“Proteção perpétua" ajuda Rio Sucuri na fama de água mais cristalina do mundo
Curso d’água de 2 quilômetros impressiona com cores vibrantes e rica biodiversidade aquática na região
Neste ano, imagens do Rio Sucuri, em Bonito, voltaram a viralizar nas redes sociais como o de "água mais cristalina do mundo". Conhecido pela transparência incomum, o motivo da preservação passa por regra de "proteção perpétua". Ele está inserido em uma área de proteção privada, fato que lhe garante maior nível de preservação ambiental. Segundo o secretário municipal de Meio Ambiente, Thyago Sabino, o atrativo turístico faz parte da RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural), localizada na Fazenda São Geraldo, o que fortalece a conservação do recurso hídrico.
RESUMO
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O Rio Sucuri, localizado na Fazenda São Geraldo, a 18 quilômetros de Bonito, no Mato Grosso do Sul, ganhou destaque nas redes sociais pela transparência excepcional de suas águas, que variam entre tons azul-turquesa e verde. Com dois quilômetros de extensão, o rio abriga 25 espécies de peixes e 12 de plantas aquáticas, sendo considerado pelo biólogo José Sabino o mais cristalino da Serra da Bodoquena.
Sabino afirma que essa categoria de unidade de conservação assegura proteção permanente à área. “Depois que uma RPPN é criada, ela não pode ser desfeita. A legislação garante caráter perpétuo a essas unidades”, afirmou.
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Localizada a cerca de 18 quilômetros de Bonito, a área preservada ocupa 642 hectares, o equivalente a 7,63% dos 8.406 hectares da fazenda. Atualmente, a RPPN desenvolve atividades voltadas ao turismo sustentável, recreação, educação ambiental e pesquisas científicas.
Beleza Natural - O Rio Sucuri integra a sub-bacia do Rio Formoso. Do alto, seu traçado sinuoso lembra o corpo da cobra que lhe dá o nome. Já à superfície impressiona pelos tons que variam entre o azul-turquesa e o verde, em uma paleta que muda conforme a luz e o ângulo de observação.
O fotógrafo e videomaker Eduardo Alves conhece de perto a beleza do local e suas publicações nas redes sociais têm surpreendido os internautas. Nascido em Bonito, Eduardo afirma que entende o encanto, pois o lugar dispõe de água cristalina e em tom azul.
De dentro de um barco, por exemplo, é possível enxergar com nitidez o fundo arenoso, Tanto que, recentemente, um grupo de turistas portugueses pôde flagrar o momento em que uma sucuri abocanhou um porco-do-mato dentro da água.
Para o secretário de Meio Ambiente, o episódio comprova a qualidade ambiental que Bonito mantém. Para ele, foi um “feito extremamente raro poder ver e a presença humana participar de uma ação natural como essa”.
Cristalino - Segundo o biólogo José Sabino, doutor em Ecologia, essa característica está diretamente ligada à geologia da região, pois Bonito está assentada sobre um solo rico em calcário. A água, levemente ácida antes de infiltrar, dissolve esse material ao atravessar o subsolo. Atualmente, diretor da produtora Natureza em Foco, ele explica que esse processo desencadeia um efeito natural semelhante ao de produtos usados para limpar piscinas, quando as partículas em suspensão se agregam e se depositam no fundo.
“Não é uma filtragem mecânica. É um processo químico natural que faz com que as impurezas decantem”, explica.
Por conta disso, a água é excepcionalmente límpida. Segundo o biólogo, medições realizadas indicaram níveis de transparência muito elevados nos rios da região, avaliados na horizontal, já que a profundidade é relativamente baixa. No Sucuri, alguns pontos atingem cerca de 3 metros, mas a visibilidade ultrapassa essa dimensão, criando a sensação de um ambiente quase sem barreiras visuais.
Para José Sabino, o Rio Sucuri “sem dúvida é a água mais cristalina da região da Serra da Bodoquena”, destacando o protagonismo do rio entre os cursos d’água de Bonito. No entanto, pondera que as classificações de que é “um dos três rios mais cristalinos do mundo” são exageradas e pouco precisas do ponto de vista científico.
Segundo ele, embora o Rio Sucuri apresente níveis de transparência excepcionalmente altos e se destaque na região da Serra da Bodoquena, não é possível estabelecer esse tipo de ranking global, já que existem inúmeros rios ainda não medidos ou comparados com o mesmo rigor.
Embora existam águas transparentes em várias partes do mundo, o diferencial do Sucuri em relação a outros rios da região, conforme o biólogo, está na combinação dessa clareza com a biodiversidade. Ao longo de seu curto percurso, o rio abriga cerca de 25 espécies de peixes, além de invertebrados e uma variedade de 12 espécies de plantas aquáticas.
Essa riqueza biológica se distribui entre bancos de macrófitas, nascentes que brotam com força e trechos de fluxo constante ao longo do ano. Mesmo em períodos de chuva, quando a turbidez aumenta temporariamente, a água recupera sua limpidez em poucas horas graças à ação do calcário. Já na estiagem, o volume diminui, mas sem comprometer a continuidade do rio nem as atividades turísticas.
Segundo o biólogo, diferentemente dos rios mais frios da região, como o Formoso, as nascentes do Sucuri mantêm águas em torno de 23 a 24 graus, consideradas confortáveis, especialmente durante os passeios de flutuação, uma das atividades mais procuradas pelos visitantes.
Reserva Fazenda São Geraldo - Criada oficialmente em 21 de maio de 1998, a RPPN Fazenda São Geraldo nasceu por iniciativa dos proprietários da fazenda, com apoio do poder público, para ampliar a proteção ambiental da área e incentivar atividades de ecoturismo, educação ambiental e pesquisas científicas. A unidade foi a segunda Reserva Particular do Patrimônio Natural reconhecida pelo Estado.
A reserva protege áreas úmidas e fragmentos do bioma Cerrado, com predominância de florestas semideciduais e matas ciliares ao longo do Rio Formoso e de toda a extensão do Rio Sucuri.
Poder público - Conforme o secretário Thyago Sabino, o poder público atua no entorno da área com ações de manutenção e conservação, como melhorias em estradas vicinais e implementação de curvas de nível em propriedades próximas, contribuindo para a preservação do rio.
Segundo ele, as RPPNs também têm impacto financeiro positivo para os municípios. Isso porque integram os critérios de distribuição do ICMS Ecológico (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), mecanismo estadual que repassa recursos a cidades que possuem áreas protegidas, sejam públicas ou privadas. “O território que abriga unidades de conservação acaba sendo recompensado por meio desses programas”, destacou o secretário.
Os recursos do imposto são destinados à Prefeitura, que deve, anualmente, comprovar a aplicação do dinheiro em gestão de resíduos sólidos e conservação das unidades de conservação. Entre as ações consideradas estão a manutenção de acessos, apoio à infraestrutura, sinalização, divulgação e iniciativas de educação ambiental.
No caso de Bonito, o secretário cita como exemplo a manutenção das estradas de acesso ao Rio Sucuri e o apoio a outras áreas protegidas, como o Parque Nacional da Serra da Bodoquena.
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