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Sabor

Ex-diarista vira rainha do salgado, eleita no Terminal Guaicurus

Não tem quem passe pelo terminal por volta das 16h e não compre pelo menos um cafezinho de Maria Cícera

Por Suzana Serviam | 26/01/2022 08:15
Salgado e café nas mãos, o ganha pão da ex-diarista, que hoje, diz lucrar o triplo. (Foto: Suzana Serviam)
Salgado e café nas mãos, o ganha pão da ex-diarista, que hoje, diz lucrar o triplo. (Foto: Suzana Serviam)

É quase unânime! O melhor salgado do Terminal Guaicurus é da dona Maria Cícera Vicente, de 46 anos. O Lado B recebeu a dica da seguinte forma: "Tem uma vendedora de salgado no Terminal Guaicurus que bomba, porque é muito bom". Lá pelas 16h30, sem saber nada da descrição física, a repórter que escreve esta matéria saiu perguntando desde a entrada.

Um dos funcionários do local não soube dizer e ainda dificultou a missão lembrando que há pelo menos três vendedoras. Mas caminhando um pouco mais, um a um, os clientes foram apontando a rainha do salgado.

Quando vi uma cliente passando no ponto de Cícera, corri atrás e perguntei à Renata Duarte, 19 anos, se aquele realmente era o melhor. Toda desconfiada, mas sincera, ela respondeu: “É sim. Bem quentinho, crocante, ela tem um creme de alho que a gente pode usar a vontade e eu nunca encontrei um cabelo nos salgados dela”, fala de quem sempre compra um quando sobra uma graninha.

Maria servindo cliente com salgado quentinho saindo do isopor. (Foto: Suzana Serviam)
Maria servindo cliente com salgado quentinho saindo do isopor. (Foto: Suzana Serviam)

Retorno ao local e decido experimentar um, por R$ 4,50. Pergunto qual sabor tem mais saída, justo ele, o hamburgão, não estava disponível naquele dia. Escolhi o que aparentemente seria mais saboroso e, de fato, era bem quentinho e molhadinho por dentro. Com dois dedos de café então, hmmm, um belo lanche da tarde.

Ao me aproximar e sem me identificar, converso com Maria Cícera. Ela conta que em 2022, já são 15 anos que mexe com salgado e no terminal, está há quase 10. Comento que muitas pessoas por ali recomendam seus quitutes dizendo ser os melhores do local e pergunto se ela aceita o título. A resposta vem sem nem pensar duas vezes.

“Aceito. Acho que é por conta do tempo que trabalho aqui. A experiência ajuda. E o segredo de você fazer salgado de vender sempre, é você fazer como se fosse para si mesmo ou para sua própria família, entendeu? Esse é o segredo do negócio. Não tem que vender só pensando no dinheiro. Tem que vender pensando em satisfazer a pessoa, porque do mesmo jeito que ela pode sair falando bem, ela também pode falar mal”, ensina.

Mas nem tudo é de Cícera. Ela diz que faz a maioria, mas também compra de outros fornecedores. "Faço coxinha, risoles, espetinho de frango, hambúrguer caseiro, pão italiano, sopa paraguaia, torta de frango, enroladinho. Às vezes eu pego alguma coisa pronta para complementar, para aumentar e chegar um pouco mais cedo. Croissant, pizza, uns negócio de massa folhada, um hambúrguer com cheddar", diz sobre fábrica da região, que produz para vários vendedores de Campo Grande.

Salgados vendidos por dona Maria são de vários sabores. (Foto: Suzana Serviam)
Salgados vendidos por dona Maria são de vários sabores. (Foto: Suzana Serviam)

O horário dela é sempre o mesmo. Como não tem ponto fixo no terminal, precisa tomar cuidado para não conflitar com os horários de quem tem. Dona Maria espera ansiosa pelo dia em que a Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito) liberará seu ponto, pois seu pedido ainda está em espera.

Antes de ser salgadeira, ela era doméstica e diarista. “O que eu ganhava era muito pouco e não dava para viver bem. Tinha que ficar pedindo vale para patroa, coisa chata. Aí comecei a empreender. E eu sempre tive uma mentalidade de trabalhar para ganhar melhor. E nesse tempo, aprendi que quando você sonha, você pode”.

Ela não sabia fazer nenhum salgado. No dia do aniversário da filha, viu a vizinha fazer coxinha de mandioca para a festa. "Comentei que queria aprender para ganhar dinheiro." Na época, trabalhava ainda na limpeza de casa. Ela comentou com a irmã, que pegou a ideia e foi vender no bairro. Cícera viu ali que dava certo, que venderia. Então, iniciou todo o processo vendendo 20 coxinhas pelas ruas do Centro de Campo Grande.

Salgado que a repórter provou e aprovou durante ida ao terminal. (Foto: Suzana Serviam)
Salgado que a repórter provou e aprovou durante ida ao terminal. (Foto: Suzana Serviam)

“O engraçado é que quando cheguei na patroa pedindo para sair, porque eu trabalharia com isso, ela me falou: ‘Você é louca? Vai deixar um serviço que você é registrada por uma coisa que você não tem certeza?’. Eu respondi para ela que se eu não tentasse, eu nunca iria saber e hoje, estou aqui, ganhando o triplo”, conta Maria.

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