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Campo Grande, Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018

30/09/2018 13:00

Impulso que vem do novo

Por Coriolano Xavier (*)

Considerando dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) sobre a produção agrícola brasileira, no período de 1975 a 2015, observa-se que a produtividade total dos fatores de produção foi o grande vetor da expansão de nossa agricultura. O crescimento da produção deu-se, principalmente, pelo aumento de produtividade advindo de técnicas, produtos e processos inovadores em biologia e nutrição de plantas, mecanização das operações, proteção fitossanitária, manejo dos cultivos e organização da produção. Uma prova viva, histórica, de que inibir inovações equivale a esmorecer, em algum grau, o ritmo de crescimento das atividades econômicas, pois leva a perdas de competitividade.

O interessante estudo "Inovação Tecnológica e seus Impactos na Economia" (junho 2018), do economista Alexandre Mendonça de Barros, alerta sobre essa questão do que se ganha ou se perde quando estimulamos ou negligenciamos a pesquisa e a inovação. Para mostrar, o estudo começa por relacionar alguns riscos fitossanitários relevantes no país. Em soja, destaca três pragas com potencial para reduzir a produtividade entre 10% e 35%, caso não recebam adequado controle. Em milho, menciona três com potencial de dano na mesma faixa. Entre as doenças, aponta três com 10% a 25% de risco para a produtividade da soja, situação que piora com o milho, em que há doenças com potencial de redução de 30%, 40% e até 50%.

Segundo o trabalho, comparando tratamentos fungicidas para a ferrugem da soja, realizados durante a safra 2016/2017, envolvendo 39 ensaios e 27 instituições de pesquisa, a Embrapa apurou que os produtos fitossanitários que utilizavam moléculas de nova geração tiveram desempenho médio 16% superior, em relação àqueles formulados com moléculas antigas. Ou seja, houve um aumento de eficiência no controle da doença, decorrente da inovação tecnológica, sendo que em nenhuma situação as moléculas novas perderam para as moléculas antigas e o melhor resultado das novas – em comparação ao pior entre as veteranas – representou diferença da ordem de 30%.

Claro que os produtos novos, por seu próprio tempo de vida, tendem a não ser os mais utilizados no início. Então, só por hipótese e para ter uma dimensão econômica da questão, vamos imaginar um recuo de 5% na produtividade e vamos ver o seu impacto sobre o Valor Bruto de Produção (VBP) dessas culturas (base 2017): se os danos à produtividade fossem de 5%, haveria queda de R$ 1,9 e R$ 5,8 bilhões no VBP, respectivamente em milho e soja. E, se o recuo de produtividade fosse de 10%, o VBP cairia R$ 3,8 e R$ 11,7 bilhões, respectivamente. Perdas cujo impacto iria além, afetando o consumo do campo em bens e serviços diretos, indiretos, ou induzidos em outros setores da economia.

Este é um exemplo pontual na área fitossanitária. Mas esse tipo de efeito agregador da inovação também ocorre na genética vegetal, na nutrição de precisão, na automação e inteligência artificial, entre outras tecnologias. E não se trata aqui de fé cega na inovação, pois o pensamento científico e a reflexão crítica a respeito de inovações deve existir sempre.

Tecnologias interferem sobre a realidade e precisam ser avaliadas por suas vantagens comparativas e pela análise de seus riscos potenciais, com as métricas da ciência. Aliás, isso vale não só na produção do campo, mas também para um automóvel, avião, medicamento ou mesmo um prosaico celular. Tecnologia é motor da economia e inovação é motor da tecnologia. Ambas estão (junto com a educação) na raiz do crescimento da produtividade. 

Por Coriolano Xavier, membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) e Professor da ESPM.

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