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Agricultura familiar mudou destino de comunidade quilombola em Campo Grande

Chácara dos Buritis foi formada por ex-escravizados que vieram na mesma época que Tia Eva, nos anos 1900

Por Silvia Frias | 22/02/2024 08:00
Nos meses de chuva, plantio de folhagens dá lugar a outras culturas, como da berinjela (Foto: Marcos Maluf)
Nos meses de chuva, plantio de folhagens dá lugar a outras culturas, como da berinjela (Foto: Marcos Maluf)

O produtor rural Janilson de Jesus Domingos, 42 anos, chacoalha a folha do pé de abóbora e derruba a mosca branca, praga agrícola levada pelo vento até a plantação dele, na comunidade quilombola Chácara do Buriti, em Campo Grande. “Isso aqui vem das plantações de soja, só atrapalha”, diz.

Janilson está acostumado a lidar com as adversidades da produção. De pequeno, ajudava o avô na plantação de folhagens e leguminosas e, agora, é ele quem cuida da produção que sustenta a família e integra a principal fonte econômica da comunidade, localizada a cerca de 40 quilômetros de Campo Grande, em trajeto pela BR-163. De novembro a março, por conta do tempo instável, as hortaliças dão lugar a outros produtos, como berinjela, abóbora e pimenta.

Plantação de milho é vista pouco depois da entrada da comunidade (Foto: Marcos Maluf)
Plantação de milho é vista pouco depois da entrada da comunidade (Foto: Marcos Maluf)

O produtor rural é descendente dos fundadores da comunidade, que chegaram a Mato Grosso do Sul na mesma época que Eva Maria de Jesus, em 1905. Ela se tornou conhecida como Tia Eva, dando nome a outra comunidade quilombola de Campo Grande.

Com Eva Maria também vieram João Antônio da Silva e Maria Theodolina de Jesus, bisavós de Janilson e da atual presidente da associação, Lucinéia de Jesus Domingos Gabião.

Em pesquisa realizada pela professora de geografia Eva Martins Terra, para tese de mestrado, a mudança de território se deu na década de 1920, por conta do aumento populacional da comunidade São Benedito, como também é conhecida o território de Tia Eva. No estudo, são citados ainda o nome de outros dois casais, também considerados precursores: Jerônimo “Vida” da Silva e Sebastiana Maria de Jesus, e Custódio Antônio Nortório e Maria Antônia de Jesus.

Em algumas casas, faixas coloridas são alusão à herança africana (Foto: Marcos Maluf)
Em algumas casas, faixas coloridas são alusão à herança africana (Foto: Marcos Maluf)

Jair Vicente da Silva, 68 anos, ex-presidente da associação, nascido e criado na comunidade, teve o caminho trilhado no trabalho. Conta que, no início, as famílias viviam principalmente da olaria, atividade que perdurou por anos. “Eu comecei com sete anos, baixando tijolo; meus tios amassavam o barro”, conta. “Era trabalhoso, bem trabalhoso”.

A olaria acabou sendo fechada depois de enfrentar dificuldades decorrentes da burocracia dos tempos modernos. “Muito imposto”, disse.

Durante um tempo, antes de casar, ele mesmo foi embora da comunidade para trabalhar como servente de pedreiro em Campo Grande.  “Morava na Vila Progresso, fiquei um tempo lá e voltei para trás, mas não acostumei”.

Casa construída dentro da comunidade (Foto: Marcos Maluf)
Casa construída dentro da comunidade (Foto: Marcos Maluf)

Sem jeito na cidade, Jair decidiu voltar para as terras da família. Ele é neto de Mariinha Theodolino e João Antônio da Silva – o avô, “um dos primitivos que comprou essas terras”. Casou, teve quatro filhos e foi presidente da associação, por quatro anos, até deixar a função, ocupada agora pela sobrinha, Lucinéia.

Nas terras dele, planta milho, além de leguminosas e folhagens, dependendo da época do ano. No dia da entrevista, estava ajudando nas terras do cunhado, que colhia a pimenta que seria comercializada nos mercados próximos.

“Aqui é tranquilo, a gente tem liberdade, eu brinco que minha saída daqui agora é para o cemitério”, disse Jair. O produtor lembra do passado dos escravizados que, após a abolição vieram para o território de MS em busca de futuro.

 “Foi um povo muito sofrido, os ‘troncos velhos’ vinham da África, vendidos para os brancos; o Brasil tem uma dívida com o negro que nunca paga”, afirmou Jair Vicente.

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A lembrança dos povos que vieram dos países do continente africano está marcada na frente de muitas casas de alvenaria da comunidade. São sete faixas, ao lado das janelas, nas cores preta, branca, verde, amarela e vermelha. As cores invocam a herança africana dos descendentes que moram ali há mais de cem anos.

Em uma das casas, a reportagem encontrou roda de mulheres no entorno da matriarca, Arlinda Theodolina, 87 anos, sentada na cadeira de fios, na varanda de casa. Arlinda e o marido, Sebastião Domingos Rosa, já falecido, são os pais de João Aires, 67 anos, avós de Janilson. As mulheres, noras e filhas avisaram que ela não teria mais condições de contar a história dos “troncos velhos”. “E vocês?”, questionei. Sorrindo, desconversaram. “Não, não, deixa”.

Encontramos o filho de Arlinda, João Aires, 67 anos, sentando na frente de casa, ouvindo música e comendo milho cozido. “Minha mamãe não fala direito, é assim mesmo”.

João Aires diz que comunidade mudou muito ao longo dos anos. "Agora é um sertão de casas" (Foto: Marcos Maluf)
João Aires diz que comunidade mudou muito ao longo dos anos. "Agora é um sertão de casas" (Foto: Marcos Maluf)

Ele admite não saber muito a história da família, até porque passou muito tempo longe da comunidade. Saiu depois que casou e voltou após 30 anos. “Isso aqui mudou muito, quando morei aqui, você contava quantas casas tinha, agora tem um sertão de casas aí”. Hoje, aposentado, é sócio do filho, Janilson.

A energia elétrica e a implantação do sistema de água foram realizadas em 2007. No local, há uma sala de atendimento à saúde, onde o médico vai duas vezes por semana. As crianças frequentam escola municipal José do Patrocínio, sendo levadas por transporte municipal.

Parcerias – A força econômica da comunidade é vista para qualquer lado que se olha. Na estrada principal do território, no caminho sem asfalto, as plantações chamam atenção. Milho, berinjela, abobrinha, couve e alface, fica no entorno ou no fundo das casas.

A maior parte do território de 43 hectares é usada para a agricultura familiar. A produção abastece o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e o Pnae (Programa Nacional de Alimentação Escolar). Ainda há parceira firmado por meio da associação, em que os alimentos são vendidos para a Conab.

Chácara de Janilson, onde o sustento é tirado da agricultura familiar (Foto: Marcos Maluf)
Chácara de Janilson, onde o sustento é tirado da agricultura familiar (Foto: Marcos Maluf)

A subsecretária de Políticas Públicas de Promoção da Igualdade Racial, Vânia Lucia Baptista Duarte, explica que a comunidade também foi incluída no Proacinq (Programa de Apoio às Comunidades Indígena e Quilombolas de MS).

O projeto de fomento à produção é coordenado pela Agraer (Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural) que auxilia os produtores com sementes, fertilizantes e equipamentos. O Proacinq deve atender a todas as 22 comunidades e ainda será executado na Chácara do Buriti.

Vânia diz que há outras políticas de desenvolvimento para as comunidades, com o TBC (Turismo de Base Comunitário), o afroturismo e as ações de fomento à arte e preservação do patrimônio.

Segundo dados da FCP (Fundação Cultural Palmares), a a área total do território quilombola é de 43 hectares, tendo sido certificação pela instituição em agosto de 2005. Em setembro foi fundada a AQBuriti (Associação da Comunidade Negra Rural Quilombola Chácara do Buriti).

No ano anterior, em 2004, já havia sido aberto o processo de regularização de território no Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), ainda pendente de finalização, a exemplo de todas as outras comunidades quilombolas em MS. As terras constam como parcialmente tituladas, aguardando finalização da indenização dos quilombolas detentores de matrícula.

No caminho da comunidade, a tranquilidade citada por um do moradores. (Foto: Marcos Maluf)
No caminho da comunidade, a tranquilidade citada por um do moradores. (Foto: Marcos Maluf)

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