Paquera nas Moreninhas tinha bilhete, locutor e até fuga pela janela
Resgatamos a história para mostrar como era o Flash Dance, que provocava vergonha e ansiedade em muita gente
Se você acha que flertar hoje é difícil é porque não viveu a época da Paquera das Moreninhas. Antes das mensagens, curtidas e aplicativos de namoro, paquerar por lá nos anos 80 e 90 exigia coragem, paciência e uma luta contra a timidez. Os jovens passavam a semana inteira esperando o domingo chegar para tentar a sorte. Entre caixas de som tocando flashback, bilhetinhos lidos no microfone por um locutor e olhares, até história de casamento teve.
RESUMO
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Antes dos aplicativos de namoro e mensagens instantâneas, jovens de Campo Grande viviam a chamada Paquera das Moreninhas, nos anos 1980 e 1990, onde bilhetes lidos por locutores e olhares tímidos marcavam os encontros dominicais do lado de fora do Clube Flash Dance, na Rua Friburgo. Com trilha sonora de Michael Jackson e Madonna, a tradição gerou namoros e até casamentos.
Muitas histórias de amor ou de corações partidos começaram ali mesmo, no chão batido das Moreninhas. O Campo Grande News resgatou parte dessa história que acontecia do lado de fora do Clube Flash Dance, na Rua Friburgo. Pelas ruas não faltam memórias dos tempos de ouro por lá.

“A paquera foi uma coisa maravilhosa. Foi muito bom. Nessa época éramos pessoas inocentes, saíamos no domingo para compartilhar com os nossos amigos. Passávamos a semana inteira pensando na paquera”, relembra o caminhoneiro Gesse Caetano dos Santos, de 56 anos.
Mas, apesar da animação, ele admite que conquistar alguém não era tarefa fácil. “Na época eu era o patinho feio, as meninas não gostavam de mim. Eu não tinha namorada e meus amigos já. Era complicado”, conta, aos risos.
Naquele tempo, o flerte dependia de um locutor e da coragem para escrever um bilhete. Feliz era aquele que ouvia o próprio nome no microfone. “Tinha um locutor que a gente pegava bilhete e mandava para uma série de pessoas. No meu caso, nunca recebi bilhetinho de ninguém. Eu entregava, mas não tinha resposta”, lembra Gesse. As mensagens eram simples e diretas: “Eu sou fulano, eu te amo, vem bater um papo aqui comigo”.
Mesmo sem sucesso nos bilhetes, ele acredita que o destino estava guardando outro encontro. Casado há 36 anos, Gesse conta que conheceu a esposa ainda criança, no bairro Piratininga, mas os dois se reencontraram anos depois por acaso.
“Na paquera ninguém mandava mensagem pra mim porque ela ia voltar e a gente iria se reencontrar”, diz. O reencontro aconteceu mesmo e foi durante uma festa infantil, justamente na mesma rua onde ele mora hoje. “Ela não sabia que era eu e nem eu ela. Já tínhamos 16, 17 anos”.
O comerciante Roberto da Silva Alcantud, de 51 anos, conhecido como Roberto 21, lembra que os adolescentes praticamente tinham um ritual aos domingos. “A gente tinha o nosso point. Saía dos clubes e ia para lá, ficávamos reunidos na praça. Não é como hoje com som alto e carro. A gente se reunia com rádios de fita”, conta.
Segundo ele, a diversão estava justamente na simplicidade. “A galera curtia mesmo era o movimento, dançar os passinhos”. E os recadinhos davam o tom da noite. “Quando chegava um recadinho, o locutor falava: ‘Ei, você de jaqueta x, tem fulano afim de você’. Era assim e dali saíam muitos namoros e casamentos”.
Mas nem todo mundo tinha vida fácil na paquera das Moreninhas. Lucimar Nogueira França, de 57 anos, além de enfrentar os desafios do amor adolescente, ainda precisava driblar a vigilância dos pais para conseguir sair de casa. “Meu pai e minha mãe não deixavam, eu fugia, pulava a janela”, conta, entre risos.

Ela lembra que o bairro lotava aos domingos. “Enchia de adolescente”. E existiam até certas “divisões territoriais”. “Moreninha 2 não podia vir na 3. Quem era de fora não podia entrar”. Mesmo assim, gente de outros bairros aparecia escondida no meio da multidão para participar da festa improvisada.
A trilha sonora era marcada por Michael Jackson, Madonna e Queen. “Não tinha celular, era na base do bilhete”, resume Lucimar. E apesar da fama das paqueras, ela garante que o clima era diferente dos dias atuais. “Não tinha pegação nessa época”.
Já Cezar de Medeiros, de 55 anos, recorda que além dos bilhetes, existiam outros “sinais” de interesse. “Tinha casca de bala amarrada para mandar beijo. A gente amarrava e dava pras meninas, era sinal que a gente queria um beijo”, explica.
Os amigos também ajudavam na missão. “Os bilhetes a gente escrevia e mandava o amigo nosso entregar. Ele falava: ‘estão afim de você, achei você bonita, queria um beijo, queria te conhecer’. Era coisa de menino”.
Entre danças, recados no microfone e romances tímidos, a paquera das Moreninhas virou memória afetiva de uma geração inteira. Uma época em que esperar um simples bilhete podia fazer o coração bater mais rápido durante a semana toda.
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