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Criança também sente tensão da pandemia, ainda que não saiba falar

Por Paula Maciulevicius Brasil | 24/06/2020 07:19
Risco na parede, tédio, tristeza, raiva e até mesmo a saudade: tudo isso é sentido pelos pequenos neste momento de quarentena.
Risco na parede, tédio, tristeza, raiva e até mesmo a saudade: tudo isso é sentido pelos pequenos neste momento de quarentena.

Já são três meses em casa, reaprendendo a estudar a partir dos vídeos e das aulas on-line. Sem ver os amigos, e em muitos casos, distantes também dos avós, os pequenos sentem a tensão do coronavírus tanto quanto a gente, ainda que eles não saibam expressar em palavras.

O risco na parede pode falar por si, a batida da porta, os brinquedos arremessados longe, os gritos, o choro e até mesmo a descoberta do tédio. De falar, aos 2 anos, "quero fazer alguma coisa, tô entediado" ou ainda "tô com triste", naquela voz de quem ainda fala o "r" com som de "l".

"Alguns dos comportamentos que conseguimos perceber são a irritabilidade, medo, alterações nos padrões de sono e alimentar, tédio e dificuldades de concentração. Estes sentimentos, quando não são verbalizados pelas próprias crianças por serem muito pequenas, os responsáveis sentem a mudança", fala a psicóloga perinatal e parental Keyth Gimenez de Barros.

Dentre as estratégias possíveis para as famílias lidarem diante do contexto é a de criar uma rotina com horários para acordar, dormir, comer e realizar atividades escolares, e ser flexível quanto ao uso de telas. "Este é um momento atípico e os celulares e tablets podem ser usados para aproximar as crianças de seus amigos e parentes", sugere.

Uma boa conversa sobre os sentimentos também é válida, sobretudo estabelecendo uma comunicação franca com a criança, deixando com que ela fale seus medos e raiva. "Seja através de desenho, dança, ou outras atividades como correr", acrescenta Keyth.

Se aos adultos, encontrar uma nova rotina já é desafiador, e conduzir os pequenos a um "novo normal", pode ser maior ainda. "Em meio ao caos, procuramos encontrar uma nova rotina, se adaptar a esse novo momento e para isso precisamos ser resilientes, flexíveis.  E, da mesma forma, olhar para nossas crianças com olhos de amor pelo momento em que elas estão passando e muitas vezes com muito menos recursos que nós adultos, para lidar com esse turbilhão", avalia a educadora parental em disciplina positiva pela Positive Discipline Association/USA, especialista emocional pela Sociedade Brasileira de Inteligência emocional e co-autora do livro Conectanto Pais e Filhos, Cinthia Andrade.

Cinthia explica que os níveis de hormônio do estresse ficam altos tanto nas crianças quanto nos adultos, e no dia a dia precisamos estar conectados com aquilo que nos faz bem para lidarmos melhor com o isolamento. "Precisamos lidar com as emoções, as angústias e a ansiedade agora, não varrê-las para debaixo do tapete, e confiar que as coisas voltarão ao normal. Normal, será possível mesmo?", questiona.

A educadora sugere que na quarentena, antes de olhar para a criança, os pais façam uma autoavaliação. "Que tal parar para observar o que vem acontecendo com você? Quando nós adultos aprendemos a lidar com as nossas emoções, as crianças aprenderão a lidar com as delas, pelo exemplo. Se quando eu estou com raiva eu grito, me tranco no quarto ou eu fico em silêncio, meu filho provavelmente agirá da mesma forma", exemplifica.

Cinthia ensina alguns recursos para experimentar em casa com as crianças neste momento de epidemia.

Campo Grande News - Conteúdo de Verdade

1- Desenhar alguma carinhas das emoções básicas em um papel:  alegria, raiva, tristeza, medo, e pedir para a criança identificar ou até mesmo ela mostrar como está se sentindo.

2 - Intensificar expressões faciais mostrando as emoções e assim, brincando, vá mostrando para a criança tentar adivinhar o que aquela expressão está sentindo. Também vale olhar imagens, fotos, com as expressões faciais e tentar identificar os sentimentos.

3 - Usar o recurso da leitura, alguns livros podem ajudar:  O monstro das cores, de Anna llenas; a coleção "Quando me sinto... Triste, medo, sozinho, inveja, bondoso, feliz, da Trace Moroney; a coleção "Como eu me sinto... Quando me importo com outros, quando estou triste, quando sinto sua falta, quando estou com ciúme, da autora Cornélia Maude Spelman; "Coleção Gire e aprenda os sentimentos, o coelho Caio".

Livros podem ajudar como: "O Monstro das Cores".
Livros podem ajudar como: "O Monstro das Cores".

4 - Permitir que todos os sentimentos sejam livres e expressados. Acolher a criança, nomear os sentimentos para ajudar ela. Por exemplo: Percebo, sinto ou vejo que você está irritado filho, é por que você não conseguiu vestir a sua camiseta sozinho? O que você acha de pedir ajuda numa próxima vez?

5 - Usar o recurso da roda da raiva, desenhando numa folha um círculo com as fatias como se fosse uma pizza. Em cada fatia, conversar com a criança e propor alternativas para expressar a raiva sem agredir ou machucar ninguém. Pode colocar umas 4 a 6 opções, sempre ouvindo a criança com as sugestões dela. Na hora da raiva ela pode escolher o que quer fazer para se sentir melhor: apertar massinha, correr, beber água, pular igual um coelho, pedir um abraço, olhar as nuvens, respirar fundo.

6 - Ensinar a criança a respirar. Respirar é algo não concreto, e é um ótimo recurso para ajudar nos momentos de angústia, tensão, medo, ansiedade, irritação.

"Vale usar o lúdico: cheirar a flor e assoprar a velinha, o movimento imita a respiração, e também usar o barquinho de papel na barriga, mostrando o barquinho subindo e descendo conforme respiramos. Quando perceber que a criança está ficando nervosa, relembrar ela de como respirar é gostoso e faz bem, faça junto com ela. Ela sempre precisa ser lembrada disso, porque ela ainda está aprendendo a se regular", resume Cinthia.

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