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18/06/2016 10:53

(Foto)Jornalismo renova conceitos e práticas

Por Atílio Avancini (*)

A partir do final do século XX, a popularização da televisão em cores cria impacto no jornalismo. Com isso, o fotojornalismo começa a migrar para museus, galerias de arte e fotolivros. É nesse outro lugar de contemplação multimídia que a dimensão autoral encontra expressão e ressignificação.
Com a eclosão da mídia digital demarca-se a era da visualização na web em que as redes sociais servem como fator multiplicador de imagens.

Fotografias podem ser redirecionadas como representações duplicáveis ao infinito. A diversidade de visibilidades aumenta – a rede segmentada de imagens Instagram sugere o abandono de câmeras sofisticadas substituindo-as por smartphones.

Embora a credibilidade seja o bem maior do jornalismo ou do veículo de comunicação, a crise da mudança de paradigma na mediação determina a queda na circulação dos grandes jornais, o término de publicações, o corte de cadernos, as demissões em massa, a baixa formação de profissionais e a pouca qualidade de textos e imagens publicadas.

“A pressão do tempo é a principal causa dos textos superficiais nos jornais. Se você considerar que um perfil para a revista The New Yorker podia exigir até três meses de um repórter para ser escrito, fica fácil entender a razão de se irritar com os jovens jornalistas. Hoje você tem meia hora para dar uma passada de olhos num livro, preparar as perguntas e entrevistar o autor. A pressão do deadline está acabando com os jornais” (MCAFEE in GONÇALVES FILHO, 2012, p. D5).

O caráter estratégico de captação, processamento, circulação e difusão de conteúdos digitais renova conceitos e práticas. Este movimento dinâmico suscita debate pela ausência de credibilidade das fontes, mas possibilita o fluxo de ideias sob novas estruturas e estéticas.

Desse modo, com as ferramentas oferecidas pelo processo tecnológico, qualquer grupo pode produzir conteúdo jornalístico.

E como a modelização numérica é fruto de convergência cultural, num campo de comunicação relacional sem precedentes, surgem os coletivos fotográficos, cuja cobertura descentralizada é conhecida pelo ativismo sociopolítico e pelo movimento alternativo à imprensa tradicional.

Os jornais digitais se beneficiam de estruturas mais leves, que permitem maior fluidez e rapidez. Convergência cultural que redistribui conceitos, categorias e objetos em outra natureza e perspectiva.

Se há menores discussões editoriais e hierarquias, há também o acúmulo de funções para o jornalista: apurar, escrever, revisar, fotografar, diagramar.

A possibilidade de comunicação está ancorada no compartilhamento de ideias em que o jornalismo é configurado como arena discursiva que reflete marcas de enunciação político-ideológica.

“A tecnologia eletrônica faz um jogo duplo. Primeiramente, parece se apropriar de certos objetos culturais, fazendo-os circular num novo contexto e sobretudo modificando suas propriedades, depois introduz objetos inéditos ou, ao menos, diferentes. Essa dupla relação explica em parte a familiaridade do mundo virtual, mas também sua dimensão, às vezes, alienante. O digital representa o triunfo da hibridização generalizada aos objetos e às práticas. Mas a hibridização vela o fato de que o objeto virtual é outra coisa: um novo paradigma no qual a aparência é só uma ficção, às vezes mesmo uma armadilha, e onde tudo, ou quase tudo, é convertível” (DOUEIHI, 2011, p. 12).

Mais do que os avanços tecnológicos do eletrônico, é a crise da sociedade capitalista que busca reencontrar o equilíbrio no sentido da tecnologia sustentável e do humanismo: o amor às pessoas, o pensamento social, o respeito pela gente simples, a amizade real, a conversa sincera, a fruição das imagens, a realidade menos distorcida, o entendimento do mundo.

Neste sentido, o primeiro passo é compreender que a modernidade produz violência demasiada. E que “a democracia como forma de vida política e social é o reino do excesso” (RANCIÈRE, 2014, p. 17).

A modelização numérica traz o impacto do imediatismo, porosidade, intensidade, autorreferência, desmaterialização. Verifica-se a expansão do dispositivo fotografia para lugares híbridos, polifônicos e convergentes. Mas há vantagens para aproximar pessoas cada vez mais distantes, facilitar o acesso, retirar os filtros de controle, dar voz aos grupos minoritários e/ou excluídos.

Como atualizar a linguagem visual midiática respeitando o esforço das gerações passadas? O (foto)jornalismo continua sendo agenciador da vida cotidiana?

Há uma distorção do ideário público com as demandas do mercado capitalista. O mundo representado por informações estilhaçadas acentua as inúmeras crises, seja na comunicação, política, economia, universidade, ecologia ou arte.

Nesse contexto, é chave discutir o (foto)jornalismo no diapasão entre o espetáculo e a crítica social. Ou entre a manipulação e a ética.

(*) Atílio Avancini é professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP) e fotógrafo

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