Perseguição à família durante a ditadura militar levou Henrique a “radicalizar”
Filho de Renê Neder, ele viveu a perseguição traumática e acabou preso e torturado pelo DOI-CODI em 1977
Engenheiro mecânico, economista e professor aposentado, Henrique Neder tinha 11 anos quando o golpe de 1964 atingiu sua família, em Campo Grande. Filho do empresário Renê Neder e sobrinho de Alberto e Humberto, ele assistiu à prisão do pai e acompanhou, ainda criança, os efeitos da perseguição sobre os três irmãos. Décadas depois, ao falar sobre aquele período, resumiu a marca deixada pela repressão na família com uma imagem forte: “Eu sentia como criança e adolescente, essa atmosfera de exclusão. Foi um impacto muito grande na vida da família”, disse, em entrevista ao Campo Grande News, com a sensação de que o período de trevas o acompanhou pela vida. “Acho que eu tenho um problema a ser resolvido com o meu passado.”
RESUMO
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Henrique Neder, engenheiro, economista e professor aposentado, teve a infância marcada pela ditadura militar após o golpe de 1964, quando seu pai e dois tios foram presos e perseguidos em Campo Grande. Em 1977, ele próprio foi preso, torturado e mantido por dias no DOI-CODI. Décadas depois, afirma ter encontrado mais de 40 dossiês com seu nome no Arquivo Nacional, evidenciando uma perseguição sistemática que moldou sua vida e a de toda a família.
Segundo Henrique, os pais e os tios pertenciam a uma família de posição social em Campo Grande, mas passaram a conviver com a exclusão e o estigma de serem identificados com a esquerda em um estrato de cultura política conservadora. Ele lembra do ambiente de suspeita e das pessoas que, segundo sua memória, “dedavam” umas às outras. Entre elas, cita o médico Cláudio Fragelli, irmão do ex-governador e ex-senador José Fragelli e principal dirigente da Ademat (Associação Democrática Matogrossense), entidade de viés paramilitar que atuava como braço político-empresarial da ditadura. Também recorda a humilhação pública de Alberto, médico respeitado, levado algemado em um jipe pelas ruas de Campo Grande. “Foi uma tentativa de humilhá-lo publicamente”, afirmou.
Dos três irmãos perseguidos, Alberto era o mais convicto e instruído na política. Henrique lembra que o tio era visitado em Campo Grande por intelectuais de esquerda também de outros países, especialmente da França. Um de seus filhos, o médico Carlos Alberto Pletz Neder, não por acaso, foi secretário de Saúde da ex-prefeita Luiza Erundina, na capital paulista, ajudou a construir o SUS (Sistema Único de Saúde) e foi eleito três vezes seguidas deputado estadual em São Paulo, assumindo duas vezes como primeiro suplente e a última diretamente como titular. Um dos fundadores do PT, faleceu em 2021, aos 67 anos, por complicações da Covid-19.
A perseguição, na lembrança de Henrique, não ficou restrita aos homens presos. Ele conta que a condição de integrante da família Neder produzia constrangimentos também sobre os filhos. Na escola, diz ter sido exposto por uma professora que o chamava em público para falar sobre a família. Falar mal e constranger, é claro. Mais tarde, já adulto, a marca política reapareceria em sua trajetória profissional: em 1981, aprovado em concurso da Petrobras, não passou pela investigação social. O patrulhamento e veto ideológico é a única explicação que consegue dar para o episódio.

Herança e radicalização
A trajetória de Henrique acabou reproduzindo, em outra geração, o confronto com a repressão. Depois de estudar engenharia em São Paulo e seguir para a pós-graduação na Coppe, no Rio de Janeiro, ele se aproximou do movimento estudantil e da militância política. Em 1977, foi preso em casa por agentes de segurança e levado encapuzado para as dependências do DOI-CODI. Segundo seu relato, permaneceu três dias sob custódia dos órgãos de repressão, sendo submetido a agressões e a sessões de tortura. Depois, ficou cerca de 20 dias no DOPS.
Henrique conta que, naquele momento, estava próximo do MEP (Movimento pela Emancipação do Proletariado), mas afirma que ainda não era formalmente um quadro da organização. Mesmo assim, documentos de segurança passaram a registrá-lo como membro do movimento. Ele diz ter sido tratado como se pertencesse a uma organização armada, embora o MEP, segundo sua descrição, defendesse a luta política, e não a luta armada.
A prisão desorganizou sua vida. De volta a São Paulo, passou anos desempregado e acabou vivendo na periferia da Zona Leste da cidade, onde militou em comunidades eclesiais de base. Foi nesse período, segundo ele, que decidiu “radicalizar”. A mudança aparece em sua própria narrativa como uma reação ao ambiente político e às experiências acumuladas desde a infância: a prisão do pai, a perseguição aos tios, o estigma social imposto à família e, finalmente, a própria prisão e tortura. Acompanhou ao vivo e a cores as greves do ABC paulista no final dos anos de 1970 e o surgimento de Lula como líder sindical.
“Eu passei algum tempo (...) tão desorientado assim na época, por causa da prisão, que eu resolvi radicalizar”, relatou.
O episódio de 1977 acrescentou uma forte experiência pessoal à história que Henrique carregava desde os 11 anos. Ele relata que ficou horas no pau de arara, apanhou e depois foi levado a uma sala onde havia uma cadeira de tortura, uma tática psicológica para ameaçar os presos.
Perseguição contínua
Para Henrique, a história da família Neder não pode ser compreendida apenas pelas prisões dos três irmãos. Ele afirma, sem dúvidas, que houve uma perseguição planejada à família, acompanhada de segregação e estigmatização social.
A própria trajetória posterior reforçaria, para ele, essa percepção. Henrique afirma ter encontrado mais de 40 dossiês com seu nome no Arquivo Nacional e diz que seu monitoramento continuou mesmo depois da redemocratização.
A imagem de uma atmosfera pesada reforça a perseguição como um trauma que ultrapassa a geração dos irmãos Neder. A repressão moldou a infância, as escolhas políticas, a vida profissional e a relação dele com a própria cidade onde cresceu. Anos depois, já aposentado como professor em Uberlândia, ele diz ainda carregar a necessidade de compreender aquele passado. “Meus pais sofreram”, afirmou. E completou: “isso daí jogou uma nuvem escura na nossa vida”.


