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Comportamento

Entre tortilhas e puchero, culinária aproxima paraguaios de casa

Cristina Velasques e Maria mantêm vivas as tradições no bairro Guanandi e as passam aos netos

Por Natália Olliver | 14/05/2026 06:55
Entre tortilhas e puchero, culinária aproxima paraguaios de casa
Receita simples de tortilha paraguaia vira maneira de Cristina manter as origens (Foto: Natália Olliver)

Vori vori, puchero, dobradinha, chipa, sopa. Esses são alguns dos pratos típicos de um país que faz divisa com Mato Grosso do Sul. No Dia do Povo Paraguaio, 14 de maio, o Lado B foi a um dos bairros onde muitos resolveram morar em Campo Grande. E, apesar da timidez, Cristina Velasques, de 57 anos, mostra como prepara uma das receitas que herdou da mãe e fez questão de passar para os filhos, netos e bisnetos: a tortilha paraguaia.

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No Dia do Povo Paraguaio, celebrado em 14 de maio, duas imigrantes paraguaias residentes no bairro Guanandi, em Campo Grande, mostram como a culinária mantém vivas as tradições do país de origem. Cristina Velasques, de 57 anos, e Maria Nélida, de 56, preservam receitas como tortilha, chipa e vori vori, transmitidas de geração em geração, como forma de manter a identidade cultural mesmo longe do Paraguai.

No bairro Guanandi, onde Cristina mora com a família, ela é famosa por convidar as pessoas para experimentar os sabores paraguaios. Vinda do país vizinho quando tinha 30 anos, a paraguaia não abandona as tradições culinárias. Isso foi uma das coisas que ficaram, quase tudo foi “embora”, mesmo com pedidos médicos.

Ela conta que em uma consulta foi solicitado que parasse com comidas gordurosas e frituras, mas Cristina não consegue abandonar, principalmente os pratos feitos com carne e banha de porco.

A culinária do Paraguai mistura muita influência indígena guarani com receitas herdadas dos espanhóis. O milho, a mandioca, o queijo e a carne aparecem em quase tudo, principalmente nos pratos mais tradicionais.

Pega de surpresa, Cristina escolhe fazer tortilha pelo simbolismo, mas também pela praticidade. Foi só começar a juntar os ingredientes que os netos já ficaram ansiosos pelo resultado. A coisa toda é simples, mas ela faz com orgulho.

Entre tortilhas e puchero, culinária aproxima paraguaios de casa
Entre tortilhas e puchero, culinária aproxima paraguaios de casa
Receita da tortilha é herdadade geração em geração na família de Cristina Velasques (Foto: Natália Olliver)

A receita veio da mãe e nunca teve medida certa. Cristina faz tudo no “olhômetro”, do jeito que aprendeu ainda no Paraguai. Em uma tigela, ela mistura farinha de trigo, três ovos, sal e leite até a massa ficar homogênea. Nem muito líquida, nem grossa demais. O segredo, segundo ela, é bater até o ponto certo aparecer sozinho.

“Isso no Paraguai é muito tradicional. Eles gostam de comer junto com um chá de lá. Aqui a gente come junto com chá mate mesmo”.

Na tortilha de Cristina não vai fermento. A ideia é que a massa fique parecida com um disco irregular quando encosta no óleo quente. Depois de aquecer a panela, ela despeja pequenas porções e espera a massa crescer e dourar.

 O cheiro toma conta da cozinha antes mesmo de a primeira leva ficar pronta. “Meu médico falou para deixar de comer fritura, mas não tem como. Fala que eu não posso, que tenho que comer”.

Entre tortilhas e puchero, culinária aproxima paraguaios de casa
Tortilha parece um bolinho mais fino e salgado (Foto: Natália Olliver)

Entre uma tortilha e outra, Cristina relembra a mudança para Campo Grande. Quando atravessou a fronteira, os filhos ainda eram pequenos e ela precisou começar a vida do zero. Veio porque a irmã já morava na Capital e ajudou na adaptação. Trabalhou como diarista, foi cozinheira de peão e aprendeu a construir uma rotina longe do país onde nasceu.

“Meus filhos gostam da culinária de lá. Antes falava guarani, agora já não falo mais, falava castelhano também”.

Enquanto explica o processo da massa, ela mostra o ponto certo e o momento exato de virar a tortilha na panela. Depois de dourar dos dois lados, os discos são colocados sobre papel-toalha antes de serem servidos ainda quentes. “Eu ensinei a tradição para os meus netos. Falei para um deles mexer a massa, colocar o trigo. Ele fez e ficou gostoso o dele”.

Hoje, Cristina diz gostar da vida construída no bairro Guanandi. Entre lembranças do Paraguai e os anos em Campo Grande, a culinária continua sendo a forma mais forte de manter as raízes por perto.

“Eu casei de novo aqui e meu marido faleceu. O primeiro faleceu no Paraguai. Gosto de tudo da culinária: puchero, tortilha, sopa e dobradinha. Eu não deixo de comer não. Nem por saúde”. Ela explica que a tortilha se parece com um bolinho fino salgado e que, embora parecida, não se assemelha à que conhecemos do tradicional bolinho de chuva.

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Maria Nélida não sabia falar uma palavra de português quando chegou em Campo Grande (Foto: Natália Olliver)

A poucas ruas dali, outra paraguaia também encontrou na comida um jeito de não perder as memórias do país de origem. Maria Nélida, de 56 anos, chegou a Campo Grande em 2000 por causa das filhas, que precisavam de tratamento médico. Uma delas é cadeirante e passou por nove cirurgias na Capital.

Sem saber falar uma palavra em português, Maria precisou aprender “na marra”. Voltou a estudar, refez os anos escolares e começou uma nova vida enquanto cuidava das meninas.

Ela lembra que veio graças à ajuda de Celso Portiolli, que morou em Ponta Porã, divisa com o Paraguai, por 13 anos. Foi ele quem arrecadou dinheiro para trazer a família até Campo Grande. A primeira viagem aconteceu em uma caminhonete, quando ela estava grávida de oito meses. “Eu devo a vida da minha filha para ele praticamente”, comenta.

Depois de anos dedicada apenas às filhas, que precisavam dela, hoje, Maria é costureira, ganha a vida fazendo reparos para vizinhas e clientes que conquistou ao longo do tempo. Para ela, a barreira linguística foi quase como um pesadelo. Foi preciso muito esforço para conseguir se adaptar à nova realidade.

Assim como Cristina, Maria também mantém viva a culinária paraguaia dentro de casa. Faz sopa paraguaia, vori vori, caldo, chipa e tortilha com frequência. Para ela, a comida carrega a lembrança da infância e do jeito simples que as famílias encontravam para alimentar muita gente com pouco. “Lá a vida é muito precária. Então para render você faz o caldo. Faz o guisado de mandioca, que é a comida de lá também”.

Entre tortilhas e puchero, culinária aproxima paraguaios de casa
Maria vive da costura, faz reparos para vizinhas e clientes que conquistou ao longo dos anos (Foto: Natália Olliver)

Entre as receitas preferidas está a chipa, feita com polvilho azedo, coalhada, ovos, banha de porco e queijo curado do Paraguai. Maria ri ao comparar a versão original com as adaptações feitas no Brasil. “Esse que a gente faz aqui é falsificado. O de lá é diferente”.

No Guanandi, as receitas atravessaram a fronteira junto com as famílias paraguaias. Entre panelas, massas e frituras, os pratos seguem ocupando espaço na mesa e também nas histórias de quem deixou o país natal, mas não abriu mão do sabor de casa.

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