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Meio Ambiente

Com estrutura de hoje, incêndios de 2020 não teriam ocorrido, acredita bióloga

Segundo a especialista, o cenário atual dispõe de um sistema de monitoramento robusto e resposta rápida

Por Lucia Morel | 25/03/2026 17:56
Com estrutura de hoje, incêndios de 2020 não teriam ocorrido, acredita bióloga
Queima controlada próximo a aceiro no Pantanal de MS. (Foto: Divulgação/Governo MS)

As queimadas de 2020, que devastaram mais de 26% do bioma pantaneiro, poderiam ter sido evitadas ou drasticamente reduzidas se a rede de proteção atual já estivesse estabelecida. A avaliação é da bióloga Daniela França, coordenadora de programas de conservação do SOS Pantanal, que destaca o avanço tecnológico e humano na região nos últimos seis anos.

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O Pantanal conta hoje com uma estrutura robusta de monitoramento e combate a incêndios, que poderia ter evitado a devastação ocorrida em 2020, quando 26% do bioma foi destruído. A avaliação é da bióloga Daniela França, coordenadora do SOS Pantanal, que destaca os avanços tecnológicos e humanos na região. O sistema atual inclui 27 brigadas coordenadas pelo SOS Pantanal, investimentos governamentais em equipamentos e o resgate do manejo tradicional do fogo, prática ancestral de queimadas controladas. As brigadas indígenas são consideradas fundamentais na proteção do bioma, embora desafios como saneamento básico e educação ambiental ainda persistam.

Ela participou hoje do evento paralelo da COP15 (15ª Conferência das Partes) da CMS (Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres), "Monitoramento Integrado e Manejo de Fogo para Espécies Migratórias e Conservação de Zonas Úmidas no Sistema de Áreas Úmidas Paraguai-Paraná"

Segundo a especialista, o cenário atual conta com uma estrutura robusta de monitoramento e resposta rápida. Houve investimento alto dos governos estadual e federal, tanto em equipamentos, monitoramento e brigadas. Só o SOS Pantanal coordena hoje 27 brigadas formadas pela própria instituição, além de prestar suporte com monitoramento de focos de incêndio para mais de 80 grupos, incluindo brigadas comunitárias, voluntárias e de propriedades particulares.

"Com a estrutura que temos hoje, o desastre de 2020 não teria ocorrido daquela forma", afirma Daniela. Ela aponta que, na época, a ausência de equipamentos adequados era crítica. Hoje, o investimento de órgãos estaduais e federais garantiu a aquisição de frotas, drones para monitoramento de território e equipamentos de proteção individual para os combatentes.

Além do reforço logístico, o Governo de Mato Grosso do Sul implementou políticas públicas como o PSA (Pagamento por Serviços Ambientais) Brigadas. O programa destina recursos oriundos de multas ambientais para financiar instituições que atuam na linha de frente da conservação e no MIF (Manejo Integrado do Fogo).

No âmbito federal, houve a ampliação das contratações pelo Prevfogo/Ibama (Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente) e o fortalecimento das brigadas indígenas. Daniela ressalta que esses grupos são hoje os principais guardiões do bioma: "O treinamento das brigadas indígenas tem aumentado e eles são, sem dúvida, os melhores combatentes que temos no território".

Com estrutura de hoje, incêndios de 2020 não teriam ocorrido, acredita bióloga
Daniella, em pé, durante evento da COP15 sobre manejo do fogo. (Foto: SOS Pantanal)

Manejo tradicional - Um dos pilares dessa nova estratégia é o resgate do manejo tradicional do fogo, prática artesanal utilizada há séculos por pantaneiros e indígenas. O método consiste em realizar queimadas controladas durante a estação chuvosa ou em momentos de alta umidade, utilizando elementos da natureza para identificar o tempo exato da ação.

"Eles sabem a hora e o local necessário para queimar. Jamais fariam isso na seca severa, pois entendem que o fogo perderia o controle", explica a bióloga. O objetivo do manejo artesanal é eliminar a "macega" — o acúmulo de vegetação seca que serve de combustível para grandes incêndios florestais no período de estiagem.

A prática, anteriormente proibida pela "política do fogo zero", é hoje defendida pela academia e por técnicos. Daniela esclarece que, ao queimar o excesso de biomassa de forma prescrita e ordenada, criam-se aceiros naturais que impedem que uma faísca acidental se transforme em uma catástrofe de grandes proporções.

A especialista enfatiza que o manejo controlado também garante a sobrevivência da fauna, incluindo espécies migratórias que chegam ao Pantanal justamente no período crítico. "No fogo controlado, os animais conseguem fugir. As brigadas atuam inclusive para afugentar a fauna antes da queima. A mortalidade é infinitamente menor", pontua.

Apesar dos avanços, Daniela alerta que a integração total entre os entes e o investimento em saneamento básico nas comunidades rurais ainda são desafios. Para ela, a educação ambiental de base e o combate ao descarte irregular de lixo, que causa 99% das ignições por ação humana, são os próximos passos para blindar o Pantanal definitivamente.

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