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Política

Consagrado como locutor, Bernal se tornou prefeito fechado ao diálogo

Em março, o ex-prefeito foi preso pelo assassinato do fiscal tributário aposentado Roberto Carlos Mazzini

Por Fernanda Palheta | 13/07/2026 10:56
Consagrado como locutor, Bernal se tornou prefeito fechado ao diálogo
Ex-prefeito de Campo Grande, Alcides Bernal, em entrevista durante a campanha eleitoral de 2012 (Foto: Arquivo)

A comunicação sempre foi determinante na trajetória do ex-prefeito de Campo Grande, Alcides Bernal, que morreu na madrugada desta segunda-feira (13), aos 60 anos, na véspera de seu aniversário.

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Alcides Bernal, ex-prefeito de Campo Grande, morreu na madrugada desta segunda-feira (13), aos 60 anos. Radialista elogiado, sua popularidade o levou ao Paço Municipal em 2012, mas a falta de diálogo com a Câmara resultou em sua cassação em 2014. Sua trajetória terminou de forma trágica, após matar a tiros o fiscal tributário Roberto Carlos Mazzini, em março deste ano.

Foi considerado por muitos um dos melhores radialistas de Campo Grande, o que possibilitou uma forte conexão com a população e garantiu uma longa carreira no Legislativo, como vereador e deputado estadual. Mas, quando chegou ao Paço Municipal, em 2012, fechou-se ao diálogo com a classe política, o que culminou na sua cassação, em 2014.

No dia da sua morte, quem conviveu com ele ainda lamentou o fim trágico, após o envolvimento no assassinato do fiscal tributário aposentado Roberto Carlos Mazzini, de 61 anos, em março deste ano.

Mazzini foi morto com dois tiros por Bernal ao entrar na casa do ex-prefeito, localizada na Rua Antônio Maria Coelho, no Bairro Jardim dos Estados , acompanhado de um chaveiro para tomar posse da casa, adquirida após procedimento ligado à CEF (Caixa Econômica Federal), que havia retomado o imóvel de Bernal por dívida de financiamento.

O diretor da Rede MS de Rádio e Televisão, Ulisses Serra Netto, conhecido como Noninho, se limitou a falar sobre os 18 anos de Bernal na FM Cidade 97. "O Alcides, como locutor, foi exemplar, um dos melhores que eu tive", disse.

Ele lembrou que Bernal começou trabalhando nas madrugadas, na Rádio Ativa, que também fazia parte do grupo. Na sequência, assumiu o programa Refazenda. "Teve uma trajetória muito rápida, sempre liderando a audiência. Tecnicamente impecável", completou.

O ex-vereador Paulo Pedra foi um dos seis parlamentares que votaram contra a cassação de Bernal na Câmara Municipal. Ele lembra que, quando o nome do locutor surgiu na disputa majoritária, foi seu perfil de um "líder popular" que chamou a atenção dos eleitores.

"Ele foi um dos melhores, talvez o melhor radialista que já tivemos em Campo Grande. Isso fez ele se aproximar dos eleitores, ele foi para as bases e essa conexão o sistema não conseguiu apagar", avaliou.

A candidatura foi considerada de estilo “azarão”, termo usado no turfe para quem tem baixa probabilidade de vitória. O cenário político era de hegemonia do então PMDB (atual MDB), mas o candidato do PP se sagrou campeão no segundo turno. Sem aliados, lançou chapa pura, contra outros seis adversários.

Porém, segundo ele, ao assumir a administração, "faltou maturidade e, por causa disso, foi cassado". Pedra chegou a compor o primeiro escalão de Bernal, quando ele voltou à Prefeitura para encerrar o mandato. "Ele voltou, fez uma administração boa, mas perdeu a conexão. Tentei fazer o que fosse possível", disse. Pedra ainda lamentou o último capítulo da história de Bernal. "Mostrou, da parte dele, um desequilíbrio", finalizou.

O deputado estadual Zeca do PT ocupava uma cadeira na Câmara Municipal em 2012 e também votou contra a cassação de Bernal. O parlamentar avalia que a falta de diálogo foi o maior problema da gestão.

"Bernal foi vítima da incapacidade absoluta dele de dialogar, de conversar com a Câmara, de negociar. Eu avisei ele disso, eu falei: 'Bernal, está errado, o processo exige diálogo, conversação, você tem que dialogar com a Câmara, buscar o entendimento'. Acho que ele foi vítima disso, foi criando um grau de radicalismo na Câmara que foi impossível depois contornar", relatou.

O petista ainda citou a pressão que o ex-prefeito sofreu das lideranças políticas que dominam o cenário sul-mato-grossense e lamentou a tragédia no fim da vida. "Fico sentido com a morte do Bernal, uma figura importante. Cometeu o crime e tinha que cumprir, mas não imaginava que seu fim seria tão trágico", completou.

O ex-vereador Derly dos Reis de Oliveira, conhecido como Cazuza, lembra que sua motivação para votar contra a cassação de Bernal foi por não acreditar que a Casa tinha o direito de "tirar o mandato outorgado pelo povo".

"Ele venceu a eleição sem recurso algum, lutando contra duas máquinas, a do Município e a do Estado. Isso demonstrou que a população estava descontente com a situação. Infelizmente, a classe política não entendeu, e ele não conseguiu administrar com a tranquilidade que deveria", disse.

Para Cazuza, a gestão conturbada refletiu no fim da vida de Bernal. "Eu acredito que o desenrolar desta história abrupta contribuiu muito para tudo isso, pois afetou a sua saúde e seu psicológico, tornando-o uma pessoa fragilizada. Uma tristeza imensa o final desta história, que poderia ter sido diferente", completou.

O velório de Bernal acontece nesta segunda-feira (13), a partir das 11h, na Capela Jardim das Palmeiras, na Avenida Tamandaré. O sepultamento acontecerá às 16h

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