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JULHO, QUINTA  09    CAMPO GRANDE 29º

Política

Representatividade só faz sentido quando vem acompanhada de compromisso público

Não basta cumprir a cota. É preciso mudar a política

Por José Cândido | 09/07/2026 16:00
Representatividade só faz sentido quando vem acompanhada de compromisso público
A democracia se fortalece quando o Parlamento representa a sociedade em toda a sua diversidade e reúne representantes comprometidos com o combate à corrupção e as causas sociais.

As convenções partidárias, iniciadas neste mês de julho, representam muito mais do que um rito previsto no calendário eleitoral. São o momento em que os partidos revelam à sociedade quem consideram apto a disputar o poder. É a primeira prova de coerência entre o discurso e a prática.

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As convenções partidárias iniciadas em julho vão além de um rito eleitoral: revelam se os partidos praticam o discurso de renovação, diversidade e inclusão. No Brasil, mulheres, negros e indígenas seguem sub-representados nos parlamentos, o que empobrece a democracia. Os partidos precisam garantir candidaturas competitivas a esses grupos, com recursos e condições iguais. O eleitor, por sua vez, deve exigir diversidade, competência e caráter, rejeitando corrupção e o clientelismo.

Todos os anos eleitorais, as legendas repetem o compromisso com a renovação, a diversidade e a inclusão. Mas basta observar a composição das casas legislativas para perceber que esse discurso, na maioria das vezes, termina na propaganda.

Mulheres continuam sub-representadas na política, apesar de serem maioria da população e do eleitorado brasileiro. Negros, que formam a maior parcela da população do País, ainda ocupam espaço muito inferior ao que deveriam nas instâncias de poder. Os povos indígenas, protagonistas da história e da identidade de Mato Grosso do Sul, permanecem praticamente invisíveis nos parlamentos.

Essa realidade não é apenas uma injustiça. É um empobrecimento da democracia.

Uma sociedade diversa não pode ser governada por instituições que reproduzem sempre os mesmos perfis, os mesmos sobrenomes, os mesmos grupos econômicos e os mesmos interesses. A democracia perde qualidade quando milhares de brasileiros não se enxergam entre aqueles que fazem as leis, fiscalizam os governos e definem os rumos dos investimentos públicos.

Mato Grosso do Sul conhece bem essa contradição. O Estado abriga uma das maiores populações indígenas do Brasil, possui forte diversidade cultural e racial, mas essa pluralidade raramente está presente nas câmaras municipais, na Assembleia Legislativa ou na bancada federal. A política continua excessivamente fechada para quem não pertence aos grupos tradicionais de poder.

É hora de romper esse ciclo.

Os partidos precisam parar de tratar mulheres, negros e indígenas apenas como números para cumprir exigências legais. Não basta preencher cotas. É preciso abrir espaço real para candidaturas competitivas, garantir condições iguais de campanha, acesso aos recursos partidários e tempo de propaganda. A exclusão política não termina com o registro de uma candidatura. Ela só acaba quando existe oportunidade concreta de eleição.

Mas a representatividade, por mais importante que seja, também não pode servir como único critério de escolha.

O eleitor não deve votar em alguém apenas porque é mulher, negro ou indígena. Deve votar em pessoas que, além de representarem essa diversidade, tenham compromisso inegociável com a ética, com a honestidade e com o interesse público.

O Brasil não precisa apenas de novos rostos. Precisa de novos comportamentos.

Chega de candidatos que enxergam o mandato como profissão ou patrimônio familiar. Chega da política como instrumento de enriquecimento pessoal, de favores e de privilégios. Chega da velha lógica em que o interesse particular vale mais do que o interesse coletivo.

O mandato parlamentar existe para defender quem mais precisa da ação do Estado. Educação pública de qualidade. Saúde eficiente. Habitação popular. Saneamento básico. Segurança. Geração de empregos. Desenvolvimento sustentável. Reforma agrária responsável, capaz de promover justiça social sem abrir mão da segurança jurídica e da produção de alimentos. Esses são os temas que deveriam dominar as campanhas eleitorais.

Infelizmente, muitas vezes acabam substituídos por ataques pessoais, disputas ideológicas estéreis e guerras nas redes sociais.

Enquanto isso, milhões de brasileiros continuam esperando por escolas melhores, hospitais funcionando, ruas pavimentadas, água tratada, moradia digna e oportunidades para construir uma vida melhor.

Existe ainda um compromisso que deve estar acima de qualquer bandeira política: o combate radical à corrupção.

A corrupção é a maior inimiga das políticas públicas. Ela rouba o dinheiro da merenda escolar, dos medicamentos, das obras de saneamento, das moradias populares, das estradas e dos programas sociais. Não existe corrupção pequena. Todo desvio representa um direito negado a quem depende dos serviços públicos.

Por isso, o eleitor deve desconfiar de candidatos envolvidos em investigações graves, condenações ou históricos incompatíveis com a função pública. A política não pode continuar sendo refúgio para quem faz da administração pública um negócio privado.

As convenções partidárias oferecem aos partidos a oportunidade de mostrar que compreenderam o recado da sociedade. Cabe às legendas apresentar candidatos preparados, diversos e honestos. Cabe ao eleitor rejeitar o clientelismo, o voto de cabresto, a compra de votos, o fisiologismo e os velhos profissionais da política que transformaram mandatos em carreira vitalícia.

Renovar não significa apenas trocar nomes. Significa mudar práticas.

A democracia será mais forte quando mulheres, negros e indígenas ocuparem os espaços de decisão na proporção da sociedade brasileira. Será ainda mais forte quando esses representantes chegarem aos parlamentos movidos pelo compromisso com a justiça social, pela defesa do dinheiro público e pela coragem de enfrentar a corrupção, venha ela de onde vier.

O Brasil não precisa escolher entre diversidade e competência. Precisa exigir as duas. E deve acrescentar uma terceira condição que não admite negociação: caráter.

As convenções começam agora. Que elas sejam lembradas não como o momento em que os partidos apenas preencheram formulários e cumpriram cotas, mas como o instante em que decidiram abrir espaço para uma política mais representativa, mais ética e verdadeiramente comprometida com a população.

É isso que a democracia espera. É isso que os eleitores têm o direito de cobrar.