O discurso antipolítico
Entre a Antiguidade e a Idade Média, numerosos tratados que versavam sobre política e retórica ocupavam-se em discorrer sobre as dimensões do Eu. Por exemplo, na retórica de Brunetto Latini (1220-1294), o político, poeta e filósofo florentino sistematizou a esfera de atuação da pessoa em três esferas, relacionadas ao éthos (caráter), ao oeconomicus (economia) e a pólis (cidade).
As três categorias de atividade reverberavam o que lemos na República, de Platão; na Retórica, de Aristóteles; na Economia, de Xenofonte; nOs Deveres, de Cícero, dentre tantos outros. O que essa concepção herdada à longa tradição greco-latina sugeria é que as ações do Eu dizem respeito simultaneamente à dimensão íntima e essencial (domínio da ética); à administração do lar (âmbito familiar) e aos modos de interferir nos assuntos da cidade (política). Recordar esse ensinamento que atravessou séculos e séculos pode ser útil, tendo em vista a maneira como questões fundamentais são abordadas, reta ou obliquamente, neste país, especialmente em anos de pleito eleitoral.
É muito frequente toparmos com sujeitos que torcem o nariz, sempre que a conversação resvala para temas de natureza política. Curiosamente, muitos dentre esses mesmos interlocutores adotam discursos de teor politiqueiro (com que fingem discutir Política, com pê maiúsculo), a depender do teor que lhes convém (e do retorno que obtêm). Ora, quando a Política é pensada como arte – ou seja, como um conjunto de técnicas, aplicadas segundo preceitos e métodos de interação na sociedade – ela não deveria se confundir com a mera politicagem.
Se há distância entre a macropolítica e as chamadas políticas públicas (setoriais), existe verdadeiro abismo conceitual entre Política, no sentido lato, e micropolítica. Para começar, as escalas e impactos são absolutamente distintos. Uma coisa é discutir soberania, igualdade social, medidas macroeconômicas etc.; coisa bem diferente é defender assimetrias, naturalizar as múltiplas formas de desigualdade ou entender de orçamento doméstico.
Talvez a questão inicial seria saber de onde brota o discurso avesso à Política, em particular nos sujeitos que aderem a ele por preconceito geral, ignorância das matérias ou má-fé. Esse estado de coisas se complexifica quando uma reduzidíssima fração da sociedade convence outros setores e camadas a desprezar toda e qualquer questão econômica, social e cultural que, em tese, não lhe diriam respeito (embora uns e outros se empenhem, ao máximo, em propagar fake news e se enrodilhar na bandeira nacional, a atuar como caricatura tragicômica e personalizada do pseudopatriotismo, que não vê problema em reproduzir o discurso neocolonizado).
Quem se empenha em agir e discursar contra a efetiva discussão política atua como um ator pseudoengajado. Não por acaso, há um ar farsesco nos movimentos de certos grupos antidemocráticos. De maneira geral, sua argumentação é tanto mais autoritária quanto inconsistente. Cidadãos dessa estirpe costumam conceber seu bairro, sua cidade ou seu país de modo exclusivo e violento: noções tais como povo, soberania e distribuição de renda costumam ficar de fora de suas apertadas equações, onde tudo se torna gasto (e não investimento), demagoria (e não reparação histórica), roubalheira (e não sonegação generalizada de impostos).
O discurso refratário à ação política não admite transformação (embora defendam um Brasil moderno…), pois seus portadores acreditam (ou fingem crer) que toda mudança em favor de outrem implica sacrifícios de quem chegou primeiro (em geral, graças a uma penca de privilégios) e, supostamente, venceu por mérito. Nesse sentido, costuma haver um tanto de desfaçatez, e mesmo um punhado de sadismo, entre aqueles que se contrapõem a medidas que beneficiam a maioria, pois parecem estar obcecados em se distinguir dos demais.
Esse quadro se agravou consideravelmente nas últimas décadas, alimentado pelas redes sociais, pelos canais de streaming e por numerosos portais de desinformação, alguns deles financiados por poderosas empresas (brasileiras e estrangeiras). Seus porta-vozes proliferam em canais de rádio e tevê, mas assumem tanto ou maior protagonismo em podcasts que trazem dados imprecisos e discussões superficiais, supostamente em nome de um novo país, de preferência situado paralelamente aos fatos críticos.
Muitos dentre aqueles que protestam, afirmando estar “fartos de política”, costumam desprezar os concidadãos e ignorar a história de sua terra. Muitos deles não hesitam em submeter os seres em seu entorno à antiética do lucro, contraparte do logro. Não custa lembrar que o discurso que se diz contrário à política não é neutro, desinteressado ou isento. Intitular-se cidadão de bem quase sempre implica vangloriar-se por uma postura egoica, por vezes incapaz de se reconhecer como parte da população que carrega a mesma bandeira.
(*) Jean Pierre Chauvin, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP
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