Lula diz que Pantanal simboliza interdependência global e cobra cooperação
Discurso amplia papel da região ao conectá-la à agenda internacional da conferência

Ao abrir neste domingo (22), em Campo Grande, o Segmento de Alto Nível da COP15, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tratou a conferência ambiental como algo maior do que uma agenda de preservação da fauna. Em vez de limitar a fala ao meio ambiente, ele fez uma conexão direta entre biodiversidade, cooperação internacional e o cenário de instabilidade geopolítica vivido hoje no mundo.
RESUMO
Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!
Em discurso na abertura da COP15, em Campo Grande, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estabeleceu conexões entre biodiversidade, cooperação internacional e instabilidade geopolítica. O evento foi estrategicamente realizado próximo ao Pantanal, bioma que simboliza a interdependência entre países sul-americanos. O presidente apresentou três prioridades para a presidência brasileira: alinhar o debate com outras convenções ambientais, ampliar recursos financeiros e universalizar a Declaração do Pantanal. Lula também destacou resultados ambientais recentes, como a redução do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, além de criticar a atual configuração do Conselho de Segurança da ONU.
Logo no início, Lula deu o tom do discurso ao afirmar que a escolha de Campo Grande e de Mato Grosso do Sul para sediar o encontro não foi casual. Segundo ele, há uma estratégia por trás da decisão, justamente por se tratar de uma região ligada ao Pantanal, bioma que ultrapassa fronteiras nacionais e simboliza a interdependência entre países sul-americanos.
- Leia Também
- Lula assina ampliação de áreas no Pantanal em MT, mas deixa MS fora de decretos
- Secretária da ONU destaca urgência política de proteger espécies migratórias
“Organizar este evento em Campo Grande, no estado de Mato Grosso do Sul, também encerra uma estratégia. Estamos na porta de entrada do Pantanal, a maior planície alagada tropical do mundo. Esta região simboliza, de forma singular, a riqueza natural da América do Sul e a interdependência de países cujas faunas e floras atravessam fronteiras”, disse.
Ao longo da fala, o presidente insistiu na ideia de que as espécies migratórias ajudam a explicar, de forma simples, como a natureza funciona sem obedecer aos limites políticos criados pelos países. “A Convenção sobre Espécies Migratórias nos lembra de uma mensagem simples, mas poderosa: migrar é natural. Ao cruzarem continentes, conectando ecossistemas distantes, essas espécies revelam que a natureza não conhece limites entre Estados”, afirmou.

Lula citou a onça-pintada como exemplo desse movimento entre territórios preservados nas Américas e lembrou que, todos os anos, “milhões de aves, mamíferos, répteis, peixes e até insetos atravessam continentes e oceanos”. Segundo ele, essas jornadas “conectam ecossistemas, preservam ciclos naturais e garantem o equilíbrio que torna a vida possível”. Em seguida, resumiu a linha central do discurso em uma frase curta: “Proteger esses animais é proteger a própria vida no planeta”.
A partir daí, o presidente tentou ampliar o alcance político da COP15. Em vez de apresentar a proteção das espécies migratórias como uma pauta isolada de ambientalistas, ele tratou o tema como parte de uma engrenagem maior, que envolve desenvolvimento, estabilidade e articulação internacional.
Ao dizer que “a sobrevivência dessas espécies depende da ação coletiva”, Lula defendeu a atualização da Convenção sobre Espécies Migratórias diante de ameaças atuais, como “a mudança do clima, a poluição das águas, o extrativismo e as obras de infraestrutura sem planejamento adequado”.
Ele lembrou que a convenção foi criada em 1979, antes mesmo da Rio-92, e afirmou que o tratado já ajudou “na recuperação da baleia-jubarte e da tartaruga-verde, que estavam prestes a desaparecer”. Mas ponderou que, “passadas quase cinco décadas, é natural que a Convenção e seus princípios se atualizem”.
Na parte mais programática do discurso, Lula apresentou as três prioridades da presidência brasileira da COP15. A primeira, segundo ele, é aproximar o debate da conferência dos princípios já adotados em outras convenções ambientais. “A presidência brasileira da COP15 tem três prioridades. A primeira é dialogar com os princípios consagrados pelas convenções do clima, da desertificação e da biodiversidade, como as responsabilidades comuns, porém diferenciadas”, disse.
A segunda prioridade é financeira. Lula afirmou que o Brasil quer “ampliar e mobilizar recursos financeiros, criando fundos e mecanismos multilaterais inovadores, principalmente para os países em desenvolvimento”. A terceira frente apresentada por ele é a tentativa de ampliar o alcance político da Declaração do Pantanal. “A terceira é universalizar a Declaração do Pantanal que adotamos hoje, propondo que mais países se envolvam de maneira eficaz na proteção das espécies e das rotas migratórias”, afirmou.
O Pantanal, aliás, foi um dos eixos mais importantes da fala. Lula usou o bioma não apenas como referência ambiental, mas como argumento diplomático. Ao dizer que “não haverá prosperidade duradoura na América Latina sem a proteção da nossa biodiversidade”, o presidente vinculou a conservação da natureza à própria estabilidade da região. “Da Amazônia ao Cerrado, do Pantanal aos Andes, das florestas tropicais às zonas costeiras, formam-se corredores ecológicos fundamentais para o equilíbrio climático global”, declarou.
Nesse trecho, o discurso deixa claro que, para Lula, a biodiversidade deixou de ser apenas uma pauta ecológica e passou a ser parte da discussão sobre o futuro econômico e político dos países. Por isso, ele defendeu não só recursos financeiros, mas também coordenação entre governos. “É importante que, além de recursos financeiros adequados, tenhamos capacidade de articulação e de gestão compartilhada”, disse.

O presidente também citou exemplos concretos de cooperação regional, como o memorando mantido há quase 20 anos entre Brasil, Paraguai, Argentina, Bolívia e Uruguai para a preservação de aves migratórias, e o Acordo de Escazú, que classificou como marco sobre “democracia ambiental, justiça social e a defesa daqueles que lutam pelo meio ambiente”. Ao mencionar o tratado, fez questão de registrar que ele “aguarda aprovação do Senado brasileiro e conta com amplo apoio do meu governo”.
A integração regional também apareceu quando Lula falou da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica. Segundo ele, o organismo é “fundamental para fortalecer a atuação conjunta dos oito países que abrigam a floresta”. Na mesma linha, afirmou que o combate a crimes ambientais “exige ação coordenada para além de nossas fronteiras nacionais”. Citou, como exemplo dessa estratégia, a criação, em 2023, do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, com sede em Manaus.
Lula ainda aproveitou o discurso para reforçar a tentativa de reposicionar a imagem ambiental do Brasil no exterior. Sem citar diretamente o governo anterior, afirmou que, “até pouco tempo, a imagem internacional do Brasil na área ambiental enfrentava questionamentos profundos, impactando diretamente nossas relações econômicas e comerciais”. Em seguida, contrastou esse período com a linha adotada desde 2023. “Desde 2023, escolhemos trilhar um novo caminho, guiados pela convicção de que conservar e produzir de forma sustentável não apenas é possível, mas necessário”, disse.
Nesse ponto, o presidente passou a elencar resultados do governo. “Reconstruímos o arcabouço institucional e as políticas ambientais que haviam sido desmontadas. Em pouco tempo, tivemos resultados significativos”, afirmou. Como exemplos, citou que “o desmatamento na Amazônia caiu pela metade”, que “no Cerrado, a queda foi de mais de 30%” e que o governo reduziu “as queimadas no Pantanal em mais de 90%”.
Ele também mencionou ações na política ambiental internacional, afirmando que o Brasil foi recolocado “no mapa dos esforços multilaterais para o meio ambiente”. Disse ainda que o país presidiu e sediou a COP30 do clima, lançou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre e a Coalizão de Mercados de Carbono, além de ter colocado “o desenvolvimento justo e sustentável no centro das discussões” nas cúpulas do G20 e dos BRICS em 2025.
Na reta final, Lula apresentou medidas novas anunciadas por ocasião da conferência. Segundo ele, o governo criou “uma nova unidade de conservação, a reserva Córregos dos Vales do Norte de Minas Gerais, com área de 41 mil hectares”, ampliou “a área do Parque Nacional do Pantanal em 47 mil hectares” e expandiu “a área da Estação Ecológica de Taiamã, no Mato Grosso, em 57 mil hectares”.
Também reafirmou a meta brasileira de proteger 30% da área oceânica até 2030, “conforme prevê a Convenção sobre Diversidade Biológica”.

