ACOMPANHE-NOS    
SETEMBRO, TERÇA  22    CAMPO GRANDE 22º

Faz Bem!

Sem abraço nem piada em velório, até o luto mudou depois da covid-19

O distanciamento social proibiu o abraço, mas as palavras e as atitudes podem trazer o calor de conforto.

Por Paula Maciulevicius Brasil | 08/08/2020 10:12
Sem tempo nem para se despedir, velórios estão curtos, sem abraços e até o luto sofreu as consequências da pandemia. (Foto: Paulo Francis)
Sem tempo nem para se despedir, velórios estão curtos, sem abraços e até o luto sofreu as consequências da pandemia. (Foto: Paulo Francis)

Chorar a morte de alguém, em volta de um caixão, nunca foi fácil, mas é um dos ritos necessários para lidarmos com o luto. Em tempos de pandemia, o distanciamento social impede o abraço e o limite de 10 pessoas em uma capela, diminui as despedidas, não só em tempo, como também em encontros.

O luto nada mais é do que a nossa reação à perda. É o custo do relacionamento, como explica a psicóloga Mariana Manfrinato. "Se eu amo alguém, eu vou sofrer quando perder essa pessoa. Viver o luto é passar por um processo de readaptação a esse novo mundo sem aquele que amamos. É ressignificar tudo o que já vivemos com essa pessoa, ou o que imaginamos viver, os planos que fizemos a esta nova realidade", diz.

E até isso está sendo roubado de nós em meio à pandemia. Um velório agora, quando a morte não é por covid-19, pode ter apenas 2h de duração e nada mais. Se for de coronavírus, o tempo é ainda menor e a recomendação é o sepultamento imediato.

"A despedida, como conhecemos, existia por um motivo: os rituais nos dizem que uma fase acaba e outra começa, é assim com a festa de 15 anos na adolescência, com o casamento e com o ano novo, por exemplo", diz a psicóloga.

Os rituais são atos simbólicos que nos ajudam a expressar emoções e dar forma para aquele sentimento. "Nesse momento de pandemia, em que os rituais foram proibidos, os abraços foram proibidos, os olhares, as palavras de conforto, podemos nos sentir com mais raiva, até experienciando sentimentos de culpa e ter questionamentos quanto ao vírus. Todas as pessoas que perdem alguém nesse momento estão passando por uma restrição nos rituais", enxerga Mariana.

A mudança no comportamento de ressignificar sentimentos afeta até mesmo quem já estava de luto antes da pandemia começar. "Essa pessoa precisa ser cuidada, porque o apoio social já não existe como antes. Isso pode ser muito ruim para alguns, e também muito bom para quem queria mesmo ficar mais sozinha", pontua a psicóloga.

Diante disse cenário, Mariana sugere que novas formas de rituais precisaram ser criadas. Estar em isolamento não quer dizer que não podemos nos falar, transmitir nossos sentimentos e emoções através de vídeos, mensagens ou telefonemas.

Neste momento de restrições em velórios e sepultamentos, abraço precisa ser substituído por palavras e ações. (Foto: Paulo Francis)
Neste momento de restrições em velórios e sepultamentos, abraço precisa ser substituído por palavras e ações. (Foto: Paulo Francis)

"Existem rituais hoje de velório e cerimônias de forma virtual, as redes sociais podem ser grandes aliadas nesse momento, até mesmo encontros virtuais em que as pessoas se reúnem contar histórias do falecido, o que fazia de errado, as brigas e discussões com ele, porque claro que todos temos esse lado e é natural que ele apareça nesse momento, entre as piadas ou comentários sobre a vida aquele que se foi", lista.

Por acolher pessoas e muitas vezes traduzir o que estamos sentindo sem que nenhuma palavra seja dita, o abraço é indispensável, mas neste cenário delicado, não é a única forma de transmitir sentimentos e expressar apoio. "Precisamos apoiar o outro, começando às vezes pela sinceridade. Você pode falar de forma simples: 'Eu não sei o que te dizer, não imagino o que você possa estar passando' ou ainda 'penso em você com carinho'. Basta dizer que você está lá para o que a pessoa precisar, se puder ajudar com algo a distância, se ofereça", sugere Mariana.

O que fazer então nesse momento de luto na pandemia? -  Estamos sem a possibilidade de fazer a despedida da forma que sempre fizemos, então é preciso encontrar um novo meio e as tecnologias estão aqui para ajudar. "A distância e a mudança na forma como dizemos adeus pode ser um fator complicador para o luto. Por isso que é muito importante ritualizar o momento, falar sobre quem se foi, chorar e expressar seu sentimentos seja conversando, escrevendo ou desenhando. E quem tem o último contato, que pode estar junto no velório e que puder registrar o que acontece, contar para os outros familiares, filmar, fotografar pode ajudar a tornar aquele momento mais 'próximo' e mais concreto", propõe a psicóloga.

Nem todo enlutado precisa de ajuda. Mas, em alguns casos elas são necessárias, por exemplo, para conseguir lidar com tudo isso, essa pessoa vai precisar dormir, se alimentar, ter higiene básica preservada. "Caso isso não aconteça, e fique difícil fazer um movimento entre a vida diária e lidar com o luto, é preciso procurar ajuda profissional", enfatiza.

Curta o Lado B no Facebook e no Instagram. Tem uma pauta bacana para sugerir? Mande pelas redes sociais, e-mail: ladob@news.com.br ou no Direto das Ruas através do WhatsApp do Campo Grande News (67) 99669-9563.