da festa e como isso dialoga, mais do que nunca, com nosso momento atual, é preciso voltar no passado 111 anos, em 1909, portanto. Foi quando dona Maria Francelina de Jesus fez uma promessa por conta de outra epidemia, de Febre Amarela, que assolava população local na época.

Exasperada pela morte de duas pessoas, prometeu que se o remédio natural funcionasse para salvar outros familiares que apresentavam sintomas, ela rezaria para o Divino Espírito Santo até sua quarta geração

“Ela dobrou o joelho no chão e pediu a proteção do Espirito Santo, por causa do Pentecostes”, conta Domingos Malaquias, enteado de Dona Maria, segunda esposa de seu pai.

E assim foi. Incrivelmente os enfermos começaram a se curar e, a partir daquele momento, a devoção ao Divino Espírito Santo na comunidade Santa Tereza nascia. Poucos anos depois, em 1913, sabendo de uma Festa do Divino Espírito Santo no estado de Goiás, resolveu se inspirar e fazer o mesmo.

Parte da família na capela durante a pandemia (Foto: Arquivo Pessoal)
Parte da família na capela durante a pandemia (Foto: Arquivo Pessoal)

Para que as pessoas fossem convidadas a tempo, estabeleceu-se que, 15 dias antes do domingo de Pentecostes, um grupo de cavaleiros passaria pelas fazendas da região convidando amigos e familiares com a bandeira do Divino Espírito Santo na frente. Em cada fazenda seria realizado o convite e se rezaria um terço.

Ao final dos 15 dias, sempre calculado para dar no sábado que antecede o domingo de Pentecostes, todos iriam se reunir na capela da Fazenda Santa Tereza para chegada da bandeira do Divino Espírito Santo com adoração e festa.

A celebração se estenderia ao próprio dia de Pentecostes, que na tradição católica comemora a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos de Jesus Cristo, sua mãe Maria e outros seguidores.

Assim tem sido todos esses anos. São mais de duas mil pessoas juntas no final de semana de comemoração. Como dissemos, tem oração, tem festa, dança, música, muita comida boa. “O mais incrível é que 99%, de alguma forma, são da família Amorim Malaquias”, diz Felícia Amorim Malaquais.

Bom, chegamos ao ponto em que toda essa construção precisou ser repensada. No meio de uma pandemia, com muitos decretos limitando reuniões, além da consciência das pessoas, é claro, o que fazer?

Passagem dos cavaleiros nas fazendas (Foto: Arquivo Pessoal)
Passagem dos cavaleiros nas fazendas (Foto: Arquivo Pessoal)

Um membro da família, Fânia Amorim, promotora de justiça em Cuiabá, Mato Grosso, teve a ideia. “Pensei que podíamos usar a tecnologia, porque é Deus quem permite a ciência e a tecnologia, então vamos usar a nosso favor. Sugeri que nós usássemos alguma plataforma da internet para rezar o terço durante os 15 dias antes da festa e também durante o fim de semana de celebração”, disse direto de Cuiabá.

O filho de Felícia sugeriu a utilização da plataforma Google Meet, específica para videoconferência. “Nós nos reunimos esses últimos 15 dias, todos os dias, às 19 horas para rezar o terço”, explica Felícia.

Para a simpática Fânia, a exemplo de todos com quem conversamos da família, está sendo complicado porque tinha programado suas férias, como sempre, para esse período, para poder estar na festa. “É difícil ficar olhando minha mala ali e eu não poder viajar pra celebração. Nós não estamos juntos fisicamente, mas estamos de alma e coração, e isso que importa”.

Sobre o que vai sentir mais falta, ela não titubeia. “Ah, gosto muito de dançar e nossa família é boa de dança, viu!?”.

Houve, naturalmente, uma limitação no alcance da divulgação, pois muitas fazendas são afastadas, com conexão ruim ou inexistente. No destino final da bandeira, a capela da Santa Tereza, só quatro pessoas irão hasteá-la, todas protegidas e mantendo o distanciamento necessário. A ideia é que o momento também seja transmitido pelo Google Meet.

Assim como há 111 anos acredita-se que a fé de uma única mulher curou muitas pessoas de um vírus, esperamos que a devoção de seus descendentes seja capaz de, alguma forma, nos ajudar na cura que tanto precisamos, pois as pessoas podem ser diferentes, mas o Divino Espírito Santo é o mesmo.

Capela onde a festa é celebrada no sábado e domingo de Pentecostes (Foto: Arquivo Pessoal)
Capela onde a festa é celebrada no sábado e domingo de Pentecostes (Foto: Arquivo Pessoal)

Veja abaixo um vídeo com mais detalhes da Festa do Divino Espírito Santo:

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