Sem precedentes: Leão XIV e Trump
Por que uma foto sem precedentes, uma imagem de Trump à moda de Jesus Cristo, atrai o nosso olhar?
Fotos ou palavras podem sugerir bondade ou maldade, luxúria ou contenção, riqueza ou pobreza. Atrai porque carrega uma novidade, um absurdo, uma ruptura. Pode ser uma obra de arte, como um urinol exposto em posição invertida em uma exposição (Marcel Duchamp), ou a negação de um fato comprovado, óbvio, como a importância da vacinação ou a existência do aquecimento global.
A estratégia para chamar a atenção, dependendo da circunstância e do autor da novidade, pode ser uma obra de arte, uma piada ou apenas uma armadilha da comunicação. O presidente dos Estados Unidos gosta de usar essas armadilhas para se manter em destaque na cena mundial. Vaidade é seu forte.
Essa estratégia de comunicação funciona.
Trata-se de habilidade midiática que ele desenvolveu fazendo negócios imobiliários e, como comunicador, manipulando as linguagens. Ele inverte significados tradicionalmente pactuados nas tradições do Ocidente. Utiliza em ordem inversa, por exemplo, a tipologia de vícios e virtudes. Esbanjar luxo, pregar ódio ao próximo e estimular vaidade. Táticas para chamar a atenção por meio da inversão de valores morais pactuados socialmente há séculos.
Os diversos símbolos culturais também entram no seu pacote de comunicador. Com alguma alteração despropositada, os símbolos servem como brinquedo, bem adaptado à IA. Tanto faz para ele a figura do Super Homem ou de Cristo – se a imagem vender, ok. Joga na rede e, em caso de excesso de manifestações contrárias, com um só um clique deleta a imagem ou informação. No caso de aceitação, a sua rede dissemina a sua barbárie.
Brincadeira sem custo.
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Em matéria de simbologia e ideias, a imagem de Cristo já foi questionada, assim como a de Maomé e uma infinidade de outras. A sátira dos cartunistas do jornal francês Charlie Hebdo ao profeta Maomé resultou em um atentado com 12 mortos em Paris, no ano de 2015. A história está repleta de limitações a ideias ou imagens. Voltaire (1694-1778), pensador iluminista, denunciou vários casos ao longo da vida.
A diferença de Trump, em relação à imagem postada, imitação de Cristo, é a utilização do símbolo religioso em seu projeto político em data próxima às eleições para o Congresso americano. Agredir pessoas com símbolo religioso de quem você espera apoio nas urnas é uma ideia sem precedentes.
A estratégia de comunicação de Trump se vale, repetidas vezes, de um mesmo mecanismo, a inversão dos valores típicos do pensamento humanista.
Desrespeitar a vida humana como um valor maior é a alma do seu negócio.
Ele sente prazer em provar que o dinheiro e o poder não têm limites, compram igualmente coisa e gente. Compram instituições, civilizações, governos, nuvem, qualquer coisa. Para ele, a cultura, a política e a ética são representações ridículas, mantidas em silêncio respeitoso porque os seres humanos não têm coragem de expor o que de pior existe neles. E, ele, como é forte, não tem medo de dizer as “verdades”.
Ele se engana.
Se tivesse lido Dostoiévski, saberia que existe no homem o pior e o melhor. Saberia que a cultura, as civilizações em busca da sobrevivência – e não de seu aniquilamento – produzem formas de viver em sociedade. As diferentes culturas podem produzir maior ou menor bem-estar social. A variação é grande no tempo e no espaço. Os arranjos institucionais e as formas de governo não se confundem com a complexidade das culturas espalhadas pelo planeta. Da mesma forma, as festas de Vorcaro e Epstein não caracterizam a condição humana, com as suas ambiguidades e sua enorme capacidade de errar e de rever suas burrices, loucuras, assassinatos. Perdão, misericórdia ou conciliação são conquistas humanas, conquistas culturais. A ONU, a OMC e a Unesco, por exemplo, são conquistas civilizacionais. Como tudo no mundo, objeto de transformações ao longo do tempo. Não é de se estranhar que tenham surgido no pós-guerra.
O homem moral existe e é companheiro constante de suas dúvidas. As dúvidas produzem e transformam as culturas.
Um chefe de Estado da maior potência do mundo, em termos bélicos e políticos, defender a destruição de uma civilização, significa vender para a humanidade a ideia de que os usos e costumes e todas as formas de cultura processados por séculos não significam nada diante do dinheiro, das armas atômicas, do poder bélico. Não tenho dúvida sobre a importância do dinheiro, do poder e da bomba atômica. Tenho plena consciência de que é possível destruir o planeta. Mas considero o poder e o dinheiro sensíveis a abalos.
Às vezes um só justo causa terremotos.
Acompanho Montesquieu ao “julgar não haver república sem virtude. Do mesmo modo não há sociedade digna sem ética”.
Nesta história, sem precedentes, é necessário ter claro o fato de Trump possuir em sua cabeça, sem nomear, um modelo político. Para ele, o planeta estaria melhor com menos gente e mais negócios rentáveis voltados para ele, seus parentes e amigos de pele branca. Quanto mais poluição, guerra e fome, melhor, mais gente pode morrer.
Esta é a sua “Guerra Santa” e de seus ideólogos (Steve Bannon, por exemplo), assassinos civilizacionais, defensores da necropolítica. Este é o seu objetivo estratégico, veiculado de forma conscientemente imprecisa, tanto por ele como por aqueles que o cercam.
Trata-se de diminuir o número de humanos, de humanistas, seus piores inimigos.
Papa Leão XIV é um humanista.
Papa Leão XIV não é fraco. É forte.
Ele conhece as artimanhas da retórica, ou seja, não vai dar palanque para Trump.
Leão XIV é pastor das almas.
De todas.
A diplomacia tem raízes em Francisco de Vitória (1483-1546), fundador do direito internacional moderno. Figura ligada à Escola de Salamanca. A cidade espanhola deixou raízes humanistas até os dias atuais. Pedro Sánchez, primeiro-ministro da Espanha, criticou Trump com base no direito internacional. Ele não compactua com qualquer política e, se necessário, paga o preço.
Leão (XIV) não tem medo de Trump.
(*) Janice Theodoro da Silva, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP
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