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Campo Grande, Terça-feira, 25 de Setembro de 2018

26/08/2018 08:55

Nas margens, vizinhos assistem desenvolvimento atropelar córregos

Qualidade dos 33 córregos é medida por programa da Prefeitura, mas ligações clandestinas de esgotos ainda ameaçam as águas que sobrevivem ao meio urbano

Izabela Sanchez
Nas margens, vizinhos assistem desenvolvimento atropelar córregos
Elizabete Araújo dos Santos, 48, é diarista e vive em uma ocupação precária no entorno do córrego Bálsamo, no bairro Universitário (Fernando Antunes)Elizabete Araújo dos Santos, 48, é diarista e vive em uma ocupação precária no entorno do córrego Bálsamo, no bairro Universitário (Fernando Antunes)

Canalizadas ou não, as águas fluem. São os 33 córregos, além do Rio Anhanduí, que sobrevivem em Campo Grande enquanto a urbanidade se desenvolve. A Capital tem população ribeirinha que vive, muitas vezes, de maneira precária em torno dos rios. Nas margens, a população acompanha as mudanças da cidade, que completa 119 anos e cresce, muitas vezes, sem planejar o que fazer com as águas e com quem vive em volta delas.

Elizabete Araújo dos Santos, 48, é diarista e vive em uma ocupação precária no entorno do córrego Bálsamo, no bairro Universitário. Para ela, a cidade expandiu os equipamentos públicos, mas onde vive a situação pouco se altera.

“Eu já moro aqui há três anos, mas é muito triste morar aqui, a gente mora porque não tem condições, aí eu moro aqui esperando a casinha. Está mudando as escolas, creches, muita mudança boa. Eu não vejo muito construindo por aqui, aqui nas beiradas, até agora está do mesmo jeito de quando eu vim pra cá. Tem muita mudança de casa que fez para as pessoas, escolas, só para gente que ainda não veio, ficou para o ano que vem”, comenta.

No Santa Eugenia, também às margens do córrego Bálsamo, vive Arlete França, 43, que vive no local há 20 anos. Enquanto conversava, outro vizinho jogava restos de comida no córrego, um dos problemas que contribuem para a poluição das águas. O desejo da moradora é que o córrego seja fechado.

“Na cidade mudou muita coisa, porque quando eu vim pra cá era muito feio, principalmente aqui onde eu moro, era estrada de chão, buraco, era feio. A única coisa que eu queria que melhorasse era esse córrego, que fechasse, porque cai muita gente aqui dentro. A cidade ficou ótima. Quando eu cheguei mudou bastante coisa, porque as ruas eram muito apertadinhas, as ruas enlargueceram, ficaram melhores, tem mais ônibus”, afirma.

Córrego Segredo em Campo Grande (Paulo Francis)Córrego Segredo em Campo Grande (Paulo Francis)

Desenvolvimento que atropela as águas

Professor e pesquisador de Engenharia Ambiental da Uniderp, Hugo Koji Suekame explica que o desenvolvimento urbano apresenta conflitos para a preservação dos córregos. Suekame afirma que a ideia de canalização ainda é um recurso em muitas situações, porque nas áreas urbanas há grande impermeabilização do solo, mas para o pesquisador, há soluções alternativas.

Ele cita o uso de revestimentos mais rugosos, como gabião e pedra argamassada, além de reduzir as vazões que chegam aos córregos por outros dispositivos, como por exemplo a ampliação de áreas verdes na bacia hidrográfica em questão e bacia de contenção.

“A cidade desenvolveu-se sob a cultura da impermeabilização, portanto é preciso recuperar essa capacidade de infiltração do solo e retenção de águas pluviais em toda a área urbanizada. Com isso, seria ter importante revisar áreas públicas e privadas com áreas pavimentadas em porcentagem superior à prevista na legislação municipal - cada região possui uma especificação”, comenta.

A canalização foi realizada no córrego Prosa ao longo da Avenida Fernando Correia da Costa. Maurício Albuquerque D'ávila, 48, comerciante, vive e trabalha na Avenida há 28 anos e lembra do espaço quando as águas ainda não haviam sido canalizadas.

“Tinha umas pinguelinhas para atravessar, umas pontes pequenininhas, a 14 subia e descia, era mão dupla, o asfalto vinha até aqui, pelo menos até aqui a 26, que era corredor ligado. O asfalto na verdade ia até a 7, porque eles paravam as comitivas onde era o marco zero”. Para ele, os córregos são esgotos a céu aberto.

“Eu acho que essa região mudou com o desenvolvimento e crescimento dela, em alguns setores acompanhado de infra estrutura urbana, outras não, com crescimento desordenado. O único que foi canalizado foi esse aqui praticamente, esse e na Maracajú. Agora os outros não, você pega o Segredo aqui ele foi canalizado, não foi coberto. Eu acho que cobrir todos é uma alternativa, esgoto a céu aberto em lugar nenhum do mundo é viável”, comenta.

 

Córrego Prosa, canalizado na Capital (Paulo Francis)Córrego Prosa, canalizado na Capital (Paulo Francis)

Vegetação e ligações clandestinas

Além do pesquisador, a ampliação da vegetação no entorno dos córregos é o que também defende Fernando Garayo, coordenador de meio ambiente e qualidade da Águas Guariroba, concessionária de água e esgoto de Campo Grande.

“A gente também faz muita educação ambiental, então já realizamos vários plantios nos córregos urbanos de Campo Grande porque a gente entende que se você tem uma área de preservação permanente bem preservada, você evita o assoreamento daquele córrego ou daquele rio. Quando você tem essa mata ciliar, você acaba tornando as margens dos rios mais resistentes a esse fenômeno, fora que você acaba protegendo o solo também”, explica.

Ao longo da Avenida Ernesto Geisel, a Prefeitura realiza obras de revitalização do córrego Anhanduí. No local, há quem tenha vivido para ver “tudo que era mato” se alterar e virar concreto. É que relata Antonio Pereira, 74, aposentado, que vive em Campo Grande há 40 anos.

“Mudou muito, aqui não tinha nada, era só barro, favela, braquiária. A cidade era muito pequena, hoje é grande mais, inclusive eu conheço muito Campo Grande, mas tem vila aí que eu nem conheço. Eu trabalhei muito em tudo quanto é lugar aí, mas tem vila que eu não conheço mais. Mudou porque aqui não tinha córrego, passava em cima, aí mudou pra cá porque eles abriram, foram limpando, aí veio o afasto, aí melhorou bastante, 100% cuidado não está não, falta muita coisa ainda”, afirma.

Outro problema para a preservação dos córregos são as ligações clandestinas de esgoto, que acabam por poluir as águas que já sofrem com a falta de consciência da população. Fernando Garayo explica que a rede de tratamento abrange 80% da cidade, mas os córregos ainda sofrem com o esgotamento alternativo.

“Ainda o maior problema da nossa cidade são as ligações clandestinas, que é quando a pessoa não se conecta na rede de esgoto e mantém uma fossa no quintal dela e às vezes essa fossa está até localizada em local proibido, por exemplo, na calçada e muitas vezes as pessoas ligam a rede na drenagem, então passa a drenagem ali na rua e a pessoa liga na boca do lobo. Esse esgoto, tudo que está na drenagem vai para o córrego”, explica.

A empresa, junto com a Semadur (Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano), realiza o programa Córrego Limpo, com análises das águas dos córregos e rios que passam pela Capital. Em 2017, houve a predominância da condição de qualidade “boa” para 69% da águas de Campo Grande, 26% regular e 5% ruim.

O relatório do programa afirma que, em comparação ao ano de 2016, ocorreu aumento de 3% na qualidade boa e uma redução de 2% regular.

Maria Ester, 77, vive na Rua Abias Batista Filho  há mais de 30 anos (Fernando Antunes)Maria Ester, 77, vive na Rua Abias Batista Filho há mais de 30 anos (Fernando Antunes)

A memória ligada às águas

Na Rua Abias Batista Filho, próximo à Via Parque, casas antigas sobrevivem em meio à ampliação de condomínios. Quem também sobrevive é o Córrego Sóter, águas que representam a memória de banhos durante o verão. Hoje as lembranças dividem espaço com a poluição. O córrego que forjou memórias hoje sofre a poluição e o mau cheiro incomoda os moradores.

“Nós tomávamos muito banho ali, gurizada vinha de fora, de outras vilas. Eu acho que hoje está pior do que era, eles soltam esgoto ali. Eu acho que ali virou esconderijo de bandido e local de água suja. Antes era melhor, a água era limpa”, comenta Maria Ester, 77, que vive no local há mais de 30 anos.

Ercilina Ferreira da Silva, 78, também vive na rua há 30 anos e afirma que o córrego, ainda hoje, é limpo. “Era limpo e até hoje ali é limpo. A gente tem medo de tomar banho pelo que dizem. Ele está bem preservado. Aqui é bom por causa das árvores, do tempo fresco. Sempre via a criançada tomar banho, hoje é proibido. Quando tá muito calor a gente desce lá, pisa na água, dá vontade de beber”, afirma.

Para Ramão Fernandes, 52, padeiro, nenhum dos córregos de Campo Grande apresentam qualidade. O segredo, para ele, é preservar a vegetação. “De vez em quando tem mau cheiro. Frequentavam antigamente, há uns 20 anos. Quando as capivaras estão no Sóter vem o mau cheiro. O melhor agora é a preservação, a exemplo dessas árvores aí, o cuidado de não mexerem mais nas árvores”.

Crescer com planejamento

Os córregos refletem todo o funcionamento da cidade. Sofrem, muitas vezes, com a falta de consciência do que se produz e do que se rejeita.

Para o pesquisador da Uniderp, o olhar deve ser voltado para toda a bacia hidrográfica e não só para o córrego em si. “Pois tudo que se desenvolve na bacia hidrográfica impactará positivamente ou negativamente o córrego”, explica. Ele defende programas de orientação ambiental para que a população saiba conviver com as águas, mas explica que o caminho é o crescimento da cidade com planejamento.

“O crescimento desordenado sem planejamento ambiental e urbano, a carência de estudos relativos à previsão de enchentes, a falta de controle da erosão que, por consequência, provoca o assoreamento em córregos, e falta de respeito com o meio ambiente são alguns fatores. O não cumprimento das normas de impermeabilização nas residências também prejudica, pois verificamos que muitas das casas estão totalmente impermeabilizadas, diminuindo drasticamente a capacidade de infiltração de água do solo”, comenta.

Fernando Garayo afirma que é importante que a administração fique de olho na expansão da cidade. Novos loteamentos, especialmente em áreas afastadas, explica, são construídos sem o esgotamento devido. “O que deve ser feito é o seguinte, projetos de novos parcelamentos urbanos deve ser aprovado já considerando a implantação da rede de esgoto. Então, muitas vezes, o empreendedor de um loteamento, principalmente de um loteamento afastado, acha muito caro você trazer a rede de esgoto até aquele local porque isso acaba sendo um ônus do próprio, do empreendedor”.



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