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Geografia de fome: uma nova visão

Por Nagib Nassar (*) | 15/06/2021 08:30

Em seu clássico Geografia de fome (1951), o eminente agrônomo e sociólogo pernambucano Josué de Castro apontou claramente o pobre conteúdo proteico da mandioca, que é a principal comida de todo o Nordeste e Norte brasileiro. Ele explicou que essa cultura, que alimenta mais de 100 milhões de brasileiros e 1 bilhão dos trópicos úmidos na Ásia, África e América Latina, é tal pobre na proteína que até ela não ultrapassa 1% de suas comestíveis raízes. Ele explicou ainda que a cultura fornece mais de 80% das calorias diárias consumidas pelo povo nordestino e do Norte. Essa falta de proteína leva a graves doenças para recém-nascidos e crianças, como fibrose de pulmões e fígado, e até afeta o cérebro.

Josué de Castro sugeriu juntar o feijão à mandioca na comida nordestina para compensar a falta de proteína na mandioca.

Durante nosso programa de pesquisa, conseguimos variedades da mandioca com até três vezes conteúdo proteico, elevando o nível até 4%, mas isso não resolve o problema, pois o nível ainda é muito baixo para as necessidades humanas. A análise das folhas da mesma cultura mostrou que elas são tal ricas que até chegam a nível proteico de 32%, e parece que uma solução radical foi atingida. A adição da farinha de folhas à farinha de mandioca com proporção de 20% aumenta a proteína na mistura em até 8%; é pouco mais do que os 7% encontrados no trigo e no arroz. A adição não aumenta nenhum custeio ao consumo diário da mandioca, pois suas folhas nunca foram utilizadas pelos agricultores e normalmente são dispensadas.

A solução beneficia principalmente, além de adultos, mais de 20 milhões de crianças e recém-nascidos que são mais afetados e vulneráveis pelo desequilíbrio nutricional. Eles vivem na linha da pobreza e são aqueles que mais sofrem de falta nutricional da proteína, que é elemento básico nutricional essencial para crescimento sadio orgânico e mental.

Nessa fase de crescimento, a merenda escolar tem um papel essencial para futuro cidadão pelo o que ela oferece de básica alimentação.

A refeição equilibrada acima mencionada garante uma qualidade necessária para o crescimento saudável e, ao mesmo tempo, deve estar economicamente disponível e ao alcance orçamentário dos estados e prefeituras.

Como se trata de uma ideia nova, que deve ser levada à atenção do governo federal numa forma que convence pela disponibilidade e facilidade de aplicação, a nossa fundação financiou órgãos de extensão em dois estados principais do país, que são Mato Grosso e Paraná, para executarem a ideia. Isso fica de exemplo para todos os estados e para o governo futuramente. Nosso caminho de execução é a merenda escolar e os municípios e prefeituras que a aplicarem.

A atenção nacional ao assunto não somente é importante para cobrir uma área geograficamente maior, mas também para divulgar uma técnica e um método inovador para enriquecer e equilibrar comida popular, cujo conteúdo defeituoso e desequilibrado afeta uma grande parte da população. Com os novos conhecimentos e as novas aplicações, Josué de Castro, se vivo, deverá ser capaz de corrigir seu conceito antigo da década 1950 sobre geografia de fome, pois ele não imaginou o que nós encontraríamos nas folhas da planta de tanta proteína abundante.

Além de comida balanceada, fornecemos ainda às regiões amazônica e nordestina variedades melhoradas com tripla produtividade. O aumento da produtividade dessa cultura alimentícia deve ser prioridade máxima do nosso país.

Um aumento da produtividade foi, e pode ser ainda, alcançado pelo aproveitamento da potencialidade genética da cultura, que promete ser até sete vezes maior do que a média atual. A média nacional e internacional atual é de 14 toneladas per hectare e as variedades melhoradas podem chegar até 120 toneladas por hectare.

O aproveitamento da rica biodiversidade brasileira permitirá o plantio em áreas áridas ainda não cultivadas e o desenvolvimento de variedades ricas, em até oito vezes, do precursor vitamínico betacaroteno, e de outras variedades mais adaptadas às condições severas do meio ambiente.

(*) Nagib Nassar é professor emérito da UnB, pesquisador emérito do CNPq e presidente fundador da fundação filantrópica Funagib.

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