A notícia da terra a um clique de você.
Campo Grande, Terça-feira, 15 de Outubro de 2019

28/10/2017 14:00

A prosa fluente de José Maschio em “Tempos de Cigarro Sem Filtro”

Por Luiz Taques (*)

Já fazia uma eternidade que a gente não via, na literatura brasileira, proseador desenvolver o seu enredo em linguagem oral, parecida com a que se fala nas ruas, num cenário no qual narrador e protagonistas se fundem, elegantemente.

Com destreza, José Maschio rompe esse vazio ao nos contemplar com o romance Tempos de Cigarro Sem Filtro. O livro tem 152 páginas e foi lançado pela editora Kan.

Professor universitário conceituado, radicado em Cambé, no Norte do Paraná, Maschio trabalhou em diversos jornais sindicais e em grandes veículos de comunicação, como a Folha de S. Paulo.

E no romance Tempos de Cigarro Sem Filtro, para explanar a história pulsante do bem-querer de Jaso Louco e Maria (“... o que foi, foi. O que vai ser, será. Simples isso de viver...”), José Maschio vale-se então da sua competência de repórter calejado e, sobretudo, do emprego talentoso das palavras.

Desse modo, desde as primeiras páginas dessa sua boa obra, ele escancara vinganças, maracutaias, traições e o poder do dinheiro escasso a interferir nas relações miúdas da trama.

Com o avanço dos capítulos, as sutis caçoadas dos personagens de Maschio podem: desagradar aos comunistas (“... essa raça ruim, comedora de criancinhas...”); desapontar alguns membros do clero (“... mas eu também não gosto do padre, outro branquelo, a se esfregar nas comadres brancas...”); aborrecer figuras de mentes azedas (“... viagem pior, dentro de si...”); magoar ainda moralistas dissimulados (“... mamãe nem deixava o meu irmão jogar bola com o filho da desquitada...”).

Há hipocrisia e mazelas ao nosso redor e, de maneira crua, elas são mostradas com maestria pelo romancista. O que faz de Tempos de Cigarro sem Filtro um daqueles livros que vale a pena a gente ler.

Porém, é a respeito da militância política na época do regime militar o eixo central deste livro: são episódios desse período sombrio que o autor quer nos falar. O romancista aborda essa triste época brasileira com linguagem refinada. Um exemplo disso é esse parágrafo: “E Ruço descobriu-se homem. Não mais o molambo magrelo. Não mais brincadeiras com o amigo Lozinho. Hora de crescer, que na vida tem hora para tudo. Até para o embrutecimento.”

É narrativa instigante essa a de José Maschio sobre os anos de chumbo: coisa de artista de singular grandeza. Porque, com frases curtas e certeiras, ele consegue, brilhantemente, transmitir a sua mensagem: a ditadura faz do homem um exilado em seu próprio país.

• Em Campo Grande o livro “Tempos de Cigarro sem Filtro” pode ser adquirido na livraria Café Cult (rua Da Paz, 1.236 – Jardim dos Estados).

(*) Luiz Taques é jornalista e escritor.

O impeachment nos EUA e no Brasil
O impeachment é um instituto elaborado pelo sistema jurídico-político britânico e que se faz presente tanto nos EUA quanto no Brasil. Ainda que a ori...
A beleza de ser professor
Transformar sonhos em realidades, ser "ponte" onde esses sonhos caminham no cotidiano de grandes desafios e conquistas. Quando buscamos o significado...
As lições a serem aprendidas com o lago do Parque das Nações Indígenas
“Nesta terra molhada”, após 5 meses com inúmeras iniciativas, do governo e sociedade, o lago artificial do Parque das Nações está voltando a produzir...
Gestão pública é o caminho contra a corrupção
A corrupção é pré-requisito do desenvolvimento, já dizia Gunnar Myrdall, Prêmio Nobel de Economia, em 1974. Ou seja, esse mal é algo comum e enraizad...
imagem transparente

Classificados


Desenvolvido por Idalus Internet Solutions