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25/06/2014 14:30

Em vez de culpados, é preciso buscar soluções

Por Rafael Cervone Netto (*)

O goleiro Barbosa, que tomou o fatídico gol do atacante Ghiggia, não foi o único culpado pela opinião pública e a imprensa pela derrota do Brasil para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950. O uniforme de nossa seleção também foi sumariamente julgado e condenado como um dos grandes responsáveis pela chamada “tragédia do Maracanã”. A sentença têxtil baseou-se no fato de a camisa branca, com golas azuis, “ser insuficientemente nacionalista”. À época, o jornal carioca Correio da Manhã decretou, em editorial, que o traje sofria de “falta de simbolismo moral e psicológico”.

O bom senso e a razão reparam a injustiça histórica, pois Barbosa não perdeu aquela copa sozinho e o uniforme branco, embora jamais utilizado novamente pela Seleção, não teve qualquer influência no resultado. Nos 64 anos desde aquele triste episódio do esporte nacional, quando novamente o Brasil tenta vencer uma Copa do Mundo jogando em casa, o futebol evoluiu muito em termos de preparação física, conceitos táticos e materiais. Atletas, como qualquer ser humano, continuam suscetíveis a eventuais falhas, mas os uniformes nunca mais poderão ser culpados. Mais do que isso, deixam de ser um item passivo do jogo como em 1950, tornando-se um dos fatores ativos para a performance física.

Sem dúvida, uma seleção que disputasse esta Copa do Mundo de 2014 utilizando camisas e calções antigos levaria sensível desvantagem em relação aos times vestidos com peças dotadas das últimas tecnologias desenvolvidas pela indústria têxtil. Seus jogadores cansariam mais, ficariam mais desidratados e carregariam um peso extra em comparação aos oponentes. Os grandes avanços ocorridos nos tecidos possibilitam, por exemplo, que os uniformes atuais sejam muito mais leves, não concentrem suor e favoreçam a oxigenação da pele dos atletas.

Tecnologia, aliás, não é uma resposta apenas para os fabricantes de tecidos e confeccionados destinados à área esportiva, mas a toda a indústria têxtil e de vestuário do Brasil, em uma competição ainda mais importante do que a Copa do Mundo da FIFA: o duro jogo da concorrência internacional, não só na preservação de nosso mercado interno, como nas exportações.

Nesse complexo campeonato, ao contrário do que ocorreu na derrota da Seleção Brasileira em 1950, não é produtivo ficar simplesmente buscando culpados. Precisamos, sim, ter consciência dos obstáculos dos impostos elevados, dos juros altos, das vantagens competitivas nem sempre leais de algumas nações e de todos os problemas relativos ao “custos” e “sustos” do Brasil. É nosso dever conhecê-los e nos mobilizarmos civicamente para tentar melhorar o ambiente de negócios.

Porém, em vez de ficar na retranca e na eleição de culpados, precisamos adotar atitude proativa, a começar pelo item crucial da tecnologia, um grande diferencial de competitividade. Temos, ainda, de capitalizar nosso reconhecimento internacional como nação que desenvolve moda sustentável e politicamente correta, inclusive no que se refere à legislação trabalhista. Estamos dialogando com avançados centros de produção japoneses, portugueses, espanhóis e norte-americanos, para trocar experiências e know how. Devemos aproveitar nosso grande parque industrial e produzir aqui para marcas que hoje utilizam a manufatura chinesa e de outros países. Excelência local para globalizar nossa indústria. Esta é a ideia!

Com táticas mais contemporâneas, não só capacitaremos melhor nossas empresas para o mercado externo, como para o doméstico. São estratégias que nos tirarão da defesa e nos colocarão dentre os favoritos para vencer no campeonato mundial do comércio exterior, no qual cada conquista significa mais empregos, geração de renda e crescimento econômico.

(*) Rafael Cervone, 46, é o presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).

 

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