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Comportamento

"Síndrome do pavio curto" viralizou, mas ela não existe; entenda sua raiva

Psiquiatra explica por que o termo não é um diagnóstico e quando a irritação merece atenção

Por Natália Olliver | 07/07/2026 07:47
"Síndrome do pavio curto" viralizou, mas ela não existe; entenda sua raiva
A "síndrome do pavio curto" viralizou, mas ela não existe (Foto: Inteligênca artificial)

Todo mundo conhece aquela pessoa que se define ou ganhou o apelido de esquentadinha, explosiva. Às vezes, a frase aparece para justificar grosserias, discussões e reações exageradas. Na internet, esse comportamento foi rotulado como “síndrome do pavio curto”. Apesar de parecer certo, especialistas explicam que a expressão não é um diagnóstico médico e que é preciso separar o uso popular de uma das doenças reais que causam isso, de fato, como, por exemplo, o chamado transtorno explosivo intermitente.

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A chamada "síndrome do pavio curto", popular nas redes sociais, não existe como diagnóstico médico. Segundo o psiquiatra Matheus Casquer, o que pode haver são traços de personalidade, padrões aprendidos ou transtornos reais, como o Transtorno Explosivo Intermitente. O alerta surge quando a irritabilidade causa prejuízos concretos, como conflitos frequentes e rompimento de vínculos. Nesses casos, avaliação profissional é indispensável.

Segundo o psiquiatra Matheus Casquer, a chamada “síndrome do pavio curto” não existe. O que pode existir são características de personalidade, padrões de comportamento aprendidos ao longo da vida ou transtornos psiquiátricos que têm a irritabilidade e as explosões de raiva entre seus sintomas.

“A expressão existe há muito tempo na cultura popular, mas as redes sociais ampliam enormemente a circulação desse tipo de termo. Por um lado, isso reflete características da vida contemporânea, marcada por estresse, excesso de estímulos e menor tolerância à frustração. Por outro, também revela uma tendência crescente de transformar experiências humanas comuns em supostas "síndromes".”

Segundo Matheus, nem toda irritabilidade representa uma doença. Mas como saber se tenho a síndrome fake do pavio curto ou alguma doença real que afeta a irritabilidade?

“A única maneira de responder a essa pergunta é por meio de uma avaliação profissional, realizada por um psiquiatra ou psicólogo. Em alguns casos, trata-se apenas de uma característica da personalidade; em outros, esse padrão pode estar relacionado a um transtorno psiquiátrico; e também é possível que exista uma combinação entre os dois”, comenta Matheus.

Ele explica que o principal sinal de alerta é a presença de prejuízos concretos, como conflitos frequentes, rompimento de relacionamentos, problemas no trabalho, agressões verbais ou físicas ou sofrimento significativo.

“A irritabilidade intensa é um sintoma presente em diversas condições psiquiátricas, de diferentes níveis de gravidade, e, por isso, merece uma avaliação geral, e não apenas do comportamento isolado.

Nesses casos, a irritabilidade deixa de ser apenas um traço de temperamento e passa a merecer uma avaliação mais cuidadosa. Durante uma explosão de raiva, o cérebro não “desliga”, embora muita gente descreva o momento como uma espécie de cegueira emocional.

O que ocorre, segundo o psiquiatra, é uma predominância de respostas mais impulsivas e automáticas sobre áreas ligadas ao controle, ao planejamento e à avaliação das consequências. Isso não significa que toda explosão seja sinal de doença.

“É importante lembrar que algumas situações realmente justificam indignação ou raiva. O problema não costuma ser o sentimento, mas a intensidade e a forma como ele é expresso. Durante o processo terapêutico, muitas pessoas passam a perceber que, embora o motivo fosse compreensível, a reação foi desproporcional ou impulsiva.”

Esse padrão pode ocorrer tanto em pessoas com algum transtorno psiquiátrico quanto em indivíduos que aprenderam, ao longo da vida, a reagir de forma explosiva diante de frustrações e conflitos.

Depois da crise, as reações também variam. Algumas pessoas sentem culpa, vergonha e arrependimento, especialmente quando percebem os danos causados em casa, no trabalho ou nas relações. Outras seguem convencidas de que estavam certas.

A vida moderna também entra nessa conta. Excesso de estímulos, sobrecarga, privação de descanso e pouco espaço para reflexão podem favorecer respostas mais impulsivas, mesmo em quem não apresenta um transtorno psiquiátrico.

Ainda assim, Matheus alerta: transformar toda irritabilidade em “síndrome” é um erro. A popularização do termo nas redes sociais pode ajudar algumas pessoas a buscar informação e cuidado, mas também pode reforçar uma tendência perigosa de dar nome clínico a experiências humanas comuns.

“Essa síndrome do pavio curto não existe. O que existem são transtornos psiquiátricos que podem cursar com irritabilidade e explosões de raiva, como o Transtorno Explosivo Intermitente, episódios de Transtorno Bipolar, algumas condições relacionadas ao uso de substâncias, entre outras. Também existem padrões de personalidade ou formas de funcionamento que não configuram doença, mas podem gerar dificuldades importantes.”

Para quem convive com alguém explosivo, a orientação durante uma crise é não aumentar o incêndio.

“Existem estratégias para o momento da crise e outras voltadas ao longo prazo. Durante a explosão, o mais importante é tentar reduzir a escalada do conflito. Isso inclui retirar estímulos desnecessários, evitar confrontos, não insistir em discussões naquele momento e, se necessário, encerrar a conversa até que todos estejam mais calmos. Em situações de risco, preservar a segurança deve ser sempre a prioridade.”

A longo prazo, psicoterapia e, quando necessário, acompanhamento psiquiátrico podem ajudar a pessoa a reconhecer padrões, lidar melhor com emoções intensas que se repetem ao longo da vida e construir formas menos destrutivas de reagir.

“Pavio curto” pode até parecer uma explicação simples. Mas, quando a raiva vira rotina e deixa estragos pelo caminho, o melhor é parar de tratar o problema como estilo de personalidade.

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