A notícia da terra a um clique de você.
Campo Grande, Segunda-feira, 25 de Junho de 2018

27/12/2016 09:51

Clima e biodiversidade na equação do futuro

Por Maurício Antônio Lopes (*)

A Ciência nos diz que 13.5 bilhões de anos atrás o fenômeno do Big Bang trouxe à existência o que hoje chamamos de matéria, energia, tempo e espaço. Do hidrogênio surgiram os átomos e, deles, as moléculas, as quais se combinaram em estruturas de crescente complexidade, que chamamos de organismos, dentre eles a nossa espécie – Homo sapiens. Na trajetória fascinante do nosso planeta, a física estruturou a química, que organizou a biologia – e, juntas, sintetizaram intrincadas estruturas e arranjos que, há 70 mil anos atrás, deram origem à civilização humana. O surgimento da linguagem permitiu que pequenos grupos de caçadores e coletores, nômades, se integrassem em grandes grupos e mudassem para um estilo de vida sedentário, baseado em aldeias, vilas e cidades.

O desenvolvimento da linguagem e a invenção da agricultura estão entre os acontecimentos mais significativos na evolução da civilização. A domesticação de plantas e animais, ocorrida de forma intensa entre 7 mil e 13 mil anos atrás, permitiu ao ser humano passar de caçador-coletor à condição de agricultor e sócio da natureza. Assim cresceu a capacidade humana de usar a biodiversidade para suprir as necessidades por alimentos, fibras, energia e abrigo e superar os rigores do clima. Biodiversidade e clima são, portanto, elementos centrais na complexa equação civilizatória que nos trouxe até o presente.

O registro das catástrofes ao longo da história mostra que, quando ecossistemas são drasticamente alterados e o clima se torna instável, o bem-estar e o desenvolvimento humano ficam comprometidos e civilizações desaparecem. Jared Diamond, da Universidade da Califórnia - EUA, investigou os motivos pelos quais muitas sociedades desapareceram. Ele concluiu que foram escolhas: fatores como a destruição do meio ambiente, as alterações climáticas, as crises nas relações comerciais e as guerras levaram ao colapso de muitos povos, como o da Ilha de Pascoa, no Oceano Pacífico, que prosperou e pereceu entre os séculos XI e XIV.

Mas, poderá a civilização em que vivemos hoje, com todo o seu avanço tecnológico, entrar em colapso e desaparecer, como aconteceu na Ilha de Pascoa, ou com os Maias, Incas, Astecas e Vikings? Hoje somos 7.4 bilhões de pessoas no planeta, com equipamentos sofisticados, megacidades e intrincada rede de relações entre as nações. Os nativos da ilha de Páscoa não passavam dos 20 mil habitantes, com toscas ferramentas de pedra e apenas a força dos seus músculos. Ainda assim, foram capazes de devastar o ambiente e levar sua sociedade ao colapso. Pode parecer absurda a comparação do mundo moderno com civilizações antigas. Mas, a globalização, o comércio, a Internet, as rotas aéreas e marítimas - que cortam o globo em todas as direções, permitem que o mundo utilize com crescente avidez os recursos finitos do planeta, multiplicando o impacto humano sobre a natureza.

O mais preocupante é que o mundo moderno seguirá demandando mudanças mais complexas nos sistemas naturais, de forma a garantir suporte a uma população crescente, que incorpora estilos de vida cada vez mais sofisticados e impactantes para o meio ambiente. Exemplo atual são as mudanças climáticas, decorrentes de nossa grande dependência de energia fóssil, geradora de gases de efeito estufa, que são associados a eventos climáticos cada vez mais extremos. Perda de biodiversidade também preocupa muito, por ser a diversidade biológica vital para a segurança alimentar, a manutenção dos padrões de clima estável, o armazenamento de carbono e a regulação das chuvas. Juntas, as alterações climáticas e a perda de biodiversidade poderão reduzir a resiliência dos ecossistemas e limitar nossa capacidade de adaptação a mudanças abruptas nos sistemas naturais, com ameaças à agricultura e à alimentação, à saúde das populações, ao comércio e à paz entre as nações.

O bem estar e o desenvolvimento no futuro irão depender, em grande medida, das decisões que tomarmos, no presente, para proteção do nosso capital natural e para estruturação das nossas economias. Grandes acordos e coalizões globais estão buscando viabilizar esta complexa agenda. O Acordo de Paris, aprovado por 197 países, entrou em vigor há pouco mais de um mês. Busca fortalecer a resposta global à ameaça da mudança do clima e reforçar a capacidade dos países para lidar com os impactos decorrentes dessas mudanças. A Convenção Sobre a Diversidade Biológica (CDB), que entrou em vigor em 1993 e já foi ratificada por 168 países, pede estratégias nacionais para a conservação e o uso sustentável da biodiversidade.

O fato de que centenas de países se unam, voluntariamente, em ações globais de proteção do nosso precioso capital natural é extremamente alvissareiro. Isso nos diferencia das sociedades que tiveram por alternativa apenas o colapso. Nós, ao contrário, estamos aprendendo, com o passado, como o clima e a biodiversidade são essenciais na equação do futuro.

(*) Maurício Antônio Lopes é presidente da Embrapa

A corda arrebenta para todos
Ao pensar na África, geralmente formamos imagens com exuberância de recursos naturais. Falta de água nos remeteria aos desertos daquele continente, e...
Os três pilares do aprendizado
A educação brasileira passa por um profundo processo de transformação com a implantação da nova Base Nacional Comum Curricular. Precisamos estar pron...
O país onde tudo é obrigatório
Nos Estados Unidos, na França e na Inglaterra, as regras ou são obedecidas ou não existem, por que nessas sociedades a lei não é feita para explorar ...
Universidade pública e fundos de investimento
  A universidade pública não é gratuita, mas mantida pelos recursos dos cidadãos. E por que a Constituição brasileira escolheu determinar esse tipo d...


imagem transparente

Classificados


Desenvolvido por Idalus Internet Solutions