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O ódio também é vínculo

Por Cristiane Lang (*) | 15/06/2026 08:30

Há pessoas que continuam vivendo dentro de nós mesmo depois da despedida. Algumas permanecem como ternura. Outras, como ausência. E há aquelas que ficam como ferida aberta, ocupando espaço através da mágoa, da raiva e até do ódio. Porque o contrário do amor, muitas vezes, não é a indiferença. O contrário do amor é o vazio absoluto. E odiar alguém ainda é uma forma dolorosa de manter essa pessoa viva dentro de si.

O ódio também é vínculo.

É uma corda invisível que continua ligando quem já deveria ter partido emocionalmente. Quem odeia pensa, revive, alimenta diálogos imaginários, repassa injustiças antigas como quem esfrega os dedos numa cicatriz para garantir que ela continue doendo. A pessoa odiada, muitas vezes, segue a vida sem sequer imaginar o tamanho do espaço que ainda ocupa no coração de alguém. Enquanto isso, quem sente a raiva vai adoecendo aos poucos, carregando um incêndio dentro do próprio peito.

A mágoa tem esse estranho poder de aprisionar. Ela nos mantém emocionalmente sentados diante de portas que já foram fechadas há muito tempo. Faz com que o passado continue governando o presente. E existe um cansaço silencioso em quem vive preso ao que aconteceu, porque reviver dores diariamente exige energia, exige entrega, exige uma atenção contínua ao sofrimento.

A raiva é uma emoção humana. Ela nasce quando nos sentimos feridos, humilhados, traídos, desrespeitados. Sentir raiva não nos torna maus. O problema começa quando transformamos essa emoção em moradia permanente. Quando ela deixa de ser um visitante passageiro e passa a ocupar todos os cômodos da alma.

Há pessoas que alimentam o próprio ressentimento como quem cuida de uma planta venenosa. Regam diariamente lembranças ruins, repetem mentalmente ofensas antigas, constroem discursos internos carregados de vingança. E sem perceber, tornam-se emocionalmente dependentes da própria dor. Porque o ressentimento cria identidade. Algumas pessoas já não sabem mais quem seriam sem aquilo que as feriu.

Mas nenhuma ferida cicatriza enquanto continua sendo cutucada.

O ódio promete sensação de força, mas corrói silenciosamente quem o abriga. Ele altera o humor, rouba a leveza, endurece o olhar. Pouco a pouco, a pessoa deixa de viver o presente porque continua emocionalmente acorrentada ao que aconteceu ontem. E talvez a maior tragédia disso seja permitir que alguém continue nos ferindo mesmo depois de já ter ido embora.

Perdoar, ao contrário do que muitos pensam, nem sempre significa absolver o outro. Às vezes, significa apenas escolher não continuar carregando um peso que destrói por dentro. Existem perdões que não reconciliam relações, mas reconciliam a pessoa consigo mesma. Porque seguir em frente exige espaço interno. E o ódio ocupa espaço demais.

A vida já é pesada demais para ainda carregarmos pessoas dentro do peito através da raiva.

Há um tipo de liberdade que nasce quando finalmente entendemos que algumas histórias não terão reparação, algumas dores não terão pedido de desculpas, e algumas pessoas jamais reconhecerão o mal que causaram. Esperar justiça emocional eterna é permanecer preso à expectativa de que o outro cure algo que talvez só nós possamos cuidar.

E isso não significa fingir que nada aconteceu. Não significa negar a dor. Significa apenas não permitir que ela continue governando os dias futuros.

A indiferença verdadeira não nasce da frieza. Ela nasce da cura.

 Chega um momento em que a alma cansada escolhe descansar. Escolhe parar de revisitar cenas antigas. Escolhe não gastar mais energia tentando odiar. Porque odiar também cansa. E muito.

Talvez amadurecer emocionalmente seja justamente compreender que algumas pessoas não merecem mais espaço dentro de nós — nem através do amor, nem através da raiva.

Pois no fim, a mágoa, o ódio e o ressentimento raramente ferem quem os provocou. Quase sempre ferem apenas quem decidiu carregá-los no peito por tempo demais

(*) Cristiane Lang é psicólogo.

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.