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Meio Ambiente

No Dia da Onça, guias do Pantanal narram encontros "olho no olho" com a pintada

Eles convivem com o maior felino das Américas e reforçam a importância do turismo para a conservação

Por Inara Silva | 29/11/2025 09:33
No Dia da Onça, guias do Pantanal narram encontros "olho no olho" com a pintada
Onça Amburana flagrada olhando diretamente para a câmera. (Foto: Daniela Sifuentes)

Há quem diga que o olhar da onça atravessa a alma. Para quem vive no Pantanal, essa afirmação não é exagero. Hoje, no Dia Internacional da Onça-Pintada, guias e biólogos que convivem intimamente com o maior felino das Américas descrevem como esses encontros transformam quem dedica a vida ao bioma.

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O Pantanal se destaca como um dos melhores lugares para observação de onças-pintadas nas Américas. Guias e biólogos que trabalham na região relatam encontros memoráveis com o maior felino do continente, destacando especialmente o impacto do "olhar nos olhos" desses predadores, descrito como uma experiência única e transformadora. O turismo de observação tem papel fundamental na preservação da espécie. Na Fazenda Caiman, por exemplo, a taxa de avistamento das onças aumentou de 7% para 100% após o início do processo de habituação dos animais com veículos. Os profissionais ressaltam que, além do valor ecológico, as onças geram empregos e recursos para a região através do ecoturismo.

Guia há 16 anos no Pantanal, o biólogo e fotógrafo Fábio Paschoal lembra exatamente quando a onça olhou dentro dos olhos dele pela primeira vez. Ele estava montado a cavalo com um grupo de turistas, situação na qual o avistamento é raro. “Disseram que havia uma onça com um filhote por perto e, quando chegamos ao local, vimos que o pequeno animal não era um filhote de onça, mas um tamanduá-mirim.”

Na frente do grupo, os animais protagonizaram uma cena inusitada. O guia conta que a onça se levantou e o tamanduá se levantou em seguida. A onça brincou, rolou com ele e soltou o filhote, que aproveitou o momento descontraído para escalar e subir em uma árvore, fugindo da predadora. Foi então que a onça encarou Fábio nos olhos.

Foi a primeira vez que a onça olhou nos meus olhos. A gente fala que ela olha no fundo da sua alma. É difícil esquecer esse sentimento”, conta.

No Dia da Onça, guias do Pantanal narram encontros "olho no olho" com a pintada
Guia há 16 anos no Pantanal, Fábio Paschoal é biólogo e fotógrafo profissional. (Foto: Arquivo pessoal)

Experiências - Fábio Paschoal já perdeu as contas de quantas onças viu e admite que a sensação nunca perde a força. “É como se tudo parasse. Você tem certeza de que algo mágico está acontecendo.”

A bióloga Paula Ojeda, guia bilíngue no Refúgio Ecológico Caiman desde 2019, no Pantanal, em Miranda, viveu algo semelhante em sua seleção para trabalhar na fazenda. Estava com a colega Daniela Sifuentes quando viu apenas as orelhas da onça deitada. Quando reposicionaram o carro, o felino levantou a cabeça e as encarou diretamente.

“Quando ela olhou exatamente nos meus olhos, foi indescritível. Não tenho palavras”, diz Paula, usando praticamente as mesmas palavras de Fábio: “A primeira vez que a onça olha, olha no fundo da sua alma”, completa.

“É incrível estar frente a frente com um predador de topo, que caça animais enormes como a anta, de 300 quilos, mas ao mesmo tempo saber que você está seguro ali”, relata.

No Dia da Onça, guias do Pantanal narram encontros "olho no olho" com a pintada
Onça Caraí flagrada com reflexo na água por Fábio Paschoal. (Foto: Fábio Paschoal)

A paulista Daniela Sifuentes, que está no Pantanal de julho a outubro há anos, vendo onças quase todos os dias, também conta que a emoção nunca se dilui. Ela lembra o encontro marcante com Flor, uma onça idosa e habituada à presença de turistas, que passou a poucos metros dela durante uma expedição no ano passado.

Daniela estava no carro de safári, sentada numa cadeira que fica à frente do veículo, fazendo focagem noturna, quando viu a onça na beira da lagoa, possivelmente procurando jacarés. Em certo momento, Flor parou, olhou para ela e continuou caminhando em sua direção. Daniela ficou paralisada, mas Flor estava apenas se desviando de um tronco e seguiu seu rumo.

“Ela passou a dois ou três metros de mim. Olhou nos meus olhos. É muito emocionante. Você não pode se mexer. Parece que ela está analisando você e vai embora. A gente conversa com os guias e todo mundo tem a mesma sensação.”

No Dia da Onça, guias do Pantanal narram encontros "olho no olho" com a pintada
Biológa e guia no Pantranal Daniela Sifuentes, apaixonada por fotografia. (Foto: Arquivo Pessoal)

Registros - A fotografia surgiu na vida dos três profissionais como extensão desse encantamento gerado pelo contato direto com a natureza.

“É paixão e ferramenta de trabalho. A gente está ali, vendo a vida acontecer e sente necessidade de fotografar”, explica Daniela.

E no Pantanal, registrar uma onça é privilégio possível. Por ser um bioma aberto, com grande densidade desse predador, a chance de avistar o maior felino das Américas, que pode chegar a 120 quilos, é muito maior do que em outros biomas.

Segundo Fábio, mesmo conhecendo os hábitos das onças, é difícil planejar a foto. Ele, que é fotógrafo profissional, garante que seus melhores cliques foram por sorte, como foi o registro da onça Medrosa, dormindo no galho da árvore.

No entanto, há situações em que o clique foi feito com planejamento, como é o caso da foto espelhada na água. "A gente estava seguindo o Caraí e sabia que ele iria para o açude. A gente foi para a frente do açude e esperou. Eu queria muito a foto de uma onça com reflexo na água e fiquei esperando por 40 minutos até ele chegar", comemora Fábio.

“Muita gente tem medo, mas onça é super importante para a ecologia do lugar. Se há crescimento de herbívoros, por exemplo, ela vai regular e fazer o controle populacional”.

No Dia da Onça, guias do Pantanal narram encontros "olho no olho" com a pintada
Medrosa flagrada por Fábio Paschoal durante descanso. (Foto: Fábio Paschoal)

As onças - No Pantanal, cada onça tem uma identidade própria, as rosetas. Os padrões únicos de pintas permitem identificar quem é quem. Essa técnica é fundamental para o trabalho de monitoramento e, para Paula Ojeda, uma das partes mais fascinantes da rotina. Ela tem o hábito de anotar todos os seus encontros com o felino e já identificou 43 indivíduos diferentes, alguns vistos mais de uma vez.

Entre os mais famosos está Timburé, macho grande e extremamente adaptado, que não se incomoda com os carros e se permite ser observado de forma natural. Aracy, outra onça habituada, é presença frequente nos avistamentos. Paula guarda como lembrança favorita o dia em que viu o filhote de Aracy: “Ela estava tranquila, deitadinha num ambiente aberto. Quando chegamos, só abriu os olhos e continuou ali. Uma cena linda.”

No vídeo abaixo, cedido por Daniela, a hóspede filma do carro de safári a onça Tata passando pela ponte. Ao fundo, é possível ouvir o som das capivaras fazendo alarme para alertar sobre a presença da onça.

Fábio também cita histórias curiosas, como a de Ousado, resgatado após ter as patas queimadas no incêndio de 2020, na região de Porto Jofre. Hoje, o felino é famoso por caçar jacarés de forma muito peculiar. Ele mergulha e surpreende as presas por baixo da água.

Outra onça famosa da região é a Medrosa, que tem o costume de subir em árvores para caçar jacaré na beira do rio. Ela fica no galho observando e, quando se sente segura, pula na água para abocanhar sua presa, quase sempre com sucesso. Daniela destaca a força das onças mais velhas, que continuam reproduzindo mesmo após anos de pressões como desmatamento e caça, como é o caso de Flor, uma onça com cerca de 15 anos, que vive na Caiman.

No Dia da Onça, guias do Pantanal narram encontros "olho no olho" com a pintada
Bióloga, Paula Ojeda atua como guia bilíngue no Refúgio Ecológico Caiman (Foto: Arquivo pessoal)

Turismo - Para os três guias, a convivência cotidiana com as onças não só emociona, mas também preserva. Todos enfatizam o impacto do turismo de observação na transformação da conservação no Pantanal.

Na Fazenda Caiman, onde o Onçafari iniciou há cerca de 15 anos o processo de habituação com veículos, a taxa de avistamento saltou de 7% para 100%. Onças que antes fugiam dos carros agora convivem com eles sem agressividade, em uma relação construída com respeito, técnica científica e distância segura.

“Não tem como preservar aquilo que você não conhece”, afirma Daniela.

Paula complementa, destacando o papel econômico do felino: “A onça vale muito mais viva do que morta. O turismo que ela atrai gera emprego e traz recursos para a região. Pantaneiros têm relação muito emocional com a onça, que faz parte da identidade e da cultura local”, complementa.

Fábio reforça o aspecto ecológico. “Uma onça saudável é essencial para o equilíbrio do ecossistema. Ela regula populações de herbívoros. É um animal carismático que atrai turistas e recursos.”

Mesmo vendo onça quase todos os dias, a gente nunca cansa. Sempre acontece algo especial”, resume Daniela.

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