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Meio Ambiente

Pastagens cedem espaço à agricultura e eucalipto no Cerrado de MS

Vegetação nativa teve redução líquida de 5,2% em cinco anos, enquanto áreas já abertas passam por novos usos

Por Inara Silva | 11/09/2026 08:25
Pastagens cedem espaço à agricultura e eucalipto no Cerrado de MS
Paisagem do Cerrado reúne áreas de vegetação, pastagem e ocupação rural (Foto: Juliano Almeida)

O Cerrado de Mato Grosso do Sul chega ao seu dia, celebrado nesta sexta-feira (11), com uma transformação em curso no uso da terra. Após décadas de expansão das pastagens, áreas já abertas vêm sendo incorporadas principalmente pela agricultura e pela silvicultura. Ao mesmo tempo, a vegetação nativa continua perdendo espaço para atividades agropecuárias. Entre 2020 e 2025, as formações nativas tiveram redução líquida de 290 mil hectares, ou 5,2%, na porção sul-mato-grossense do bioma.

RESUMO

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O Cerrado de Mato Grosso do Sul perdeu 290 mil hectares de vegetação nativa entre 2020 e 2025, redução de 5,2%, segundo dados do MapBiomas. Em 40 anos, a queda chega a 55,7%. No mesmo período recente, pastagens cederam espaço para agricultura e silvicultura, que cresceram sobre áreas já abertas, mas a conversão de vegetação nativa continua, com 211,2 mil hectares transformados em pasto. Pesquisadoras alertam para impactos no ciclo hídrico e na biodiversidade.

Dados da Coleção 11 de Cobertura e Uso da Terra do MapBiomas mostram que as pastagens ocupavam 11,78 milhões de hectares em 2020 e passaram para 10,74 milhões em 2025, redução de pouco mais de 1 milhão de hectares. No mesmo intervalo, a agricultura cresceu de 2,94 milhões para 3,18 milhões de hectares e a silvicultura, de 1,06 milhão para 1,41 milhão.

A análise das transições entre os diferentes usos ajuda a identificar a origem de parte dessas novas áreas. Cerca de 156,1 mil hectares classificados como pastagem em 2020 aparecem como agricultura em 2025. As antigas pastagens correspondem a aproximadamente 60% das áreas que passaram para esse uso no período.

Na silvicultura, a participação é ainda maior. Aproximadamente 315,3 mil hectares que eram pastagens em 2020 aparecem nessa categoria em 2025, o equivalente a cerca de 85% das áreas incorporadas pela atividade.

Pesquisadora do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e integrante da equipe Cerrado do MapBiomas, Bárbara Costa explica que os mapas de transição comparam a classificação encontrada no início e no fim do período.

"Esses dados representam uma comparação entre a classe registrada no início e no final do período. Ou seja, mostram as mudanças entre o que foi classificado em 2020 em relação ao ano de 2025”, explica.

Isso significa que os dados não descrevem necessariamente todas as alterações ocorridas em cada área ao longo dos cinco anos. Segundo Bárbara, uma parcela majoritária das áreas que passaram a ser classificadas como agricultura ou silvicultura já estava ocupada por usos antrópicos, especialmente pastagens, em 2020. No caso da agricultura, essa proporção aumenta quando são consideradas outras classes agropecuárias, como o Mosaico de Usos.

"Esse padrão pode estar associado à intensificação e à reorganização do uso da terra no Cerrado sul-mato-grossense, com áreas anteriormente destinadas à pecuária sendo incorporadas para atividades agrícolas ou de silvicultura”, afirma.

A pesquisadora acrescenta que o aproveitamento de terras já ocupadas pode reduzir a necessidade de abertura de novas áreas. Esse movimento, porém, ocorre simultaneamente à conversão de vegetação nativa.

Pastagens cedem espaço à agricultura e eucalipto no Cerrado de MS

Perda em cinco anos - Entre 2020 e 2025, aproximadamente 211,2 mil hectares classificados como vegetação nativa no início do período aparecem como pastagem no final. De acordo com Bárbara, a maioria corresponde a áreas anteriormente classificadas como Formação Florestal e Formação Savânica.

“O dado mostra que dois processos estão ocorrendo ao mesmo tempo”, explica.

De um lado, áreas agropecuárias já abertas mudam de uso, principalmente de pastagem para agricultura e silvicultura. De outro, continuam ocorrendo conversões de vegetação nativa para usos agropecuários.

Essa perda também aparece na comparação da cobertura total nos dois anos. Em 2020, as classes de vegetação nativa ocupavam cerca de 5,53 milhões de hectares no Cerrado de Mato Grosso do Sul. Em 2025, eram aproximadamente 5,24 milhões. A diferença representa, segundo Bárbara, redução líquida de 290 mil hectares, ou 5,2%, em cinco anos.

Do ponto de vista ambiental, a pesquisadora explica que a conversão da vegetação nativa pode provocar perda e fragmentação de habitats, alterações na conectividade da paisagem e mudanças em processos relacionados à água, ao solo e ao estoque de carbono.

Redução em 40 anos - A dimensão da transformação fica ainda mais evidente quando a comparação volta ao início da série histórica do MapBiomas. Em 1985, as classes de vegetação nativa ocupavam 11,83 milhões de hectares na porção sul-mato-grossense do Cerrado. Quatro décadas depois, restavam cerca de 5,24 milhões.

Bárbara explica que, para representar a vegetação nativa do Cerrado no Estado, o agrupamento reúne Formação Florestal, Formação Savânica, Savana Alagada, Campo Alagado e Área Pantanosa e Formação Campestre. Entre 1985 e 2025, o conjunto dessas formações apresentou redução líquida de 55,7%.

O indicador representa a diferença entre a área ocupada pelas classes de vegetação nativa nos dois extremos da série histórica e, portanto, não deve ser interpretado como uma taxa acumulada de desmatamento.

Entre as formações, a mudança é especialmente expressiva na Formação Savânica. A área classificada dessa forma passou de aproximadamente 3,26 milhões de hectares em 1985 para cerca de 1 milhão em 2025.

Pastagens cedem espaço à agricultura e eucalipto no Cerrado de MS
Plantação de eucalipto ocupa extensa área em meio à paisagem rural de MS (Foto: Juliano Almeida)

Agricultura avança - Enquanto a vegetação nativa perdeu espaço, a ocupação produtiva mudou de escala no Cerrado sul-mato-grossense. A agricultura passou de aproximadamente 432 mil hectares em 1985 para 3,18 milhões em 2025. A área atual é mais de sete vezes a registrada no início da série.

A silvicultura teve expansão proporcional ainda maior, saindo de aproximadamente 50 mil hectares em 1985 para 1,41 milhão em 2025, área mais de 28 vezes superior. As pastagens também cresceram quando considerados os 40 anos. Ocupavam aproximadamente 8,59 milhões de hectares em 1985 e chegaram a 10,74 milhões em 2025.

Nos anos mais recentes, entretanto, o movimento se inverteu. Entre 2020 e 2025, pouco mais de 1 milhão de hectares deixaram de aparecer classificados como pastagem, enquanto agricultura e silvicultura ampliaram suas áreas.

A transformação também mudou de lugar ao longo das últimas quatro décadas. Segundo Bárbara, no início da série histórica, entre 1985 e 1990, a transição de pastagem para agricultura aparecia com maior intensidade na porção sul de Mato Grosso do Sul. Com o passar dos anos, o movimento avançou mais ao norte do Estado.

Para a pesquisadora, esse padrão espacial pode estar relacionado tanto à expansão territorial de determinados usos quanto a processos de intensificação produtiva. Os mapas, porém, não permitem concluir, isoladamente, que a pecuária tenha sido simplesmente deslocada para outras áreas. Eles mostram mudanças de classificação e a reorganização espacial dos usos da terra.

Pastagens cedem espaço à agricultura e eucalipto no Cerrado de MS

Áreas já abertas - A predominância de antigas pastagens entre as áreas incorporadas pela agricultura e pela silvicultura mostra que parte dessa expansão já ocorre sobre terras anteriormente abertas. O processo, porém, não elimina a pressão sobre as formações nativas. Entre 2020 e 2025, além dos 156,1 mil hectares que aparecem na transição de pastagem para agricultura, cerca de 8,2 mil hectares anteriormente classificados entre as formações nativas analisadas aparecem como agricultura em 2025.

Na silvicultura, enquanto 315,3 mil hectares vieram de áreas classificadas como pastagem, aproximadamente 37,5 mil hectares que eram vegetação nativa em 2020 aparecem destinados à atividade cinco anos depois.

Para Bárbara, a predominância de áreas anteriormente antropizadas na expansão dessas atividades pode estar relacionada à intensificação e à reorganização produtiva e contribuir para reduzir a necessidade de abertura de novas áreas.

Os próprios mapas, entretanto, impõem uma ressalva: no mesmo período, 211,2 mil hectares classificados como vegetação nativa em 2020 aparecem como pastagem em 2025.

Pastagens cedem espaço à agricultura e eucalipto no Cerrado de MS
Gado em área de pastagem; dados do MapBiomas mostram mudanças no uso da terra no Cerrado de MS entre 1985 e 2025(Foto: Embrapa)

Além de suas fronteiras - O impacto da transformação da paisagem não se limita à quantidade de vegetação existente dentro do próprio Cerrado. Água, biodiversidade e conexão entre ecossistemas também dependem da conservação dessas áreas.

Em entrevista anterior ao Campo Grande News, a pesquisadora Isabel Schmidt, que estuda o Cerrado há pelo menos 25 anos, enfatizou a ligação entre o bioma e o Pantanal.

“O Pantanal é um bioma muito dependente da água que vem do Cerrado, então, da conservação do Cerrado”, afirmou.

Isabel explicou que o desmatamento e o uso intensivo da água subterrânea pela agricultura, pecuária e irrigação interferem na infiltração de água no Cerrado e, consequentemente, na chegada dela ao Pantanal.

A pesquisadora ressaltou ainda que a importância do bioma nem sempre é facilmente reconhecida pela paisagem. Ao falar sobre sua trajetória de pesquisa, classificou o Cerrado como a “savana mais rica em biodiversidade do mundo” e destacou que parte de sua riqueza ecológica não tem a aparência normalmente associada às grandes florestas tropicais.

Sob o solo - A relação entre conservação da vegetação e disponibilidade de água também foi destacada pela geógrafa Marine Dubos-Raoul, pesquisadora visitante do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), em Três Lagoas, em entrevista concedida anteriormente ao Campo Grande News.

Marine explicou que parte fundamental da dinâmica do Cerrado ocorre abaixo da superfície. Os solos profundos e bem drenados favorecem a recarga dos aquíferos durante o período chuvoso e contribuem para manter reservas hídricas na estação seca. A pesquisadora lembrou que o Cerrado é chamado de “floresta invertida” justamente porque uma parcela importante da dinâmica do ecossistema está no subsolo.

Segundo Marine, a substituição da vegetação nativa por monocultivos exóticos altera mecanismos naturais de infiltração e recarga e pode afetar diretamente a vazão dos cursos d'água e a disponibilidade hídrica.

Em sua avaliação, as mudanças no uso da terra, o desmatamento e a fragmentação da vegetação estão entre as principais pressões sobre o Cerrado. A retirada da cobertura nativa pode comprometer o ciclo hidrológico e reduzir a disponibilidade de habitats para a fauna.

A especialista também defendeu políticas de preservação e recuperação de nascentes, corredores ecológicos e sistemas agroflorestais. Segundo a pesquisadora, esses sistemas podem contribuir para recuperar áreas degradadas, produzir alimentos e oferecer recursos para a fauna.

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