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Quem sou eu?

Por Rose May Carneiro (*) | 20/06/2024 08:30

Eu sou o cinema brasileiro, cachoeira em constante metamorfose, potência e transformação, como bem disse Humberto Mauro. Desde as chanchadas que traziam a leveza e o humor para as telas nos anos 1930 a 1950, até os filmes contemporâneos que exploram questões sociais e culturais complexas, tenho me questionado e redefinido continuamente. Não sou apenas uma busca por identidade, mas também um diálogo entre a realidade brasileira, suas contradições e peculiaridades.

Gosto de pensar no termo "cineasta", que abraça tanto homens quanto mulheres, sem distinção. Elas, com suas histórias, sonhos e questionamentos, têm transformado meu mundo. Cleo de Verberena, a primeira mulher a dirigir um longa-metragem no país ("O Mistério do Dominó Preto"), abriu caminho para tantas outras: Carmen Santos ("Onde a Terra Acaba"), Suzana Amaral ("A Hora da Estrela"), Ana Carolina ("Mar de Rosas"), Tereza Trautman ("Os Homens Que Eu Tive"), Lúcia Murat ("Que Bom Te Ver Viva"), Helena Solberg ("A Entrevista"), Helena Ignez ("Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha"), Adélia Sampaio, a primeira mulher negra a dirigir um longa no Brasil ("Amor Maldito"), Tizuka Yamazaki ("Gaijin – Os Caminhos da Liberdade"), Carla Camurati ("Carlota Joaquina – Princesa do Brazil"), Tata Amaral ("Um Céu de Estrelas"), Tania Montoro ("Hollywood do Cerrado"), Anna Muylaert ("Que Horas Ela Volta?"), Laís Bodansky ("Como Nossos Pais"), Petra Costa ("Elena"), e muitas outras que compõem minha história.

Nos anos 60 e 70, abracei a introspecção do Cinema Novo, guiado por Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos. Influenciados pelo neorrealismo e nouvelle vague, desafiaram tradições, refletindo as desigualdades profundas, a luta e a resistência do meu povo, com filmes como "Deus e o Diabo na Terra do Sol" e "Vidas Secas". Enfrentei críticas e contradições. O Cinema Marginal emergiu, rebelde, visceral e anárquico com Rogério Sganzerla e seu "O Bandido da Luz Vermelha". Rompi normas, criei uma linguagem mais caótica, experimental e multifacetada, refletindo os antagonismos e o pulsar das personagens urbanas.

Nos anos 90, a Retomada marcou minha revitalização. Walter Salles e Fernando Meirelles, com "Central do Brasil" e "Cidade de Deus", alcançaram o mundo, reexaminando identidades e desigualdades, reafirmando meu potencial de encantamento e diálogo global. Hoje, continuo a me reinventar. Filmes como "Que Horas Ela Volta?" e "Bacurau" exploram temas de classe, identidade e resistência, questionando meu passado e presente, abrindo caminhos para novas visões com sensibilidade estética aflorada.

Minhas obras propõem visões alternativas e críticas sobre a sociedade atual. A produção crescente de documentários e animações indica uma diversificação das vozes e formas de expressão. O meu futuro é promissor, mas desafiador. A globalização e as novas tecnologias trazem visibilidade e competição. Pergunto-me: como manter minha singularidade cultural e estética em um mundo em constante transformação? Como ser único e provocador em tempos de inteligências artificiais?

Minha essência ganha fôlego na resistência, resiliência e adaptação. Vivo em constante autoquestionamento e reinvenção, garantindo minha vitalidade, força e relevância. Olho para o futuro com esperança. Exploro raízes culturais e sociais, desvendo paisagens e biomas do Brasil profundo, coloco em foco populações tradicionais, evidencio o clamor das ruas, o desejo de liberdade e respeito das mulheres, enquanto abraço novas formas, pulsões e tecnologias.

A diversidade de vozes é minha maior força. Reflito a complexa realidade brasileira, colocando minhas lentes em novas visões e possibilidades. Em minha jornada contínua, sou espelho, fragmentação, ruptura e questionamento. Sou um meio de entender, entreter e transformar a sociedade que retrato. Sou filme, sou película, super 8, 16 ou 35 milímetros. Pouco importa a bitola, sou analógico e digital. No deslindar do tempo, minha história continua a ser contada, com paixão, criatividade e autenticidade.

Ontem, 19 de junho, celebrei meu dia: Dia do Cinema Brasileiro. Esta data não veio por acaso. Remonta a um marco histórico de 1898: a primeira filmagem em território nacional, feita no convés do navio "Brèsil" pelo imigrante italiano Afonso Segreto. Esse momento inaugurou uma era, lançando as bases para uma expressão artística que, desde então, captura e reflete a diversidade, as complexidades e as transformações da identidade brasileira.

Ao longo dos meus 126 anos, sigo evoluindo, refletindo uma rica tapeçaria cultural e social. Desde Afonso Segreto até as produções contemporâneas, exploro temas como viagem, identidade nacional e cultural, e as trajetórias individuais que moldam nosso tecido social. Sou arte, linguagem, meio de comunicação e persuasão, uma prática discursiva que nos faz sonhar. Muito prazer, sou o Cinema Brasileiro. Meu tempo é hoje.

(*) Rose May Carneiro é professora, fotógrafa, cineasta e pesquisadora do curso de Audiovisuais da Faculdade de Comunicação da UnB.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do portal. A publicação tem como propósito estimular o debate e provocar a reflexão sobre os problemas brasileiros.

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