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Campo Grande, Domingo, 23 de Setembro de 2018

16/05/2017 07:59

Sonho de mãe: Há 35 anos dona Darci espera ouvir a primeira palavra do filho

Thailla Torres
A criança chegou aos braços de Darci com poucos dias de vida. (Foto: Marina Pacheco)A criança chegou aos braços de Darci com poucos dias de vida. (Foto: Marina Pacheco)

Miúda no tamanho, mas firme nas palavras, dona Darci é só sorrisos quando fala do amor que sente pelo filho que se tornou o caçula da família há 33 anos. Ela morava na fazenda quando ficou grávida do primeiro e único filho biológico. A criança era pequena quando ela soube que não poderia aumentar a família, por um problema de saúde. O sonho de gerar outra criança despertou em Darci o interesse pela adoção.

Naquele tempo não tinha informações sobre uma adoção legalizada, então Darci de Arruda de Souza, de 72 anos, estendeu a mão para uma mulher que estava grávida do sexto filho, mas sem condições de cuidar. "Eu estava doida por uma criança, eu tinha só um. Ela era empregada doméstica, não tinha condições".

Darci sonha em escutar o filho falando. (Foto: Marina Pacheco)Darci sonha em escutar o filho falando. (Foto: Marina Pacheco)

A criança veio aos braços de Darci com poucos dias de vida. Hoje, Vilson tem 33 anos, adora assistir televisão, toma banho e se veste sozinho, ajuda a mãe em algumas tarefas da cozinha e transmite o quanto ama Darci através de beijos e abraços durante o dia.

Sem um diagnóstico preciso, o que a família sustenta é que Vilson não se desenvolveu intelectualmente como outras crianças, não escuta e também não fala. Muito simples, Darci e o marido, seu Eduardo, de 70 anos, têm dificuldades em dizer o que filho exatamente tem.

Na época em que percebeu que Vilson era "diferente", ela conta que trabalha na fazenda com o marido. Por conta das dificuldades foi difícil para o filho receber o tratamento no início.

"Eu não sei o problema, a mãe legítima tomou muito medicamentos durante a gravidez e já disseram que é isso. Tem dias que ele está bom, mas tem dias que ele está bem agitado e para dormir ele precisa tomar uma medicação que a gente pega no posto", explica.

A família chegou em Campo Grande há 10 anos. O filho mais velho e biólogico já é casado e não mora com os pais. Na casa herdada da família, moram só os três: Darci, Eduardo e Vilson.

Pai chora pela dificuldade em manter a família. (Foto: Marina Pacheco)Pai chora pela dificuldade em manter a família. (Foto: Marina Pacheco)

A mãe biológica sempre manteve contato e visita o filho durante a semana. Sentada num canto da sala enquanto observa a entrevista, ela decide revelar que é a mãe que trouxe Vilson ao mundo. As lágrimas tomam conta ao lembrar da decisão que tomou há anos. "As coisas continuam difíceis e eu tenho muita gratidão por tudo que eles fizeram por ele. Vilson nasceu em casa, naquele tempo era tudo muito difícil", resume Maria Aparecida Pulcherio, de 59 anos.

Na simplicidade, Darci e o marido declaram orgulho pela mulher que deu alegria à vida deles. "Eu sempre amei muito o Vilson, ele foi minha alegria e minha companhia. E sempre cuidei muito bem dele", afirma. 

Mas a vontade de continuar estendendo o carinho é tamanha, que Darci reza todos dias pedindo saúde para continuar ao lado do filho. Por conta da idade, ela e o marido não conseguem mais trabalhar. Sem aposentadoria, sobrevivem com ajuda de amigos para colocar pelo menos comida dentro de casa. "Eu converso com Deus para eu nunca ficar só e também não morrer. Não posso deixar meu filho". 

O pai chora, inconformado com os problemas de saúde que o deixam longe do trabalho. "O que me dói é saber que eu tive uma vida trabalhando e hoje não consigo manter a minha família", desabafa. 

Apesar dos desafios, a vida simples que leva é o que menos importa para Darci. Sonho mesmo é ver o filho falando pelo menos uma palavra. "É o que mais sonho na minha vida. Rezo para Deus que um dia eu vou escutar ele falar. Eu sinto que ele tem vontade e faz aquela força. Sempre olho para ele e digo amém, ele abre a boca, mas a palavra não sai. Juro que seria minha maior felicidade", declara a mãe.

Com dificuldades para andar e o cansaço, ela não consegue mais levar o filho a um atendimento especial. "Ele deixou de ir à escola e ao tratamento médico. Não consigo levar e a nossa idade vai chegando, fica cada vez mais difícil", lamenta.

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