Animais silvestres avançam sobre a cidade e revelam disputa por território
Crescimento urbano explica por que cada vez mais espécies aparecem em casas, ruas e comércios
O avanço urbano sobre áreas naturais tem levado animais silvestres a ocupar ruas, comércios e casas de Campo Grande, numa convivência cada vez mais frequente e conflituosa entre fauna e população. Somente neste ano, um tamanduá-bandeira foi encontrado dentro de um shopping, outro em uma agência bancária, um porco-espinho resgatado em frente a uma residência no bairro Arnaldo Estevão de Figueiredo e uma jiboia filhote capturada no Portal Caiobá.
RESUMO
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“Na medida em que eles perdem o habitat, passam a explorar a cidade. Nós estamos competindo por território”, resume a médica-veterinária Aline Duarte, gestora do Cras (Centro de Reabilitação de Animais Silvestres).
Atualmente, a unidade mantém cerca de 250 animais em reabilitação, cerca de 80% deles foram resgatados em áreas urbanas. “Quanto maior o crescimento da cidade, maior será o número de resgates. Isso é diretamente proporcional”, explica Aline.
Na opinião da médica-veterinária, uma boa solução seria a criação de corredores ecológicos que conectem fragmentos de vegetação das cidades, permitindo que os animais se desloquem com segurança para alimentação, reprodução e abrigo.
Resgates - Diferentemente do que muitos imaginam, os atendimentos não estão ligados principalmente a atropelamentos em rodovias ou ocorrências rurais. A maioria dos animais chega após ser encontrada dentro de casas, quintais, empresas ou circulando pelos bairros.
Grande parte desses resgates é realizada pela PMA (Polícia Militar Ambiental), responsável por recolher os animais e encaminhá-los ao Cras.
Segundo a veterinária, esse cenário ganhou mais visibilidade com as redes sociais e a rápida circulação de imagens. “Agora tudo é filmado e divulgado. A impressão é de aumento, mas essa realidade já acontecia.”
Origem - Dos animais atualmente em tratamento, cerca de 70% vieram de Campo Grande, enquanto 10% são de Três Lagoas. Conforme Aline Duarte, o município se tornou o segundo maior polo de encaminhamentos devido ao crescimento acelerado.
A demanda crescente levou à implantação, em dezembro de 2025, de um centro de triagem em Três Lagoas, que funciona como porta de entrada para atendimento inicial antes do envio à reabilitação.
Em municípios com grande biodiversidade, mas menor expansão urbana, como Corumbá, o número de ocorrências é menor. “Não é a fauna que determina o volume de resgates, é o adensamento urbano”, afirma Aline.
Entre os animais recebidos, 70% são aves. Muitas são vítimas do tráfico, especialmente espécies canoras valorizadas no mercado ilegal.
“Um curió que canta pode valer até R$ 25 mil. Isso movimenta muito o tráfico”, explica a gestora. Além das apreensões, há também entregas voluntárias e resgates após criação irregular.
Reabilitação - No Cras, cada animal passa por triagem, quarentena e tratamento antes de seguir para recintos de adaptação, onde readquire comportamentos naturais. As aves, por exemplo, ganham um espaço ampliado quando começam a treinar os primeiros voos, antes de serem levadas de volta à natureza.
O tempo de permanência varia conforme a espécie. Aline explica que filhotes de anta, por exemplo, podem precisar de 2 a 3 anos para reabilitação; papagaios podem permanecer mais de um ano até recuperar a autonomia.
Alguns animais nunca retornam à natureza, principalmente quando ficam mansos ou perdem funções físicas, como foi o caso da Flora, uma fêmea de cateto, que passou a viver no Bioparque Pantanal na segunda-feira passada.
Estrutura ampliada - Quando Aline chegou ao Cras, em 2017, havia apenas dois médicos-veterinários no local. Hoje, o Centro conta com um hospital e a equipe foi ampliada para sete médicos-veterinários, dois biólogos, uma zootecnista, seis tratadores, equipe administrativa e duas veterinárias residentes em parceria acadêmica.
A unidade realiza desde atendimentos clínicos até cirurgias complexas, com apoio de especialistas convidados quando necessário.
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