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Campo Grande, Terça-feira, 18 de Dezembro de 2018

22/11/2018 15:56

Só fungicida não basta, é preciso monitorar ferrugem, diz pesquisador

Primeiro caso da doença nesta safra foi registrado em Maracaju, numa lavoura na fase de enchimento das vagens

Helio de Freitas, de Dourados
Se não controlada de forma adequada, ferrugem asiática pode comprometer toda a lavoura (Foto: Divulgação)Se não controlada de forma adequada, ferrugem asiática pode comprometer toda a lavoura (Foto: Divulgação)

A ferrugem asiática, uma doença que afeta lavouras de soja e teve o primeiro caso desta safra confirmado segunda-feira (19) em Mato Grosso do Sul, precisa de cuidado redobrado, segundo o pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste, Alexandre Dinnys Roese.

Engenheiro agrônomo formado pela Unioeste, mestre em fitopatologia pela Universidade Federal de Viçosa e doutor em agronomia pela Universidade Federal do Paraná, Alexandre Roese é analista de apoio à pesquisa na Embrapa desde 2002. Lotado na Embrapa em Dourados desde 2007, tem experiência de campo com doenças de soja e milho.

Sobre caso confirmado nesta semana em Maracaju, o pesquisador diz que o cuidado do produtor rural funcionou, já que a doença só surgiu agora, com a lavoura em fase de enchimento de vagens.

“Essa é uma informação extremamente importante porque mostra o resultado de duas medidas de controle muito valiosas adotadas pelo produtor rural: 1) realizar o vazio sanitário (para diminuir a sobrevivência da ferrugem na entressafra) e 2) semear a lavoura no início da época recomendada, para que as plantas escapem da ferrugem”, afirmou ao Campo Grande News.

Segundo ele, se não fossem essas duas medidas de controle, a ferrugem provavelmente surgiria muito mais cedo, até mesmo antes do início do florescimento. Na avaliação dele, o fato de a ferrugem ter sido detectada agora não significa que já não estava presente no estado.

“Devemos lembrar que o cadastro dos focos de ferrugem no Consórcio Antiferrugem é voluntário. Ao mesmo tempo em que é muito importante notificar sobre a doença, pois serve de alerta aos produtores, não podemos confiar cegamente na ausência de ferrugem em locais sem relatos. Isso reforça a necessidade do monitoramento constante de cada produtor”, observou.

O pesquisador reforça a importância de monitorar as lavouras. “A ferrugem requer molhamento foliar para seu estabelecimento nas folhas. E o molhamento foliar é muito mais dependente da frequência de chuvas, do que do volume de chuvas. A formação de orvalho também é muito importante para o molhamento foliar. Por isso, dias quentes e noites amenas, com alta umidade do ar, favorecem a formação de orvalho e assim favorecem a ferrugem”.

Fungicidas – Alexandre Roese orienta como evitar ou pelo menos diminuir os prejuízos: “devemos insistir no monitoramento das lavouras. Mesmo com aplicações de fungicida preventivamente, precisamos avaliar as lavouras para ver se a aplicação foi realmente preventiva ou se a ferrugem já estava na lavoura antes da aplicação”.

Segundo ele, uma vez instalada a ferrugem na lavoura, recomenda-se diminuir o intervalo entre aplicações de fungicidas e acrescentar fungicidas multissítios no programa de controle.

Outra recomendação é optar pelos fungicidas com melhor desempenho nos ensaios anuais de eficiência, publicados anualmente pela Embrapa, e alternar aplicações de fungicidas com princípios ativos diferentes, evitando mais do que duas aplicações do mesmo fungicida na mesma safra.

Prejuízo – Conforme o pesquisador, quanto mais cedo no ciclo da soja surge a ferrugem, maior a dificuldade de controle e maiores os prejuízos. “Lavouras com ferrugem no início do florescimento, ou antes, em anos com clima favorável à ferrugem e que não sejam eficientemente controladas, podem ter redução drástica da produtividade, chegando à inviabilizar a colheita”.

“Felizmente casos assim não têm ocorrido, e isso é muito devido aos controles legislativo (vazio sanitário e datas limites para semeadura) e cultural (cultivares precoces e semeaduras no início da época recomendada), aliado ao controle químico preventivo ou sempre que necessário”, afirma.

Variedades – Alexandre Roese explica que a busca por cultivares de soja resistentes à ferrugem representa grande esforço da pesquisa agropecuária. “Existem algumas cultivares resistentes no mercado, porém todas elas baseadas em resistência monogênica, ou seja, que é muito eficiente, mas pode ser facilmente ‘quebrada’ pelo fungo que causa a doença”.

Por isso, segundo ele, mesmo nessas cultivares é preciso se aplicar fungicida preventivamente. “Mas por que então semear cultivares resistentes se teremos de aplicar fungicida assim mesmo? Porque a cultivar resistente evita danos pelas falhas no controle (e essas falhas são muito mais frequentes do que imaginamos). A cultivar resistente é uma garantia, um seguro, talvez o seguro mais barato que exista”.

A mais recente cultivar de soja resistente à ferrugem asiática é a BRS 511. “O gene de resistência dessa variedade é diferente do que está presente em todas as outras variedades lançadas antes. E além de ser resistente à ferrugem também é resistente à podridão-de-fitóftora, uma doença comum no sul do Brasil e que tem aumentado de importância das últimas safras no Centro- Oeste”.

Lavoura de soja em Dourados (Foto: Helio de Freitas)Lavoura de soja em Dourados (Foto: Helio de Freitas)


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