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Campo Grande, Domingo, 25 de Junho de 2017

19/10/2012 14:35

O Teorema de Eliseu

Por Kátia Abreu

Com base, única e exclusivamente, nos Censos do IBGE, o cientista Eliseu Alves, que "modelou" a Embrapa nos anos 1970, criou um singelo teorema, cujo enunciado é uma preposição que reclama urgentemente debates políticos e econômicos. 

Aos 81 anos, ainda mais lúcido e sábio, expõe: "Somente a disseminação intensiva de tecnologia -que 1) promoveu o crescimento da agricultura brasileira; 2) pagou boa parte da divida externa; 3) diversificou e ampliou as exportações; 4) reduziu substancialmente o preço da cesta básica; 5) gerou poupança para financiar o desenvolvimento e os programas de transferência de renda- pode eliminar a pobreza rural, desconcentrar a renda e gerar bem-estar no campo". 

Fica por minha conta a enumeração das premissas usadas por Eliseu para poupá-lo de acrescentar fatos históricos à sua demonstração. Bastaria ter apresentado as evidências, que só a percepção dos homens da ciência registra e incorpora ao conhecimento corrente. Seu tema era "O que falaram os Censos do IBGE", mas Eliseu Alves passou surpreendentemente dos números censitários à conclusão precisa. 

Lembro-me de que copiei apressadamente a preposição que ele, na sua modéstia, não anunciou como teorema. Seguindo sua forma didática e direta de expor, ilustrada com referências históricas, memoriais pessoais, dados científicos e desconcertantes observações prosaicas, logo percebi que apenas introduzia sua mais recente obstinação de profeta da nossa agropecuária: resgatar a pobreza rural que domina o interior do Brasil. 

Atualmente, das 4,4 milhões de propriedades rurais de todos os tamanhos existentes no país, que declararam renda e área no Censo Agropecuário de 2006, apenas 27,3 mil geram renda superior a 200 salários mínimos mensais, enquanto 2,9 milhões obtêm do trabalho na terra menos de dois salários mínimos. Esse valor é insuficiente para manter três adultos, que é a convenção estatística para avaliar o número de pessoas que tiram o sustento de uma propriedade rural no Brasil. 

Considerando a produtividade média, pouco mais de 50 mil propriedades bastariam para gerar 100% da renda da agricultura brasileira. Ou seja, 4,3 milhões de propriedades rurais brasileiras não rendem o que deveriam. O número expõe, com precisão, a relação entre concentração de renda e pobreza na nossa agropecuária. 

Num país onde as palavras se desgastam com incrível velocidade para servir a paixões e interesses, é muito salutar que a ciência apresente números que nos abram os olhos à realidade. 

É o caso do paradoxal êxito do agronegócio convivendo com a extrema pobreza rural, que persiste no Brasil. Os números que calçam as observações de Eliseu Alves desfazem preconceitos, deformações ideológicas, crendices, explorações oportunistas. 

Se partirmos de constatações expostas em números no Censo Agropecuário do IBGE, algumas assertivas ajudam a entender o quadro: a tecnologia, cujo uso explica o crescimento da agricultura, também explica, pela ausência, a concentração de renda do agronegócio, assim como a pobreza rural. 

Só há uma saída: a modernização da agricultura familiar, com a adoção de tecnologias adequadas. Sem a geração e a difusão de tecnologia, não adianta buscar soluções revolucionárias ou reacionárias, mágicas ou esotéricas. 

A terra -insumo indispensável para plantar e criar- já não explica o crescimento da produção agropecuária: a produtividade gerada pela tecnologia inverteu todos os gráficos de relação entre produção e áreas plantadas e de pastos. 

Para modernizar o campo, é premente e inadiável a implantação de um novo modelo de assistência técnica rural, conforme já anunciado pela presidente Dilma Rousseff. 

A propósito, escrevo este artigo no momento em que estão ocorrendo mudanças na Embrapa, que é o grande centro de referência da nossa agropecuária. Desejamos que a instituição continue mirando o exemplo de Eliseu Alves, que deu o primeiro passo para transformar a excelência da nossa ciência em mais alimentos, empregos, PIB e renda para os brasileiros. 


*Kátia Abreu, 50, é senadora (PSD/TO) e presidente da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil)
** Artigo publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo

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