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Política

Agro sobe o tom e transforma dívida rural em principal recado ao governo

Lideranças do setor falaram em juros altos, recuperação judicial e risco de quebra de produtores

Por Kamila Alcântara e Helio de Freitas, de Dourados | 09/05/2026 13:43
Agro sobe o tom e transforma dívida rural em principal recado ao governo
Senadora Tereza Cristina (PP), principal representante do setor, discursou na 60ª edição da Expoagro, em Dourados (Foto: Helio de Freitas)

A 60ª edição da Expoagro, em Dourados, acabou se transformando também em um palco de pressão política e econômica do agronegócio. Neste sábado (9), em meio às falas sobre crescimento, investimentos e logística, o tema que mais apareceu nos discursos de lideranças do setor foi o endividamento rural, tratado por produtores e autoridades como uma ameaça direta à continuidade da atividade no campo.

RESUMO

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Na 60ª edição da Expoagro, em Dourados, lideranças do agronegócio alertaram para a crise de endividamento rural. A senadora Tereza Cristina citou juros altos, queda de commodities e dívida de R$ 170 bilhões. O governador Riedel comparou o cenário às crises dos anos 1990. O presidente do Sindicato Rural de Dourados alertou que, sem mudanças, a produção pode ser inviabilizada.

Presidente do Sindicato Rural de Dourados, Gino Ferreira fez um dos discursos mais duros do evento. Ao comentar a situação financeira dos produtores, afirmou que o campo vive um cenário oposto ao comemorado pelo governo federal.

“Enquanto o governo federal comemora safra recorde o produtor vive um dos momentos mais difíceis, devendo para bancos, empresas e cooperativas. Se continuar assim não vai mais haver produção e essa terra estará nas mãos de um sistema ganancioso”, declarou.

Gino também criticou os conflitos fundiários envolvendo áreas indígenas em Mato Grosso do Sul. Sem citar instituições diretamente, afirmou que produtores rurais convivem com insegurança, furto de gado e desrespeito a títulos de propriedade.

Segundo ele, “transformaram metade de Mato Grosso do Sul em terra indígena”. Também disse que a situação só não é pior por causa da atuação das forças de segurança estaduais.

A senadora Tereza Cristina (PP) concentrou o discurso na crise financeira enfrentada pelo agro e classificou o momento como uma “tempestade perfeita”. A parlamentar citou juros elevados, queda no preço das commodities, falta de seguro rural, aumento no custo dos insumos e impactos das guerras internacionais sobre fertilizantes e defensivos agrícolas. “Nós temos juros que não cabem no bolso de quem produz”, afirmou.

A senadora também alertou para o crescimento das recuperações judiciais no campo e disse que produtores estão perdendo propriedades. Segundo ela, o problema deixou de ser apenas do setor agropecuário e pode chegar ao consumidor por meio da inflação dos alimentos. “Hoje são 170 bilhões para rolar essa dívida”, disse ao comentar o volume do endividamento rural no país.

Tereza defendeu a criação de um fundo garantidor para ajudar produtores e afirmou que o governo federal não teria recursos suficientes para resolver sozinho o problema. Ela também criticou o baixo alcance do seguro rural e disse que o orçamento atual está distante da necessidade do setor. “Precisamos no mínimo de 6 bilhões para fazer rodar o seguro rural”, afirmou.

Durante a fala, a senadora ainda mencionou problemas ligados ao licenciamento ambiental, custos logísticos e dependência brasileira de fertilizantes importados. Segundo ela, conflitos internacionais acabam afetando diretamente o custo de produção no campo brasileiro.

Agro sobe o tom e transforma dívida rural em principal recado ao governo
Governador Eduardo Riedel Durante discurso na 60ª edição da Expoagro, em Dourados (Foto: Helio de Freitas)

O governador Eduardo Riedel (PP) também reconheceu dificuldades econômicas enfrentadas pelo setor agrícola e comparou o cenário atual a crises vividas no fim da década de 1990. “O setor agrícola passa por dificuldade. Talvez das maiores que a gente já viu”, afirmou.

Riedel atribuiu parte da crise ao cenário macroeconômico nacional e criticou os juros elevados. Segundo ele, taxas entre 15% e 18% inviabilizam investimentos e ampliam o endividamento dos produtores. “Não tem como com juro de 15, 17, 18% ao ano qualquer negócio prosperar”, declarou.

O governador também afirmou que a solução depende de articulação entre Congresso Nacional e Governo Federal. Sem citar diretamente o presidente da República, criticou políticas de estímulo ao gasto público e disse que isso acaba pressionando inflação e juros.

No discurso, Riedel ainda respondeu às críticas envolvendo áreas indígenas e defendeu separar ações criminosas de demandas sociais das comunidades. “As comunidades indígenas merecem respeito, merecem água, merecem pavimento na aldeia, merecem habitação”, disse.

Ao mesmo tempo, afirmou que invasões e práticas ilegais não podem ser toleradas. “Elas não podem e não devem exercer algo que infringe o direito alheio e a liberdade de produzir nesse país”, termina.

A Expoagro segue até o dia 17 de maio no Parque de Exposições João Humberto de Andrade Carvalho, em Dourados.

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