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Política

Após ler entrevista com denúncia, ministro ameaça processar ex-chefe do Ibama/MS

Segundo Marchetti, a resposta de Ricardo Salles veio por aplicativo e resumida a uma frase: “Vou te processar”

Por Aline dos Santos | 24/02/2021 12:20
"Até já deletei e bloqueei o ministro. Não tenho preocupação com isso", diz Marchetti, exonerado do comando do Ibama. (Foto: Henrique Kawaminami)
"Até já deletei e bloqueei o ministro. Não tenho preocupação com isso", diz Marchetti, exonerado do comando do Ibama. (Foto: Henrique Kawaminami)

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, reagiu à entrevista do ex-superintendente do Ibama em MS  (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), Luiz Carlos Marchetti, ao Campo Grande News.

Ao jornal, o ex-gestor, que foi oficialmente exonerado ontem (dia 23), expôs as entranhas de uma administração pública que se preocupa mais em acomodar aliados do ministro, majoritariamente policiais militares de São Paulo, a proteger o meio ambiente no Estado onde fica o Pantanal, maior planície alagável do mundo.

“O que está acontecendo é uma coisa sórdida. Um policial militar lá de dentro pediu minha vaga e a sequência disso foi uma política equivocada do ministro, que mobiliou todo o Ibama”, disse Marchetti.

Segundo o coronel, a resposta do ministro veio por aplicativo no WhatsApp e resumida a uma frase: “Vou te processar”. Ele conta que respondeu “à vontade”.

“Até já deletei e bloqueei o ministro. Não tenho preocupação com isso. Tudo que falei é pura verdade. Não estou irritado por ter sido exonerado. O pano de fundo são os problemas graves que acontecem no Ibama. Estou expondo as mazelas para a sociedade”, diz Marchetti.

De acordo com o ex-superintendente, o ministro Ricardo Salles criou as audiências de conciliação, importando um modelo que adotou em São Paulo, onde foi secretário de Meio Ambiente. A questão é que a iniciativa, até vista como uma boa ideia, não saiu do papel e as multas não são pagas.

“As audiências não aconteceram. Os autos de infração a partir de 8 de outubro de 2019 não foram instruídos”, afirma Marchetti. Ele calcula que são 200 procedimentos represados. Após a multa, os documentos vão para o Ministério do Meio Ambiente, em Brasília. “O superintendente não fica nem sabendo. Vai para Brasília, onde deveria ser feito um pacote para conciliação”, diz.

“Nem sabe onde é o Pantanal” – O tenente-coronel aposentado da PM (Polícia Militar) de São Paulo, Carlos de Oliveira Guandalim, foi nomeado hoje para comandar o Ibama em Mato Grosso do Sul. “Está caindo de paraquedas. Não sabe onde é o Pantanal. Leva uns 20 anos e ele aprende um pouco”, diz Marchetti.

Nesta quarta-feira, o ex-superintendente ainda colhe os impactos das declarações. “Tem pessoas me ligando, pessoas detonando, o ministro P da vida. Mas sou apartidário, detesto política, meu   partido é o Brasil”.

As reações rompidas com o governo federal não se estendem ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Ele acredita que o presidente não tenha se ocupado da nomeação para o Ibama, cargo de terceiro escalão, mas possa ter conhecimento do ocorrido devido à repercussão nacional. “Mas ele me conhece bem. Estudamos junto por quatro anos na Academia Militar das Agulhas Negras”.

Marchetti assumiu a superintendência do Ibama no dia 17 de junho de 2019 e enfrentou dois anos críticos em Mato Grosso do Sul, quando grandes incêndios atingiram  Pantanal.

No ano passado, o fogo consumiu 30% do território do bioma, o que representa 4,4 milhões de hectares, conforme dados do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

O Campo Grande News solicitou posicionamento do Ministério do Meio Ambiente sobre a paralisia das audiências de conciliação e aguarda retorno.

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