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Meio Ambiente

Beleza cristalina dos rios de Bonito esconde redução perigosa de espécies

Populações de peixes e plantas aquáticas têm diminuído drasticamente nos últimos 15 anos

Por Lucia Morel | 04/07/2026 12:23

A biodiversidade dos rios de Bonito e da Serra da Bodoquena enfrenta um processo de redução de espécies de peixes e plantas aquáticas que vem sendo registrado nos últimos 15 anos. Embora pesquisadores apontem dificuldades para estabelecer um vínculo causal direto e definitivo sobre a origem dessas perdas, o desaparecimento dessas populações sinaliza problemas ambientais invisíveis para a maioria dos visitantes, causados por transformações na paisagem e no uso da terra ao redor dos recursos hídricos.

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A biodiversidade dos rios de Bonito e da Serra da Bodoquena enfrenta redução de espécies de peixes e plantas aquáticas nos últimos 15 anos. Grandes predadores como pintados e jaús sumiram, e pacus deixaram de ser registrados entre 2016 e 2017. Pesquisadores apontam defensivos agrícolas e assoreamento como prováveis causas. O biólogo José Sabino alerta que o processo de simplificação biológica ameaça o equilíbrio dos ecossistemas e a sustentabilidade do ecoturismo na região.

O sumiço de grandes predadores como pintados, cacharas e jaús, que antes eram vistos em passeios na região do Rio da Prata, começou a ser notado há uma década e meia. Mais recentemente, entre 2016 e 2017, os pesquisadores deixaram de registrar as populações de pacus nas partes média e alta do mesmo rio.

De acordo com o biólogo José Sabino, doutor em Ecologia, o desaparecimento do pacu afeta tanto o equilíbrio ambiental quanto a experiência dos turistas, que frequentemente questionam a ausência do animal que viam em viagens anteriores. "As populações de pacus do Rio da Prata desapareceram da parte média e alta do rio. Desde 2016-2017 não as registramos nos locais que monitorávamos e as encontrávamos com frequência. Muitos visitantes que já estiveram no passado na região perguntam por que eles sumiram", diz o biólogo.

Além da fauna, a cobertura de plantas aquáticas diminuiu em diversos pontos das águas da região, cenário que já foi documentado por meio de imagens aéreas capturadas por drones, segundo o especialista.

Apesar de não haver comprovações até o momento, há indícios de que essa redução esteja associada à presença de defensivos agrícolas utilizados em lavouras vizinhas, que acabam carregados para o leito dos rios. Outro fator que prejudica os ecossistemas é o assoreamento provocado pela erosão do solo, que deposita sedimentos na areia do leito e sufoca o habitat de dezenas de pequenos organismos.

Segundo Sabino, essas mudanças configuram um processo chamado de simplificação biológica, em que o cenário permanece visualmente bonito na superfície, mas perde em complexidade e na capacidade de se autorregular. Com o desaparecimento de peixes frugívoros de grande porte (se alimentam principalmente de frutos e sementes que caem das árvores na água), como o pacu, funções vitais como a dispersão de sementes deixam de ocorrer, interrompendo a recomposição natural de matas ciliares e áreas alagadas.

"No limite, o rio permanece aparentemente bonito, mas esvaziado de parte de sua riqueza biológica. É uma erosão silenciosa que acontece debaixo d'água e longe do olhar da maioria das pessoas", explica o biólogo José Sabino.

Ele complementa que as alterações na abundância e no comportamento da fauna revelam crises ambientais antes mesmo de qualquer outro indicador químico ou físico da água apontar anormalidades.

O cenário expõe a necessidade de alinhar os setores que dividem o uso do mesmo patrimônio natural na região, como empresários do turismo e proprietários rurais. Conforme a análise técnica da área, os recursos financeiros gerados pelo ecoturismo raramente retornam para subsidiar ações de conservação dos rios e matas, o que coloca em risco a sustentabilidade econômica do próprio município no longo prazo.

"Perder espécies não é apenas uma tragédia ecológica. É perder parte do que torna esses rios únicos. E a erosão silenciosa da biodiversidade continua acontecendo, mesmo quando não conseguimos vê-la", conclui Sabino.

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