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Comportamento

Valdecir queria lembrar nomes de quem ele viu crescer no São Conrado

Morador do bairro há mais de 30 anos, seu Valdecir viu a maioria dos moradores crescer, mas não lembra nomes

Por Bárbara Cavalcanti | 26/09/2021 07:40
Seu Valdecir com a esposa, dona Veronica, atrás do balcão da mercearia no São Conrado. (Foto: Marcos Maluf)
Seu Valdecir com a esposa, dona Veronica, atrás do balcão da mercearia no São Conrado. (Foto: Marcos Maluf)

Valdecir Gonçalves de Oliveira, de 57 anos, mora com a família no Bairro São Conrado. A Mercearia Oliveira é um negócio familiar que existe por quase o mesmo período. As pessoas entram e saem e cumprimentam seu Valdecir, que responde de maneira simpática e prestativa.

“Eu vi esses meninos tudo crescer, mas sou péssimo com nomes. Não guardo nome de ninguém. Mas não sou só eu não, tem gente que me chama pelo nome do meu pai ou do meu finado irmão. E eu não corrijo não”, ri.

Natural de Dourados, já viveu em algumas outras cidades do estado antes de chegar em Campo Grande na década de 80. “Isso aqui tudo era mato. Dava pra ver as Moreninhas daqui. Tinha um pessoal que fazia umas casinhas de cavalos e tinha até corrida aqui, muito antes de ter asfalto. Ao redor do córrego era tudo favela”, detalha.

Paisagem do São Conrado na dédaca de 80. (Foto: Arquivo Pessoal)
Paisagem do São Conrado na dédaca de 80. (Foto: Arquivo Pessoal)

Seu Valdecir lembra de como o São Conrado se desenvolveu até ser o que era hoje. Em uma foto antiga da família, inclusive, é possível ver a ponte do São Conrado ainda apenas na estada de chão. Relata que os próprios moradores compraram os fios e o poste de eucalipto para colocar luz na rua.

“Os ônibus não passavam por aqui não. A gente tinha que descer lá embaixo e vir à pé. Tinha uma piscina do lado favela, onde hoje é a creche. O pessoal falava um monte da favela, não queriam chegar muito perto não. Pior que nunca aconteceu nada, acho que só uma vez morreu um e foi na piscina”, relembra.

Seu Valdecir durante a conversa com o Lado B. (Foto: Marcos Maluf)
Seu Valdecir durante a conversa com o Lado B. (Foto: Marcos Maluf)

Até ficar de vez na mercearia, seu Valdecir fez diversos trabalhos na cidade. Distribuiu jornal, vendia eletrônicos importados na feira, e ajudou na parte de açougue no estabelecimento original, que de início pertencia ao pai, Dorvalino José de Oliveira, hoje com 81 anos e conhecido como “seu Neno”.

“Eu saia daqui, para o Centro, depois lá para o Cophavila e depois voltava. Tudo de bicicleta, distribuindo jornal, pra ajudar uma senhora com a banca dela. Hoje em dia eu não aguento mais não”, ri.

A mercearia antigamente tinha até açougue. “Aqui trabalhavam meu pai, meu irmão mais novo e eu. Meu irmão era frentista, então a gente revesava aqui. Era distribuidora de gás, tinha cerveja e a parte do açougue. Eu mesmo que cortava e desossava”, relembra. “A mercearia era pequeninha, só tinha uma portinha. Hoje em dia não é muito maior não, até porque como é a gente aqui que cuida, se ficar grande demais, a gente não dá conta”, explica.

Alguns anos atrás, a parceria dos três se desfez e cada um foi para seu canto. Seu Neno até chegou de abrir uma outra mercearia, mas devido à idade não é mais a mesma coisa. O irmão de seu Valdecir, José Gonçalves de Oliveira, inclusive já é falecido.

Dessa época o que ficou foram as lembranças e a oferta de eletrônicos que seu Valdecir vendia na feira. Periodicamente, seu Valdecir ainda vai para o Paraguai para comprar alguns importados.

A mercearia com a oferta de eletrônicos importados do Paraguai. (Foto: Marcos Maluf)
A mercearia com a oferta de eletrônicos importados do Paraguai. (Foto: Marcos Maluf)

E não tem pretensão de sair do São Conrado. A esposa, Veronica da Cruz Pratz, de 55 anos, reforça que gosta de viver no bairro. “Eu gosto das amizades que criamos aqui. Conhecemos muita gente, criamos muitos vínculos desde quando chegamos”, comenta.

E sobre os nomes, é melhor do que seu Valdecir na hora de lembrar das pessoas. “Eu também não guardo o de todo mundo não, mas ao menos guardo mais do que ele”, ri.

Veronica e Valdecir em frente à Mercearia Oliveira. (Foto: Marcos Maluf)
Veronica e Valdecir em frente à Mercearia Oliveira. (Foto: Marcos Maluf)

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