Crise hídrica assombra aldeia kinikinau: “Sem água, nós não somos ninguém”
Entre latas, baldes e bacias vazias, Marialva conta que problema se arrasta por semanas
RESUMO
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Indígenas kinikinau de Miranda, a 208 quilômetros de Campo Grande, relatam oito anos de falta ou racionamento de água na comunidade São Miguel, na Terra Indígena Cachoeirinha. Moradores dizem que crianças, idosos e gestantes sofrem com o problema, que afeta também a ida à escola. Em ofício ao Dsei, enviado em 31 de julho, a situação foi denunciada, mas não houve resposta até a publicação.
Rodeada por dez recipientes vazios, entre latas, baldes e bacias, Marialva Albuquerque, de 44 anos, moradora de aldeia kinikinau, em Miranda, a 208 km de Campo Grande, faz apelo por um direito básico: água.
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“Passa semanas sem água e o problema faz tempo. É muito difícil, aqui tem bastante famílias”, afirma.
Marcimiano Roberto Albuquerque, de 32 anos, conta que os moradores da comunidade São Miguel, a um quilômetro da aldeia Mãe Terra, Terra Indígena Cachoeirinha, já procuraram os órgãos públicos para resolver o problema, mas ficam sem resposta.
“Indignação com o descaso que acontece com a minha comunidade, que tem 30 famílias e vem passando por dificuldade no abastecimento de água. São dias e semanas sem água. Temos crianças, idosos, gestantes. A gente faz pedido para os órgãos públicos, mas ninguém atende”, diz Marcimiano.
Águeda Roberto, de 72 anos, mostra a caixa d’água vazia e relata que já está há uma semana sem água. “Aqui tem velhinha, tem gestante. As crianças não estão indo para a escola porque não tem água para tomar banho. Nós temos poço, mas não está funcionando. Nós estamos pedindo socorro”.
Fausto Ribeiro, de 62 anos, conta que a comunidade fica semanas sem água. “Nós precisamos de alguém que possa ouvir nossa voz, de algum recurso. Água é vida”.
“Estamos pedindo misericórdia, um grito de socorro mesmo. Já são seis dias sem água e meus tambores estão todos secos. Nós não temos onde pegar água, nós não temos um rio. E quando chove, chove pouco e não dá nem para encher os tambores de água”, relata Sebastiana Farias, de 58 anos.
Ramona Farias Ribeiro, de 66 anos, relata que as vasilhas e tambores estão vazios. "Que pelo amor de Deus possam nos ajudar. Não é fácil ficar. Sem água, nós não somos ninguém. Eu estou pedindo que Deus toque o coração de vocês e nos ajudem”.
Conforme ofício enviado ao Dsei/MS (Distrito Sanitário Especial Indígena) em 31 de julho, o problema persiste há oito anos, com períodos de racionamento ou falta completa de água.
O Campo Grande News solicitou informações ao Dsei sobre o problema, mas não recebeu resposta até a publicação da matéria.
A etnia kinikinau chegou a ser declarada extinta em 1976 e viveu em terras emprestadas por terenas e kadiwéus. A palavra kinikinau significa “povo guerreiro”.
Os indígenas foram compulsoriamente convocados para lutar ao lado das tropas luso-brasileiras na Guerra da Tríplice Aliança, mais conhecida como Guerra do Paraguai, que perdurou de 1864 a 1870.
Depois da guerra, ao retornarem para a antiga aldeia, o território já estava ocupado. Na última década, famílias deixaram Porto Murtinho e formaram a aldeia Mãe Terra, em Miranda, com apoio dos terenas.
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