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O retrato da educação antirracista na cena audiovisual

Por Andrielle Prates da Silva Machado (*) | 22/02/2024 08:30

É evidente a herança escravocrata que o Brasil carrega ainda hoje. Podemos identificar esse fato quando nos deparamos com o racismo diário, que desumaniza e descredibiliza pessoas negras, e a insistente política de negação de direitos que atravessa a vivência negra diariamente.

Um exemplo disso é o infeliz descumprimento da Lei 10.639/2003 nas escolas do nosso país, que impede milhares de jovens negros de adquirirem conhecimentos sobre a história de seus antepassados e sobre a verdadeira contribuição do povo negro para a sociedade brasileira.

Reconhecer a história dos povos que contribuíram para a civilização humana é compreender a História do Brasil para além do cenário estereotipado que os livros nos mostram desde o início da vida escolar. É na tentativa de construção de um autoconhecimento que a sociedade negra diaspórica vem buscando compreender e reescrever sua própria história.

A população negra vem aumentando a sua consciência, se fortalecendo e buscando narrar a própria história a partir de uma ótica positiva, objetivando fortalecer cada vez mais nossas pautas e reivindicações como forma de reparar a dívida histórica de retirada de direitos do povo preto.

Pensando no papel da educação e da cultura afro-brasileira na sociedade e na necessidade de a história ser contada pela perspectiva de quem sofre os reflexos de uma sociedade estruturalmente racista, meu Trabalho de Conclusão de Curso pesquisou o documentário AmarElo – É Tudo Pra Ontem, do rapper Emicida, a fim de identificar sua contribuição para a libertação do pensamento negro em diáspora.

Lançado em dezembro de 2020 na plataforma de streaming Netflix, o documentário retrata diversos pontos da história negra brasileira, apresentando fatos e nomes que não são abordados cotidianamente, a começar pela abolição da escravidão até os dias de hoje. Desde a história do samba e do hip hop, passando pelos movimentos provenientes da cultura afro, até a história dos movimentos culturais, sociopolíticos e dos territórios geográficos.

A partir de uma narração feita pelo próprio rapper e mesclando imagens dos bastidores da gravação do álbum AmarElo no estúdio, com fotos, recortes de vídeos de acervos, ilustrações e trechos de filmes, ele conta sobre a parcela da História do Brasil que foi invisibilizada nos livros didáticos.

E, dessa forma, contribui para a educação e a identificação da sociedade brasileira, pois, muito além de um conteúdo musical, o documentário expõe fatos históricos que atravessam a vida da população negra.

É necessário destacar que a popularização dos modelos de consumo e das tecnologias abriram espaço para o gênero audiovisual atuar enquanto um mobilizador social e um instrumento didático de ensino. O trabalho realizado por Emicida em AmarElo é uma contribuição para a comunicação popular, como afirma o teórico Luiz Beltrão ao tratar da teoria da Folkcomunicação, uma ideia baseada na comunicação para além dos meios tradicionais de comunicação, ou seja, uma comunicação “do povo para o povo”.

A população negra sempre esteve às margens dos meios tradicionais de comunicação (televisão, rádio, jornais e revistas) e, além disso, sempre encontramos a ausência de representatividade nesses espaços que não foram pensados para dialogar com a sociedade afro-brasileira.

Sendo assim, a cultura popular, bem como o hip hop, a partir de memórias coletivas e da aproximação com o cotidiano das periferias, se tornou um mecanismo alternativo para a comunicação entre as ditas minorias da sociedade.

O conteúdo da produção audiovisual realiza uma costura consistente e coerente que vai desde explicar os processos de apagamento histórico, bem como as políticas de embranquecimento, até a ocupação dos espaços pela população negra, principalmente os espaços de decisões.

Com o objetivo de compreender seu papel na educação antirracista, analisamos alguns trechos que sustentam a reconstrução histórico-cultural do Brasil, cooperando com aquilo que entendemos por pensamento negro, construído por uma concepção que considera a existência e a participação da cultura africana para a formação da sociedade.

Por mais que hoje estejamos inseridos em um contexto repleto de mecanismos para combater o racismo e o preconceito, sabemos que ainda lutamos contra a institucionalização e a consciência eurocêntrica de uma parcela da sociedade ainda responsável por comandar grande parte das instituições, o que torna o processo mais difícil.

Além de se apresentar enquanto recurso emancipatório para a população afro-brasileira através da arte, a importância de AmarElo para a nossa geração está na forma como ele se propõe a romper com o longo efeito da escravização na consciência do povo negro.

Em suma, o documentário explora a urgência de tratar sobre a questão do “ser negro” no Brasil, bem como sobre temas que, infelizmente, ainda se escondem por trás de informações forçadas, como o “mito da democracia racial”, por exemplo, que acaba por esconder o vicioso ciclo de violências e desumanização com que o país trata a vida da população negra.

Com AmarElo e a imensidão de produções que surgem a partir da descolonização do pensamento brasileiro, damos um passo importante em direção à valorização do nosso próprio legado enquanto pessoas negras. Nesse sentido, podemos reconhecer que o conceito de “Nós por Nós” fortalece nossa existência e se constitui para além da fala. Um “povo negro unido é um povo negro forte”.

(*) Andrielle Prates é estudante de Jornalismo.

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