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Comportamento

Samuel perdeu para o fogo a única chalana que usava para trabalhar

Fotos emocionantes da Comitiva Esperança mostram olhares de quem luta para sobreviver em meio às queimadas no Pantanal

Por Thailla Torres | 07/10/2020 06:20
Dona Julia, uma das mulheres da APA Baia Negra que luta pela preservação. (Foto: Nathalia do Valle)
Dona Julia, uma das mulheres da APA Baia Negra que luta pela preservação. (Foto: Nathalia do Valle)

Há seis meses, dois amigos criaram a Comitiva Esperança em Mato Grosso do Sul, com objetivo de proteger comunidades tradicionais do interior do Pantanal dos efeitos colaterais da covid-19. Em agosto as ações mudaram de rumo por causa das queimadas e o grupo passou a ajudar as comunidades nesse problema. Na volta para casa, trouxeram fotografias que contam histórias emocionantes de quem há anos luta por uma natureza que merece existir.

Nós já contamos a história da Comitiva Esperança (confira reportagem completa aqui), agora, o jornalista João Mazini é quem narra alguns dos momentos emocionantes durante os dias que pegou o próprio carro e foi conferir de perto, ao lado da fotógrafa Nathalia do Valle, tudo o que acontecia com a comunidade no momento mais crítico  dos incêndios.

“Queria ver qual que era a realidade de quem estava morando ali no meio daquela fumaça. Entramos no carro e fomos para Corumbá”, conta João.

Já em Corumbá, a dupla foi para a APA Baia Negra - Área de Preservação Ambiental da Baia Negra, que por sinal foi a primeira área de preservação ambiental do País.

APA significa Área de Proteção Ambiental, que é uma extensa área natural destinada à proteção e conservação da fauna, flora e cultura existentes, importantes para a qualidade de vida da população local e para a proteção dos ecossistemas regionais. O objetivo principal de uma APA é a conservação.

“Lá fomos direto ao encontro da dona Julia, mulher nascida e criada no Pantanal, que é a líder comunitária da Associação de Mulheres Produtoras da APA Baia Negra. E ela é uma pessoa absolutamente fantástica e sensacional”, descreve.

Apesar das queimadas, a mulher forte não desiste de ajudar sua comunidade. (Foto: Nathalia do Valle)
Apesar das queimadas, a mulher forte não desiste de ajudar sua comunidade. (Foto: Nathalia do Valle)

Logo que chegou na comunidade João ouviu de um dos moradores, bastante emocionado, que “dona Julia é quem cuida de todo mundo, que compra as brigas.”

João não teve dúvidas que estava prestes a encontrar alguém fascinante, e assim foi. As fotos feitas por Nathalia mostram uma mulher forte, com marcas no rosto do tempo de vida e cansaço, mas uma força aparentemente inabalável. “Com a Julia descobrimos como todos estavam vivendo ali e ela foi me guiando por um passeio pela comunidade, cheia de histórias fortes, assim como seus moradores”.

Julia contou que o fogo chegou muito próximo da casa deles. Muito próximo mesmo. “A ponto dela me contar que juntou os documentos e preparou o barco dela para se o fogo avançasse mais sobre as casas, e ela ela fugir levando a vizinha e os filhos, que no caso é dona Zilda, também moradora da região que tem dois filhos e é casada com seu Galdino”.

Ela também diz que não há fogo que a faça deixar o Pantanal. (Foto: Nathalia do Valle)
Ela também diz que não há fogo que a faça deixar o Pantanal. (Foto: Nathalia do Valle)

João também conheceu outro olhar forte, mas entristecido foi ter perdido seus instrumentos de trabalho para o filho. “Me deparei com seu Samuel, que também é moradora da APA. Ele foi para a casa da filha, juntou os documentos e me disse muitas coisas emocionantes”.

Quando questionado sobre a seca, Samuel respondeu que “a alegria do pantaneiro é a cheia. É a cheia que traz os frutos. Que faz a gente ficar feliz e viver da terra. E, óbvio, quando não tem cheia a gente fica mal, a gente fica triste”, desabafou.

O fogo queimou as duas chalanas que o seu Samuel tinha para poder pescar, agora ele tem de pescar somente no barranco, mas não é nada comparado com a liberdade de trabalhar com sua chalana.

Seu Samuel, pescador, perdeu as chalanas para o fogo. (Foto: Nathalia do Valle)
Seu Samuel, pescador, perdeu as chalanas para o fogo. (Foto: Nathalia do Valle)
O fogo chegou muito próximo da casa dos moradores, que perderam seus instrumentos de trabalho. (Foto: Nathalia do Valle)
O fogo chegou muito próximo da casa dos moradores, que perderam seus instrumentos de trabalho. (Foto: Nathalia do Valle)
Com medo, ele e a família pegaram seus documentos e precisaram fugir do fogo. (Foto: Nathalia do Valle)
Com medo, ele e a família pegaram seus documentos e precisaram fugir do fogo. (Foto: Nathalia do Valle)

Samuel também quase perdeu na queimada um iguana de 1,5 metro, fêmea, que é muito amiga, conta João. “Ele conta que quando foi para a casa da filha, com medo do fogo, ele só conseguia pensar nela. No dia seguinte, ele a achou debaixo de um arbusto todo queimado. Pegou-a no colo, limpou as feridas, alimentou e levou para casa, isso foi o que o deixou feliz.”

Lições - Ver olhares de tristeza que se misturam a felicidade de poder continuar seguindo em frente fez João enxergar mais do que imaginava. “As pessoas se chocam muito com a imagem do bioma queimando, se chocam muito com os animais feridos, e as imagens são realmente chocantes, mas, muitas vezes, elas parecem não lembrar que existem pessoas morando dentro daquele lugar, respirando aquela fumaça e que essas pessoas precisam de ajuda”.

João menciona mais uma vez a frase da dona Julia. “Vocês da cidade têm medo de sucuri e a gente não, ela vive aqui, ela é nossa vizinha, ela não mexe com a gente, a gente não mexe com ela”. E acrescenta. “Ou seja, dona Julia e seu Samuel, são exemplos de pessoas que ali cuidam dos animais, vivem em parceria com eles, assim como todas as outras pessoas que estão ali”, completa.

Para o coordenador da Camitiva Esperança, não há como pensar na preservação de qualquer bioma, seja ele o Pantanal, Amazônia, Mata Atlântica ou os Pampas, sem pensar no investimento, no desenvolvimento, no cuidado e carinho com as comunidades que são tradicionais destes lugares e estão por ali há muito tempo.

João durante conversa com alguns dos moradores. (Foto: Nathalia do Valle)
João durante conversa com alguns dos moradores. (Foto: Nathalia do Valle)

“Para mim, João, que estava morando em São Paulo e voltei para Campo Grande por causa da pandemia, com planos frustrados, e agora sigo para um fim de ano cheio de propósito, só posso dizer que aqueles dias no Pantanal fizeram eu me sentir conectado com aquelas pessoas, com a minha origem. Desejo profundamente que essa interação muito bela entre o ambiente e aquelas comunidades possa continuar. Quem está colocando fogo no Pantanal não são as 40 famílias que moram na APA Baia Negra, pelo contrário, elas só sofrem as tristes consequências”, finaliza.

Serviço - Quem tiver interesse de fazer parte da Comitiva Esperança como voluntário ou contribuir financeiramente para que o grupo continue dando assistência necessárias as comunidades do Pantanal, pode entrar em contato com a ONG pelas redes sociais Facebook (Clique aqui) ou Instagram (clique aqui).

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