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O Domingo das Quatro da Tarde

Por Gillianno Mazzetto (*) | 27/03/2026 17:00

Existe uma hora do domingo que ninguém te avisa. Não está no calendário, não tem alarme, não pede licença. Ela simplesmente chega, por volta das quatro da tarde, quando a luz muda de tom e o silêncio da casa ganha um peso que nenhum outro dia da semana conhece.

Não é tristeza. Não é solidão. Não é exatamente saudade, embora ande muito perto dela. É uma coisa sem nome. E o sem-nome, perceba, é sempre o mais difícil de suportar.

Perguntei para a filha de um amigo uma vez se ela conhecia esse domingo. Ela tinha dez anos. Demorou dois segundos, dois segundos que me pareceram muito mais maduros do que a idade dela comportava. "Conheço", ela disse. "É quando eu fico com vontade de fazer alguma coisa, mas não sei o quê."

Exatamente isso.

Os gregos tinham uma palavra para o vazio que não é ausência de coisa alguma, mas presença de algo que não se nomeia: kenosis. O esvaziamento que gera presença. Ele não é o buraco de quem perdeu algo ou o espaço de quem ainda não encontrou. Ou, mais assustador ainda, de quem encontrou e não reconheceu.

O domingo das quatro da tarde é kenosis em estado puro, porque é simplesmente, presença.

Por muito tempo, tratei esse estado como defeito a corrigir. Tinha trinta e poucos anos, dirigia uma instituição e tratava qualquer pausa como inimiga da produtividade. Se havia silêncio, eu o preencheria. Se havia domingo, eu o transformaria em segunda-feira antecipada. Funcionou. O tipo de funcionamento que, anos depois, você percebe que era apenas adiamento, e adiamento cobrado com juros.

Mas antes disso, foi em um fim de semana em Lyon (França), segundo ano fora do Brasil, longe da família, sem rotina, com o dinheiro que um estudante nunca tem, sem a salvação de um e-mail urgente, que o domingo das quatro me alcançou de verdade.

Fiquei imóvel uns vinte minutos olhando pela janela para uma rua onde não conhecia ninguém. E por uma razão que ainda não compreendo inteiramente, fui, aos poucos, deixando de lutar contra aquilo. O desconforto não sumiu. Mas mudou de natureza. Deixou de ser ameaça e virou pergunta. Deixou de ser falta e passou a ser presença.

Albert Camus, um filósofo franco-argelino, escreveu que o absurdo nasce do confronto entre a necessidade humana de clareza e o silêncio irracional do mundo. Isso não é derrota, é o ponto de partida honesto. Naquele domingo em Lyon, sem saber que estava tendo uma experiência filosófica, ela veio me abraçar.

O problema, percebo agora, é que passamos a vida inteira fugindo exatamente desse estado.

Preenchemos os domingos com séries, com churrasco obrigatório, com a rolagem infinita de uma tela que não deixa nada pousar de verdade. Não porque somos rasos, somos, muitos de nós, pessoas de uma profundidade muito grande. Fugimos porque o domingo das quatro da tarde pergunta coisas para as quais não temos resposta. E perguntas sem resposta são malvistas numa época em que todo problema deveria caber num tutorial de três minutos.

"Você está bem?" perguntam.

"Estou", respondemos.

Quando na verdade há inquietações ou problemas que, internamente, nos dilaceram. Vivemos no mais ou menos.  E este é o problema, pois ele, o "mais ou menos" fica engolido, vai se acumulando em silêncio até virar um peso que a gente não sabe nomear.

Sêneca dizia que o maior desperdício não é o tempo que perdemos, mas o que não percebemos que estamos perdendo. O domingo das quatro é o aviso mais honesto que a vida nos manda, e nós ligamos a televisão, ativamos a rolagem infinita de uma rede social. O famoso modo Scroll.

Aqui está a questão que não consigo parar de fazer: e se essa sensação sem nome não for sinal de que algo está errado em nós? E se for exatamente o contrário? Sinal de que ainda estamos vivos o suficiente para sentir o peso de existir?

Porque, considerando as alternativas, não é pouca coisa.

Outro dia, num domingo de quatro da tarde, encontrei uma jovem de uns dezesseis anos sentada em uma varanda, olhando para lugar nenhum.

Não perguntei se estava bem.

Me sentei do lado.

Às vezes, a resposta mais inteligente a uma pergunta sem nome é simplesmente não tentar respondê-la sozinho, mas sim, permitir que o fluxo da vida revele o seu sentido.

Pense nisso.

(*) Gillianno Mazzetto é filósogo e psicólogo.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.