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Mais um crime ocorreu no meio gamer, mas a culpa é só dos jogos?

Por Fernando Fenero | 04/03/2021 06:15
Jogo Call of Duty Mobile.
Jogo Call of Duty Mobile.

Caso não tenha visto, recentemente um terrível crime ocorreu: um rapaz assassinou uma menina de 19 anos, em comum ambos tinham o hábito de jogar Call of Duty Mobile. Não satisfeito com o crime, o rapaz fez vários vídeos e mandou em grupos de WhatsApp, inclusive aqueles do clã onde participava.

Também enviou e-mail para vários blogs e influenciadores, onde enviou não só os vídeos como também um livro, uma abominação escrita por alguém sem acesso a educação com mínima qualidade e com graves problemas psíquicos e sociais.

Ao ser detido, ouviu indagações da polícia se não era o jogo que o havia influenciado a cometer a barbárie. O rapaz nega, mas não convence nem o policial que indagou, muito menos a mídia que coloca os holofotes nisso como grande motivador.

Mas o problema é outro, muito maior e ainda mais complexo.

Os massacres de Realengo, Suzano e o mais recente tem algo em comum. Em todos eles os criminosos eram participantes de “chans”, um tipo de fórum anônimo de imagens que possui essa alcunha graças ao seu expoente mais famoso e polêmico: o 4chan.

Originalmente, os “chans” eram baseados nos image boards japoneses, mas logo ganharam novas características, como a valorização do anonimato que contribuiu demais para que os membros expusessem “opiniões” racistas, misóginas, homofóbicas e xenofóbicas. Para tratar com mais exatidão, a cultura channer entende que homens brancos, ricos e heterossexuais são o ápice da espécie, e todo o resto é lixo.

Acontece que quando alguém perturbado como os autores desses massacres encontram essas comunidades, são incentivados e ter esse comportamento sociopata, além de trilhar para cada um deles o caminho das pedras para fabricação de explosivos, confecção de venenos caseiros e obtenção de armas de fogo. São tratados como heróis nesse tipo de ambiente que comemorou a tragédia da boate Kiss em 2013 no Rio Grande do Sul.

E o maior problema, esses caras ditam tendências na internet.

Em 2010 já era possível notar apoio a candidatos com perfis fascistas nos chans, assim como outras bizarrices como anarco-capitalistas e defensores da monarquia. Concentrado nos image boards, esse comportamento se espalha por outros meios e mídias que o grupo consome, a comunidade gamer é uma das mais afetadas por essa toxidade, e caso tenha dúvida que isso exista, pergunte para uma mulher que jogue online.

Mas como evitar?

Pra você que é pai e está chocado com o que foi escrito aqui, e fica se perguntando como pode evitar que seus filhos se contaminem por isso, a resposta pode não ser fácil. Um ambiente livre de racismo e misoginia dificilmente vai gerar uma criança e um adolescente com esse tipo de comportamento, e não se engane, é sim um provocador comum em todos esses casos citados.

Quanto à vigilância que se deve ter com o que é consumido na internet, acredito ter feito um bom alerta quanto ao perigo de expor um jovem ao conteúdo tóxico dos image boards, mas os pais devem ficar alertas também quanto ao comportamento dos filhos online. Seu filho joga o controle no chão ou o celular quando perde? Procure um psicólogo. Ele tem o costume de ofender mulheres e minorias quando fala no chat? Ele precisa ser repreendido.

Colocar a culpa de qualquer tragédia em um jogo é fácil e equivocado, mas depois de todos esses episódios acontecidos no Brasil, está na hora da comunidade gamer ter responsabilidade, e dos pais também assumirem as suas.

 * As opiniões do autor são unicamente suas.

 Conheça o Video Game Data Base, o museu virtual brasileiro dos videogames.

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