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Comportamento

Quem pode falar sobre os 4 suicídios na cidade? Só quem tem conta no Facebook?

Por Ângela Kempfer | 14/04/2015 16:24
Ando deprimida como na foto, diante de tanta asneira nas redes sociais.
Ando deprimida como na foto, diante de tanta asneira nas redes sociais.

Na faculdade de Jornalismo, uma das lições é nunca, jamais, em hipótese alguma noticiar suicídios. Existe a tese de que a divulgação de atos assim seria a gota d’água e levaria à morte outras pessoas, com quadro de depressão ou altamente sugestionáveis.

Mas com as redes sociais fervendo nos últimos dias em Campo Grande, fica claro que não há mais controle sobre esse tipo de informação arriscada. As pessoas têm demonstrado um interesse macabro pelo assunto e, para piorar, o silêncio dos jornalistas sobre 4, isso mesmo, 4 fatalidades, em menos de uma semana, é preenchido nas redes sociais por gente equivocada e mais doente que o sujeito que resolveu acabar com a vida.

Os principais veículos de imprensa não falaram, mas todo mundo ficou sabendo do advogado que no domingo se jogou do 27º andar do Bahamas. As fotos do rapaz, destruído no chão, correm as redes sociais desde então, sem censura, como se as pessoas quisessem provar o quanto são bem informadas.

Também não é novidade a notícia do médico, de 46 anos, que tomou remédios demais no domingo e morreu, depois de algumas tentativas frustradas de suicídio durante a vida.

Na semana passada, o marido de uma diretora do Detran se enforcou. Ontem, uma aluna da Anhanguera/Uniderp também resolveu enfrentar a queda livre do 3º andar de um dos blocos da universidade.

Os motivos agora aparecem aos montes, será que um deles é o jornalismo?

O fato é que muito de nós surge em episódios assim. Descobrimos que as piores doenças humanas se manifestam de maneira muito mais revoltante entre os vivos, donos de contas no Facebook, Instagram e WhatsApp.

Hoje, depois da morte da universitária, mais fotos surgiram nos celulares, outro corpo na calçada. Teve gente com cretinice suficiente para fazer comentários inimagináveis em uma situação tão deprimente. “É sério que uma gorda tentou se matar na Uniderp?”, “Li agora...foi pro abate mesmo...agora é só colocar na churrasqueira”, publicaram alunos da universidade.

Desde que peguei o diploma, lá se foram quase 20 anos de redação e na rotina uma porrada de suicídios, no literal sentido da palavra. È sempre um soco no estômago. Faz a gente pensar que, de alguma forma, poderia ter evitado aquilo. Então, não consigo entender as gracinhas que a imbecilidade produz.

Se noticiar suicídio provoca uma epidemia, fico mais preocupada com o falatório no Facebook.

Nem levo em consideração o blábláblá religioso do pecado, sobre quem se mata e vai para o inferno. Não acredito em inferno, muito menos em um Deus que desconheça os males da terra a ponto de punir alguém por uma decisão tão triste.

O que começa a me incomodar são os especialistas de Facebook e “religiosos”, que surgem para pedir perdão pelo amigo, para dizer que a falta de Deus no coração faz isso com as pessoas.

Até a primeira-dama de Campo Grande, Andreia Olarte, resolveu usar esse espaço em branco hoje, divulgando release, onde diz que “mesmo em caso de graves enfermidades... o melhor remédio é o amor. O amor cura, salva vidas. Não vejo outro caminho, senão por meio do amor de Deus em nosso coração, para construirmos um mundo com mais paz”.

O que falta mesmo, na humilde opinião de quem não tem status algum nesta cidade, é diagnóstico e tratamento.

Se não foi suficiente até agora, o psiquiatra Jony Afonso Domingues repete. “Na maioria dos casos, as pessoas cometem suicídio por conta da depressão, que é algo genético. A única forma de prevenir, é o tratamento”

O mais grave, na avaliação dele, é que hoje a depressão tem se revelado mais cedo, já na infância, o que exige atenção redobrada, mas sem pirar, por favor.

Ainda há os casos de pessoas com algum transtorno de personalidade, outros que não conseguem lidar com frustrações e quando abusam da bebida ou consomem drogas também acabam se matando.

Para quem fica, depois de uma tragédia do tipo, o psiquiatra lembra que ninguém deve alimentar a culpa. “Ás vezes o paciente engana o próprio médico é o que a gente chama de dissimulação dos sintomas.”

Desde que o advogado Rafael Zarza Ribas se jogou do alto do prédio da José Antônio, os suicídios voltaram a ser assunto. Mas, para quem só conhece os jovens de destaque na sociedade, é bom contar que na periferia, vira e mexe tem alguém com a faca no pescoço, o cinto amarrado no alto, o veneno despejado no copo.

Muitos morrem sem ninguém ficar sabendo. Para comprovar, é só perguntar na próxima oportunidade a algum bombeiro ou médico do Samu.

Bem, agora, às 15h58, vou parar de escrever sobre o assunto porque tem mais uma pessoa tentando se matar, desta vez no bairro Praia da Urca, com uma faca.

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