Perfil de adoção muda em MS e casal que buscava bebê ganha filha de 11 anos
No Estado, 74 dos 104 em cadastro são adolescentes; famílias passam a escolher faixas etárias maiores
Durante anos, Graziele imaginou que, ao se tornar mãe, chegaria em casa e veria uma criança pequena correr em sua direção para abraçá-la, uma cena que fazia parte do sonho que levou ela e o marido a definirem o perfil desejado para a adoção. O abraço, porém, veio de quem o casal não imaginava, uma menina de 11 anos que, aos poucos, transformou a rotina da família e, nas palavras da mãe, trouxe “brilho” para a casa.
RESUMO
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Famílias brasileiras têm ampliado o perfil para adoção, aceitando crianças mais velhas e grupos de irmãos. Em Mato Grosso do Sul, 74 dos 104 aptos à adoção têm entre 12 e 17 anos. A juíza Katy Braun destaca avanços, mas alerta que adolescentes ainda esperam por famílias. Adoções internacionais são residuais, com apenas 8 casos nos últimos 5 anos ante 524 nacionais.
A construção desse vínculo aconteceu de forma gradual. Enquanto a aproximação com o pai foi mais rápida, Graziele precisou de mais tempo para conquistar a confiança da filha e perceber, nos pequenos gestos do cotidiano, que a relação entre as duas começava a se fortalecer. Cerca de seis meses depois do início da convivência, aconteceu a cena que ela havia imaginado tantas vezes. Ao voltar do trabalho, viu a menina correr em sua direção e, pela primeira vez, abraçá-la espontaneamente.
“Era um sonho que eu tinha”, conta Graziele, hoje com 38 anos. “Aconteceu de uma forma natural, aconteceu de uma forma gradual.”
A história reflete uma mudança percebida pela Justiça em Mato Grosso do Sul. Segundo a juíza Katy Braun, da Vara da Infância, Adolescência e do Idoso de Campo Grande, os pretendentes brasileiros têm ampliado o perfil desejado para a adoção, demonstrando maior abertura para crianças mais velhas e grupos de irmãos.
O desafio ainda é grande. Dos 104 crianças e adolescentes atualmente aptos à adoção em Mato Grosso do Sul, 74 têm entre 12 e 17 anos. Ou seja, aproximadamente sete em cada dez que esperam por uma família são adolescentes.
Fora do idealizado - Graziele e o marido estão juntos há 21 anos e casados há 15. Depois de enfrentarem a infertilidade, começaram a considerar outros caminhos para formar uma família. Uma pergunta feita durante a terapia ajudou Graziele a refletir sobre o que realmente desejava. A psicóloga perguntou se ela queria engravidar ou ser mãe.
A partir daí, conta, o casal se abriu para outras possibilidades. “Começamos a pensar que existem várias formas de amar e que a gravidez não é exclusiva para ser mãe”, relata.
Quando iniciaram o processo, buscavam crianças pequenas e estavam abertos a receber até três irmãos. Durante a preparação, porém, Graziele conheceu a busca ativa, estratégia para encontrar famílias para crianças e adolescentes aptos à adoção que não tiveram pretendentes compatíveis no Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento. Foi por meio do sistema online que ela teve contato com histórias de crianças fora do perfil inicialmente escolhido.
“Eu fui abrindo a minha mente para poder tentar ver fora da minha bolha”, conta Graziele, que considera a experiência um “divisor de águas”. Foi assim que encontrou a fotografia da menina, então com 11 anos. Mostrou a imagem ao marido e contou que havia ficado encantada.
“Meu coração se abriu aqui de uma forma que eu não consigo descrever.”
O interesse deu início a uma aproximação acompanhada pelas equipes responsáveis. Houve conversas, preparação e encontros por videochamada antes do contato presencial. Do fim de janeiro até 31 de março do ano passado, quando o casal chegou a Campo Grande, foram cerca de três meses.
Sete em cada 10 são adolescentes - Integrante da Comissão Estadual Judiciária de Adoção Internacional há 16 anos, Katy Braun afirma que os brasileiros interessados em adotar têm feito escolhas menos restritivas. “Hoje o brasileiro adota crianças mais velhas, crianças com problemas de saúde, grupos de irmãos.”
A juíza recorda que, no início da carreira, há 27 anos, chegou a ter dificuldade para encontrar pretendentes para uma criança de apenas 2 anos, idade que, na época, já era considerada avançada por algumas famílias.
Hoje, segundo ela, a realidade é diferente. Um casal de outro Estado, por exemplo, iniciou estágio de convivência com três irmãos, sendo o mais velho adolescente. “Isso há cinco anos era quase impossível de pensar”, compara.
Em outro caso recente, um casal jovem se habilitou para adotar um menino de 6 anos que já aguardava uma família. Assim que entrou no cadastro, houve compatibilidade. “Eles entraram no cadastro e saíram no mesmo dia.”
Para Katy, a transformação está menos no número de pretendentes e mais nas escolhas feitas pelas famílias.
“Eles estão vindo com um perfil melhor, com menos exigências. Então a gente está conseguindo concretizar mais adoções nacionais, porque a cultura da adoção se fortaleceu no Brasil.”
Apesar dos avanços, a idade ainda pesa na espera. “Evoluiu, mas ainda podemos melhorar. Porque ainda tem adolescentes aguardando por uma família.”
Perfil interfere no tempo de espera - A ampliação do perfil também pode reduzir o tempo entre a habilitação e o encontro com uma criança. Graziele e o marido foram habilitados em novembro, manifestaram interesse pela menina em janeiro e, em março, já estavam em Campo Grande para iniciar a aproximação.
Segundo Katy Braun, não é possível estabelecer um tempo médio de espera porque o intervalo depende das características definidas pelos pretendentes. Há quem encontre rapidamente uma criança compatível e quem estabeleça um perfil mais restrito e permaneça mais tempo no cadastro.
“Quando eles abriram o coração para uma criança que estava precisando de uma família, não para uma criança idealizada, essa criança já existia”, afirma a magistrada sobre o caso de Graziele.
Casa cheia - Hoje com 12 anos, a filha de Graziele gosta de estudar, tornou-se participativa na escola, fez amizades e aprendeu a ler. A família voltou à fila de adoção e mantém o desejo de receber irmãos, projeto que, segundo a mãe, também conta com a expectativa da menina.
Em casa, ela conversa, brinca e gosta de estar com avós, tios e primos. Graziele procura aproveitar esses momentos, inclusive sentando no chão para brincar com a filha.
“Hoje a casa está cheia de brilho”, resume.
Família italiana - Se a história de Graziele mostra uma criança mais velha encontrando uma família brasileira, a trajetória de um menino do Estado revela que, em alguns casos, esse encontro acontece do outro lado do oceano.
Brenno, nome usado nesta reportagem para preservar a identidade do menino, tinha 10 anos quando foi adotado por um casal italiano. No período em que viveu em acolhimento, costumava dizer às cuidadoras que sonhava em ter uma família.
Em fevereiro deste ano, completou-se um ano da adoção. O menino passou a chamar o dia 17 de fevereiro de seu “aniversário italiano” e, para marcar a data, escreveu uma carta aos pais. No texto, recordou que rezava à noite para ter uma mãe e um pai, mesmo sem saber exatamente como seria viver essa relação, e lembrou o primeiro encontro da família em Campo Grande.
“Foi amor desde o primeiro abraço que demos”, escreveu.
Na carta, Brenno agradece pelo cuidado recebido e conta o que passou a descobrir na convivência familiar. Ao falar da mãe, menciona o carinho ao desejar boa-noite e a preocupação com o filho. Do pai, destaca a amizade construída entre os dois.
“Este 17 de fevereiro é um dia importante tanto para vocês quanto para mim, porque foi quando vocês se tornaram pais e se tornaram a minha família”, escreveu o menino em italiano.
O casal, ambos com 55 anos, foi representado pela Associazione Di Volontariato Per La Famiglia e L’Adozione – Il Mantello, organismo internacional que atuou no processo.
Conforme informações repassadas pela Justiça, esses organismos são entidades privadas sem fins lucrativos que podem atuar em adoções internacionais quando credenciadas pelas autoridades competentes. No Brasil, apresentam às comissões estaduais de adoção os pedidos de habilitação de pretendentes que vivem no exterior e desejam adotar crianças ou adolescentes residentes no País.
Adoção internacional - Nos últimos 5 anos, Mato Grosso do Sul registrou oito adoções internacionais, diante de 524 nacionais. Foram três internacionais em 2021, nenhuma em 2022, três em 2023, nenhuma em 2024 e duas em 2025. Os números mostram que a modalidade representa uma parcela pequena do total, embora a série, isoladamente, não permita concluir que esteja em queda.
Segundo Katy Braun, a adoção internacional é residual e ocorre quando não há pretendentes brasileiros interessados naquela criança. No passado, crianças maiores, grupos de irmãos e aquelas com problemas de saúde encontravam mais oportunidades no exterior diante da resistência dos brasileiros a esses perfis.
Com a ampliação das escolhas das famílias brasileiras, parte dessa realidade mudou, embora o desafio permaneça principalmente para adolescentes e crianças com problemas de saúde que continuam aguardando uma família.
“Tudo aquilo que os estrangeiros podiam nos oferecer, os próprios brasileiros estão oferecendo.”
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