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As redes sociais e sua perigosa influência na alimentação e nutrição

Por Nina da Costa Corrêa (*) | 10/06/2021 09:41

Infelizmente, vivemos numa época em que a ditadura da estética, muitas vezes, se sobrepõe à saúde, principalmente no que diz respeito à alimentação e nutrição. Contribui, para isso, o potencial alcance das redes sociais, que levam informações nem sempre corretas, a uma imensidão de pessoas que, sem qualquer tipo de acompanhamento profissional, se deixam levar por tantas iniciativas. Essas informações, ao prometer bons resultados, ou levarem à crença bons resultados, podem acarretar inúmeros prejuízos à saúde. Uma dessas modas envolve o chamado jejum intermitente.

Antes de aventurar-se em dietas da moda, é preciso aprofundar o entendimento sobre o porquê da busca pelo jejum intermitente, sendo a perda de peso, uma delas. Entende-se por jejum intermitente a privação voluntária e temporária de alimentação, com pouca ou nenhuma ingestão calórica, intercalada por períodos onde a ingestão de bebidas e de alimentos acontece normalmente. Os períodos de privação são os mais variados possíveis, como 7 horas, 12 horas, 16 horas ou períodos ainda maiores, tornando esse tipo de jejum mais radical.

A ciência tem estudado esse modelo de dieta, e basta percorrer algumas dessas pesquisas para que caia por terra a ideia simplista embutida no conceito de que basta não ingerir calorias em um determinado período (na maioria das vezes longo) para obter redução de peso, cintura afinada e boa saúde. Enquanto ciência, a Nutrição revela que o caminho pode não ser assim tão simples, inócuo ou aplicável a todos.

Entre os pontos que desconstroem a efetividade dessa estratégia de dieta está o fato de que a restrição energética provocada pela privação de uma ou de várias refeições, dependendo do período escolhido para o jejum, tende a provocar no indivíduo uma posterior necessidade e desejo de compensação. Assim, após a restrição prolongada de alimentação, a pessoa pode buscar alimentos com alta densidade energética e pouca quantidade de fibras, minerais e vitaminas fundamentais para o organismo.

Equilíbrio e variedade na escolha dos alimentos, itens que representam a essência da nutrição, são outros dois pontos negativamente impactados no jejum intermitente. Afinal, menos refeições diárias representam, inevitavelmente, a ingestão de menos diversidade nos nutrientes, e essa falta pode interferir na saúde. Sintomas como dor de cabeça, constipação, sensação de frio, além de falta de concentração, de bom humor e de energia são frequentes em pessoas que passam um período prolongado de restrição alimentar.

A desregulação hormonal da sensação de fome e também o desajuste na sensação de saciedade são mais dois fatores contra a prática livre do jejum intermitente, sem indicação e acompanhamento profissional. Essa alteração foi observada em estudo onde indivíduos saudáveis foram submetidos a uma privação energética por até 48 horas e, ao encerrar o jejum e comparar o consumo de calorias a indivíduos que mantiveram uma dieta balanceada, os primeiros tiveram uma ingestão maior para chegar à saciedade. Ou seja, depois do longo período sem comer, tiveram que se alimentar mais para se sentirem satisfeitos, o que não representou uma estratégia mais eficaz para a perda do peso.

Dentro desse conceito de perda de peso, há quem seja ainda mais radical e em conjunto com o jejum intermitente, emende a prática de exercícios físicos. Nesse sentido, pesquisas científicas têm revelado que esse tipo de ação reduz a ativação de genes envolvidos com a termogênese, o que, entre tantos riscos, amplia a possibilidade de hipoglicemia, que é a baixa concentração de glicose no sangue, além de reduzir a performance cognitiva e a função psicomotora, prejudicando a prática da atividade física. Além disso, faltam estudos de longo prazo na literatura para avaliação dos efeitos do jejum, lembrando que, mais do que emagrecer, o mais difícil é manter o peso perdido.

Para além das complicações à saúde física em razão das carências nutricionais promovidas pelo jejum intermitente, é preciso alertar para os riscos e prejuízos ligados à saúde mental. Quem busca esse modelo radical de dieta pode não apenas não alcançar o resultado desejado como, ainda mais grave, despertar o gatilho para o desenvolvimento de transtornos alimentares, como a bulimia e a anorexia, sem deixar de ressaltar o perigo para o desenvolvimento ou agravamento de quadros de depressão e de ansiedade, gerado pela frustração de ter investido em algo que não trouxe o resultado esperado.

Amparado pela ciência da Nutrição, é necessário avaliar as características individuais, o histórico com dietas e os objetivos pessoais para que a estratégia nutricional, ao ser aplicada, seja feita com segurança e não traga prejuízos ao indivíduo. O jejum intermitente, bem como outras ações radicais que surjam como promissoras dietas da moda, não deveriam ecoar como a fórmula mágica do emagrecimento. Os dados da literatura são controversos em relação aos benefícios obtidos a partir do jejum intermitente, incluindo a perda de peso. Trata-se de um erro perigoso e que leva milhares de pessoas ao caminho oposto da saúde e da qualidade de vida.

Há que se entender que, no universo da nutrição, o alimento não é e jamais pode ser colocado como vilão. Aqui, não se critica a realização de dieta, mas a escolha por uma que seja de qualidade, que seja balanceada e que garanta os nutrientes necessários para a manutenção plena do organismo e da saúde, sempre, claro, com recomendações e acompanhamento do nutricionista e de uma equipe multidisciplinar, composta por médicos, psicólogos, educadores físicos, dentre outros. Esses são os profissionais capacitados para esse tipo de conduta e a quem as pessoas de fato deveriam buscar para obter informações confiáveis e seguras para sua saúde.

(*) Nina da Costa Corrêa é Presidente do Conselho Regional de Nutricionistas - 3ª Região (CRN-3).


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