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Campo Grande, Segunda-feira, 19 de Agosto de 2019

19/05/2019 07:55

Em dias de solidão quando tudo é passageiro, vale a pena viralizar nas redes?

A imagem viralizada tem um tempo de fruição e, quando ele se esvai, resta a dura tarefa de lidar com a nossa mais íntima solidão.

Por Tiago Ravanello*
Em dias de solidão quando tudo é passageiro, vale a pena viralizar nas redes?

De tempos em tempos surgem novas formas de enlace social que precisam ser escutadas com atenção: o interesse em viralizar nas redes sociais é uma delas. E não se trata de uma questão relativa apenas aos modismos entre jovens, como o brinquedo da vez ou a roupa da ocasião, a ânsia de viralizar tem se tornado um modo de apelo ao reconhecimento e ao contato com os outros.

Se antes a preocupação era a de preservar a intimidade, manter sob controle os olhares alheios sobre tudo aquilo que poderia nos expor enquanto diferentes, únicos, mas também, limitados, a questão que agora se coloca através das redes sociais gira mais em torno de como expor e sentir nossa singularidade através de atos de compartilhamento. “Ser eu” é, por excelência, também “ser outro”, o que deixa em aberto a questão do que devemos fazer com nossos afetos quando somos reconhecidos em nosso próprio estranhamento.

Pensemos no exemplo das escolas. Nelas, a experiência de visibilidade das nossas estranhezas surgia como uma espécie de fantasma que trazia consigo o medo de ser tomado como objeto de uma escalada de agressões (que ia desde a chacota até as práticas de bullying e agressões físicas). Porém, algo se transforma no regime de circulação dos afetos e dos olhares tão significativamente que, na atualidade, a escola tem servido de palco propício ao espetáculo ou cena dedicada à livre circulação – por vezes capturada aleatoriamente, mas em outras, ensaiada e roteirizada.

E não são poucos os exemplos daqueles que assumiram como identidade de trabalho, como descrição de seus canais ou perfis, justamente o modo como descrevemos os seus vacilos ou excessos. A tag é um novo modelo de identidade que nos possibilita ser acessados, mas não necessariamente reconhecidos.

Esse tipo de discurso infiltrou-se de forma tão intensa em nossa cultura a ponto de ser visto como meta empresarial, objetivo profissional, meio para a conquista amorosa, projeto de vida pessoal e, por que não, anteparo frente ao espelho. Isso porque o maior risco inerente a este caminho é, sem dúvidas, o de convencermo-nos de que não somos nada além daquilo que dizem sobre nós. A imagem viralizada tem um tempo de fruição e, quando ele se esvai, resta a dura tarefa de lidar com a nossa mais íntima solidão.

* Tiago Ravanello é psicólogo graduado pela Universidade Federal de Santa Maria (2004), com mestrado em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2005) e doutorado em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2009).

 

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