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"É tempo de ressignificar a vida", diz professor sobre crise do coronavírus

Doutor em Psicologia, Gillianno Mazzetto acredita que clima de terror criado pelo vírus vai causar sofrimento mesmo após a crise

Por Lucas Mamédio | 06/04/2020 07:24
Gilliano acredita que a quantidade de informações pode causar confusão nas pessoas (Foto: Kisie Ainoã)
Gilliano acredita que a quantidade de informações pode causar confusão nas pessoas (Foto: Kisie Ainoã)

Vocês também têm a impressão que estamos vivendo um devaneio coletivo potencializado pela angústia que é: estar vivo em 2020? Parece que 2019 representou aquele estágio pré-sono onde tudo é meio nebuloso, misturamos realidade e imaginação, e que 2020 alcançamos o sono profundo, sonhando ou até vivendo um pesadelo.

Em várias dimensões, existe um clima de terror instaurado, muito semelhante a uma guerra, tudo por conta da pandemia do novo coronavírus. Temos um inimigo a ser abatido e caso isso não aconteça, seremos nós as vítimas. Só que nada é tão simples, são várias nuances que fazem desse momento único.

Um exemplo é um conceito muito explorado por estudiosos da área das humanas chamado de “aceleração da história”, que é o aumento contínuo da velocidade em que os fatos, situações, locais e objetos vêm sendo construídos e desconstruídos ao longo das últimas décadas do século 20 e início do século 21. Todo esse processo nos atropela e, quando vemos, tudo já passou e não entendemos nada. Ficamos como bobos.

Para ajudar a entender melhor o impacto desse momento histórico em nossas cabeças e, por consequência, em nossa sociedade, o Lado B foi conversar com um especialista, alguém que ajude a interpretar parte da história enquanto ela está sendo feita.

Mestre e doutor em Psicologia, Gillianno Mazzetto é pró-reitor de Desenvolvimento Institucional da Universidade Católica Dom Bosco, em Campo Grande. Nos encontramos no Instituto Salesiano São Vicente, lugar calmo e arborizado. Como gregos antigos (quanta pretensão), saímos para andar e conversar.

A primeira das observações feitas pelo Gillianno é em relação a capacidade atual que temos de obter informação. Como essa hiperexposição nos singulariza. “A gente sofre muito porque o inimigo fica muito grande e parece que o tempo todo ele está assolando a minha porta”.

"Do que me adianta saber que vou morrer de câncer se eu não posso fazer nada com isso?", pergunta o professor (Foto: Kisie Ainoã)
"Do que me adianta saber que vou morrer de câncer se eu não posso fazer nada com isso?", pergunta o professor (Foto: Kisie Ainoã)

Para o especialista, o mais importante não é a quantidade de informações que obtemos, mas o que fazemos com ela. “A gente pensa que saber um monte de coisa é bom, mas é a aquela história, do que me adianta saber que vou morrer de câncer se eu não posso fazer nada com isso?”.

Adaptando uma frase de Friedrich Nietzsche, filósofo alemão do final do século 19, Gillianno completa: “o mais importante não é saber a verdade, mas o quanto de verdade a gente pode suportar”.

Paralelo ao fato de termos acesso às informações geradas, nunca, segundo Gillianno, fomos tão capazes de nos expressar. Agora não somos só passivos nessa história, nós é quem produzimos conteúdo. “As pessoas  querem se expressar de alguma forma. E com as redes sociais isso virou um direito adquirido. Os conselheiros estão crescendo.”

A quarentena está servindo para muita gente usar o tempo ocioso em tarefas antes ignoradas, como a utilização de plataformas digitais, por exemplo. “Tem muita coisa boa, mas tem muita coisa ruim sendo produzida. Muita gente quer virar conselheiro e nem sabe o que está falando”.

Para o professor Gillianno, passadas algumas semanas de isolamento, muitas pessoas já estão desinteressadas pelo que antes as distraíam. “Chega uma hora que você já zerou todas as séries, todos os filmes, tudo que é possível e só sobre eu e pensar sobre eu.”

E estar em casa, muitas vezes sozinho, vendo a situação de países como a Itália, por exemplo, traz certa angústia nunca experimentada pela maioria das pessoas hoje em dia. Se deparar com a possibilidade da morte e com a incapacidade de superá-la faz nascer um desalento perigoso, segundo professor.

“A gente não sabe onde isso vai terminar. Vai que termina como na Itália? Numa sociedade que colapsou e que os mortos não têm mais lugar. E o pior é perder a esperança, porque quando se perde a esperança, você já morreu, só esqueceu de deitar.”

Gilliano chama a atenção para o fato de que numa sociedade como a nossa, moldada para vencer em tudo que faz, esse revés da vida pode ser pior. “Vivemos numa sociedade em que as pessoas estão dizendo o tempo todo “você pode”, “você pode” ficar vivo, inclusive.”

Para Gillianno, com tanto tempo em casa, é quase impossível não refletir sobre alguns assuntos (Foto: Kisie Ainoã)
Para Gillianno, com tanto tempo em casa, é quase impossível não refletir sobre alguns assuntos (Foto: Kisie Ainoã)

Para o especialista o sofrimento que vai existir pra muitas pessoas agora, muito mais que o psíquico, é o sofrimento existencial. “Que é olhar pra sua vida e ver que viveu 30, 40 anos e perguntar: o que eu vou fazer com isso?”

Ele acredita que muitas famílias vão se desestruturar totalmente. “Você imagine um casal depois de um mês dentro de um apartamento com uma criança pulando?”

E completa num pensamento bem original. “Duas coisas: ou o mundo onde eu estava vivendo era um mundo onde eu tinha umas válvulas de escapes, com meu filho na escola e meu marido no trabalho e ninguém me enchia o saco. Ou em algum momento não haverá mais válvula de escape, aí só sobra a realidade. E aí temos a oportunidade de ressignificar isso ou eu se demitir dessa ilusão”.

Para começar a sair desse emaranhando pessimista, ele cita o filósofo existencialista Jean Paul Sartre. “Não importa o que a vida fez de você, mas o que você faz com o que a vida fez de você”. Para Gillianno, não somos “amebas” passivos na vida, nós é quem reagimos ao que ela nos apresenta e, infelizmente, o que ela nos apresenta agora é isso.

Evocando mais um filósofo, o agora italiano Marcos Aurélio, Gilliano, também de origem italiana lembra então que: “umas das coisas que vamos temos certeza é vamos morrer , então precisamos viver nossa vida da melhor maneira possível.  Pode parecer egoísta, mas o que ele está dizendo é que cada momento pode servir pra se redescobrir.”

É nesse ponto que entramos, talvez, no assunto mais produtivo da conversa. Para ele, estar em casa durante muito tempo, tendo a finitude da vida ali ao lado, vai forçar muita gente a se auto examinar e, percebendo pontos obscuros de sua vida, tente ressignificá-los. É hora de “colocar a alma ao colo” como disse Fernando Pessoa.

“Diante da morte ou diante do medo da morte algumas pessoas estão ressiginificando a própria vida. Estão fazendo perguntas que não fizeram. Já estamos há semanas de isolamento, algumas perguntas começam a aparecer. Como eu posso fazer da minha vida algo que tenha mais sentido?”

Caminhávamos por uma estrada repleta de palmeiras quando Gilliano metaforiza algo como: “Ou a gente bate a cabeça na palmeira ou ela bate na gente”, ao que uma folha gigante faz um barulho e quase cai da árvore. Por enquanto ainda dá pra escapar.

Professor vendo se a folha da palmeira não vai cair sobre nossas cabeças (Foto: Kisie Ainoã)
Professor vendo se a folha da palmeira não vai cair sobre nossas cabeças (Foto: Kisie Ainoã)

Nós não nascemos para o isolamento, somos sociáveis, temos medo da morte, somos humanos, enfim. Relembrando Fernando Pessoa novamente, ele afirma que “a liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.” Não sejamos escravos.

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