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Meio Ambiente

Biólogo já levou ferroadas de formigas que causam até 24h de dor, mas nem liga

Paulo Robson também é fotógrafo de natureza desde a década de 80 e acumula experiências marcantes

Por Kamila Alcântara | 10/04/2024 18:00
Paulo Robson de Souza é biólogo e fotógrafo de natureza (Foto: Jacqueline Rotta)
Paulo Robson de Souza é biólogo e fotógrafo de natureza (Foto: Jacqueline Rotta)

Aos 62 anos, conversar com o professor doutor em Biologia, Paulo Robson de Souza, é uma aula de experiências curiosas, das quais ele se orgulha, pois diz que nesse ramo “tudo é válido pela pesquisa científica”.

Responsável pela formação de professores na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), as aventuras como fotógrafo de natureza renderam prêmios e uma história de repercussão nacional: ser ferroado por uma formiga tocandira, que causa dores de até 24 horas.

Em entrevista ao Campo Grande News, o professor conta que as pesquisas por aqui começaram em 1987, quando se instalou na UFMS, e que o gosto pela fotografia de natureza oportunizou conhecer quase todo Mato Grosso do Sul, registrando o trabalho dos colegas biólogos e botânicos.

Nessas aventuras acadêmicas pelo Estado, ele chegou a ser ferroado por uma lacraia na cabeça enquanto dormia e até sofreu um ataque de uma formiga que habita o “novateiro” – árvore que dá flores.

Inclusive, o registro fotográfico desse inseto rendeu um prêmio do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

Foto das formigas do novateiro, feita em 2012 e que rendeu um prêmio do CNPq (Foto: Paulo Robson)
Foto das formigas do novateiro, feita em 2012 e que rendeu um prêmio do CNPq (Foto: Paulo Robson)

O novateiro fica no Pantanal e tem uma relação de simbiose, de cooperação mútua, em que a árvore é abrigo das formigas e elas protegem a árvore dos herbívoros. “Me aproximei com calça jeans, fechei as entradas, mas tomei umas 15 ferroadas. Tudo isso pela pesquisa”, detalha.

Mesmo com as 15 ferroadas das criaturinhas que protegem a árvore pantaneira, nada vai superar a experiência vivida por ele em 2016, durante uma exploração do Cerradinho da UFMS, que fica em Campo Grande. Sozinho, Paulo se embrenhou na mata urbana de 11 hectares para fotografar, viu um exemplar da tocandira e se ajoelhou para registrar.

“Cometi um erro acadêmico grave de sair sozinho, sem ninguém para cuidar da retaguarda, e quando me abaixei para fazer a foto não vi as formigas se aproximando. Fui ferroado na ponta do dedo médio, na coxa e no antebraço. De todas as ferroadas que já levei, com toda certeza essa foi a mais dolorida. Foram 12 horas de dor pulsante, onde a da ponta do dedo era pior”, compartilha o doutor.

Registro de uma formiga tocandira (Foto: Paulo Robson)
Registro de uma formiga tocandira (Foto: Paulo Robson)

Sem remédio para resolver, ele usou gelo para tentar aliviar a dor, mas há casos reportados pela ciência de pessoas que sofreram por 24 horas. Tanto que ficou popularmente conhecida pelo uso em rituais religiosos da tribo amazônica Sateré-Mawé.

Fora do país, a tocandira é conhecida como “formiga-bala”, pois a dor se assemelha ao de um ferimento de arma de fogo, uma dor que queima. “Essa formiga não gosta de ambientes poluídos, ambientes construídos, ela é uma formiga eminentemente selvagem, florestal. Dificilmente você a verá andando pela natureza porque ela não forma não trilha. Fica andando isoladamente, sozinha na mata”, destaca Paulo.

Apesar do susto e da repercussão, o professor é apaixonado por esses insetos e totalmente defensor da proteção dos exemplares. “Nós não podemos esquecer que do veneno das serpentes retiraram um remédio para o coração. O mesmo veneno que mata hoje está salvando vidas amanhã. Será que daqui uns 10, 15 ou 20 anos não terão descoberto um remédio maravilhoso, que pode ajudar a espécie humana, retirada da 'bundinha' da tocandira? Essa é a minha alegria: saber que um acidente pode chamar a atenção para um ser vivo tão precioso”, defende.

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