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Equilibrando estresse e ansiedade

Por Dirson Stein e Mailton Vasconcelos (*) | 18/10/2020 13:15

Tanto o estresse quanto a ansiedade fazem parte do nosso dia a dia. Ambos evoluíram conosco para nos proteger de situações de perigo e não são necessariamente prejudiciais. Há confusão no uso dos termos, dependendo do nível de especificidade em que se fala sobre os temas. O vocábulo estresse pode designar uma situação adversa, a resposta biológica dada a um evento estressor ou período de intempéries, além de descrever simples consequências negativas traduzidas como fator de risco. Do mesmo modo, o termo ansiedade pode designar os estados emocionais de apreensão – tanto por uma preocupação por um estresse iminente como pela expectativa de um desfecho positivo –, além de designar um quadro clínico em que a manifestação é extrema e/ou duradoura.

O momento atual de pandemia, por exemplo, propicia essas sensações, principalmente por causa das incertezas em relação ao futuro próximo. É natural que aprendamos a lidar com alguns dos desafios, e aos poucos uma situação anteriormente estressante passa a ser administrável.

A falta dessa adaptação ou o prolongamento do estresse por semanas ou meses abre espaço para problemas mais sérios. Nesses casos, quadros de ansiedade podem se desenvolver a ponto de afetar negativamente o funcionamento do indivíduo, ou seja, a vida social, o trabalho, o estudo e a saúde em geral.

Estresse e ansiedade de curta duração ajudam a lidar com desafios do dia a dia. Um exemplo clássico para jovens e estudantes é a proximidade de uma prova importante ou uma entrevista de emprego. A ansiedade nesses casos gera motivação para estudar ou se preparar melhor para a entrevista, o que normalmente é bom. Os aspectos positivos do estresse moderado em relação à ansiedade relacionam-se a mudanças cognitivas e fisiológicas. Exemplos de mudanças cognitivas incluem antecipação e organização para estudar ou se sair bem na entrevista. Já as mudanças fisiológicas incluem alterações em neurotransmissores e hormônios que podem deixar o indivíduo mais alerta, mais reativo, ajudando, por exemplo, a estar desperto nos horários certos.

O outro lado da moeda acontece justamente quando o indivíduo não consegue parar com pensamentos de antecipação, responde com prontidão excessiva aos demais desafios, atrapalhando o foco, o sono e as demais atividades cotidianas, indicando o momento de procurar por ajuda.

O nível de estresse que predispõe o surgimento de ansiedade em nível psiquiátrico varia de pessoa para pessoa. A ansiedade clínica é diagnosticada pelo relato de alterações nos domínios físicos e psicológicos, e cada indivíduo pode apresentar manifestações distintas. Dentre os sintomas físicos, os mais comuns são aumento de batimentos cardíacos e da frequência respiratória, sudorese, problemas com sono e diarreia, que podem levar a quadros de exaustão e fadiga. Quanto aos sintomas psicológicos mais frequentes, estes envolvem inquietação, sensação de perigo iminente, dificuldade de concentração, irracionalidade e, em casos mais graves, quadros de pânico generalizado.

Estratégias de mudança de comportamento para lidar com a ansiedade são mais efetivas do que os tratamentos farmacológicos desenvolvidos até o momento. O que sabemos sobre o funcionamento da psique humana, em termos de evidência científica, é bastante limitado. Avanços recentes se devem à capacidade tecnológica de medir o funcionamento do sistema nervoso humano em vida, bem como às comparações feitas entre os sistemas nervosos das demais espécies – modelos animais.

O desafio gira em torno de relacionar uma manifestação psicológica a uma alteração fisiológica precisa. Existe uma miríade de estressores capazes de perturbar nosso funcionamento, porém o estresse social é proeminente nos seres humanos. Para isso, pesquisadores desenvolveram maneiras de induzir estresse social de maneira controlada ou até mesmo medir eventos reais para relacionar alterações neurobiológicas associadas. Pense em como você se sentiria ao ter que falar para um público desconhecido, ou como participantes de competições esportivas se sentem antes e depois dos jogos. O medo de errar frente a outras pessoas, a antecipação do jogo, a vitória ou a derrota podem desencadear respostas de estresse bem marcantes. E esse exato tipo de situação pode ser reproduzida com modelos animais. É possível manipular interações entre dois roedores e certificar quem vai ganhar ou perder um combate e, a partir disso, fazer mensurações no sistema nervoso que não poderiam ser feitas eticamente em seres humanos.

O uso dessas situações em combinação com o método científico experimental propicia a compreensão inicial das alterações biológicas que regulam as manifestações psicológicas. Com isso, pesquisadores têm uma noção de quais ações podem contribuir para a melhora ou o agravamento de determinados estados emocionais.

Diversas intervenções podem ser empregadas: evitar ou minimizar, à medida do possível, a fonte de estresse; realizar atividade física regular (a prática esportiva ajuda o funcionamento corporal e pode propiciar o suprimento de necessidades sociais e de contato com ambiente externo); nutrir o corpo de forma adequada (nosso corpo precisa de cuidados, e a alimentação funcional é uma aliada); realizar atividades contemplativas (que nos permitam aprender a identificar os próprios gatilhos e formas de relaxamento); procurar ajuda profissional.

Nos casos clínicos, além da farmacoterapia convencional que pode ser receitada por profissionais habilitados, existem tratamentos equivalentes que incluem terapias comportamentais e técnicas de modulação do sistema nervoso central. Acupuntura, aplicação de estimulação elétrica e magnética não invasivas do encéfalo (ETCC e EMTr) e técnicas de relaxamento, como a meditação, vêm sendo estudadas e, em alguns casos, já são autorizadas como formas alternativas ou adjuvantes aos tratamentos convencionais.


(*) Dirson Stein e Mailton Vasconcelos são pesquisadores do Centro de Pesquisa Experimental do Hospital de Clínicas da UFRGS


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