Engajamento sem instituições? O paradoxo do deslocamento
O problema contemporâneo das organizações públicas não é a ausência de participação social, mas a fragilização do engajamento institucional em um ambiente de crescente mobilização em torno de causas.
Vivemos um paradoxo: nunca houve tanta mobilização social, e, ao mesmo tempo, nunca as instituições pareceram ser tão frágeis. Há mais ativismo, mais causas, mais posicionamentos, mas menos compromisso duradouro com as organizações responsáveis por transformar essas causas em resultados.
Se organizações dependem de suporte social para sobreviver, como apontam Selznick e Moore, esse deslocamento cria uma tensão relevante: o engajamento existe, mas não necessariamente onde ele é mais necessário.
O que é engajamento e o que ele não é
Engajamento não é sinônimo de participação. Participar é estar presente. Engajar-se é comprometer-se com a continuidade, o desempenho e o futuro de uma causa e organização.
O engajamento envolve intensidade, continuidade e vínculo. Ele pressupõe responsabilidade compartilhada, algo que vai além de manifestações pontuais ou adesões momentâneas a causas.
No entanto, grande parte da literatura e do debate público concentra-se no engajamento com causas, movimentos ou marcas, negligenciando o engajamento direcionado às próprias instituições.
O deslocamento: de instituições para causas
No ambiente atual, o engajamento tende a migrar das instituições para causas específicas.
Causas são mais simples de comunicar, mais rápidas de mobilizar e mais visíveis socialmente. E os compromissos podem ser ajustados ou até esquecidos, o que custa menos para as pessoas e proporcionam sensação de liberdade sem cobrança.
Já as instituições operam sob restrições legais, políticas e organizacionais que tornam suas respostas mais lentas e complexas. Afinal, esperar não é algo que nos agrade e o imediatismo impera como argumento para se contrapor ao amadurecimento de uma solução ou evolução distante da nossa vontade.
Esse deslocamento gera um efeito colateral importante: a mobilização cresce, mas o vínculo institucional enfraquece. Na verdade, pior do que isso, algumas causas legítimas conflitam umas com as outras e a instituição, que deveria operacionalizar soluções para a sociedade, não consegue trazer respostas. Afinal, em última análise, a instituição é que será cobrada.
As organizações passam a ser vistas como instrumentos temporários e não como estruturas a serem preservadas e fortalecidas ao longo do tempo. Com isso, fora do curto prazo, ninguém ganha.
Consequências: o declínio silencioso
Esse processo produz um tipo específico de fragilização organizacional: o declínio silencioso.
Uma metáfora ajuda a ilustrar. Após fortes tempestades, muitas árvores caem. Isso aconteceu na minha rua: evidência empírica. À primeira vista, parece um evento súbito. Mas, ao observar mais de perto, percebe-se que várias já estavam comprometidas internamente. Só que as pessoas não estavam atentas e nada fizeram para evitar a morte. Afinal ela não tinha sido anunciada. Alguns lamentos quando a notícia foi divulgada, mas nada muito profundo. Apenas um olhar burocrático, muitas vezes exclusivamente preocupado em evitar ser acusado de alienação social.
Com as organizações ocorre algo semelhante.
Crises externas muitas vezes apenas revelam fragilidades que já existiam. A ausência de engajamento consistente reduz a capacidade de prevenção, aprendizado e adaptação.
Sem engajamento institucional, a organização pode continuar existindo formalmente, mas perde vitalidade, legitimidade e capacidade de reação.
O que fazer: o engajamento consciente
Diante desse cenário, torna-se essencial promover o que se pode chamar de engajamento consciente. Isso implica reconhecer as instituições como instrumentos legítimos de transformação social, e não apenas como arenas de disputa.
O engajamento consciente exige clareza sobre o valor público gerado pelas organizações, conexão entre participação e efeitos reais e coerência entre discurso e prática (accountability substantivo).
Transparência sem engajamento vira checklist. Engajamento sem accountability, estimulando o que deve ser feito e prestando contas de maneira clara e efetiva, vira ativismo sem direção.
E daí?
Causas mobilizam. Instituições executam. Sem engajamento institucional, causas sobrevivem no discurso, enquanto as organizações responsáveis por implementá-las se fragilizam. Sem instituições, não teremos a concretude de projetos e ações que realmente transformem a sociedade.
O risco não é a ausência de mobilização, é a “morte, lenta e não anunciada” das instituições. Igualzinho às árvores da minha rua.
A pergunta que fica é simples, mas incômoda:
você está engajado apenas com as causas, ou com as organizações que tornam essas causas algo concreto e transformador?
(*) Fábio Frezatti, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP
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